Veja detalhes do PL Antifacção aprovado pela Câmara
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Política

Veja detalhes do PL Antifacção aprovado pela Câmara

Câmara aprova PL Antifacção com penas de até 40 anos e banco nacional de facções; votação inclui debate sobre terrorismo. Texto vai ao Senado.

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Por Mariana Albuquerque

Jornalista e pós-graduada em Direito Legislativo.

Projeto cria tipos penais inéditos, amplia investigações e endurece punições ao crime organizado

A Câmara dos Deputados aprovou o texto-base do PL Antifacção, que cria um marco nacional de enfrentamento às organizações criminosas e estabelece penas mais severas para líderes e integrantes de facções. O projeto, relatado pelo deputado Guilherme Derrite (PP-SP), recebeu 370 votos favoráveis e 110 contrários e segue para o Senado.

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O texto reformula pontos da Lei de Execuções Penais e da Lei de Organizações Criminosas, amplia instrumentos de investigação, cria tipos penais inéditos e estabelece regras nacionais para o combate às facções, milícias e grupos paramilitares.

Leia aqui a nota técnica feita pela minoria

Infiltração, empresas fictícias e monitoramento

O projeto autoriza a criação de empresas fictícias destinadas à infiltração em facções para rastrear fluxos financeiros e operacionais. As estruturas podem funcionar como fintechs, joalherias, lavanderias ou outros empreendimentos de fachada, com registros monitorados em sistema próprio da investigação.

O projeto cria um novo marco legal de combate ao crime organizado e endurece as penas contra líderes de facções criminosas
Guilherme Derrite, relator do projeto

O texto regulamenta a infiltração de agentes em organizações criminosas e autoriza a colaboração de integrantes sem desligamento formal da facção, com possibilidade de redução de pena. O PL também prevê o monitoramento de conversas entre presos e advogados, mediante autorização judicial, quando houver indício de uso do parlatório para transmissão de ordens.

A proposta cria o Banco Nacional de Organizações Criminosas Ultraviolentas. A estrutura unificará dados de integrantes, colaboradores e financiadores, com integração obrigatória aos bancos estaduais. Segundo o Ministério da Justiça, existem entre 80 e 90 facções ativas no país.

O cadastro facilita a identificação nacional de suspeitos e o cruzamento de informações, suprindo a falta de uma certidão criminal unificada no Brasil.

Penas ampliadas e novas tipificações

O PL cria o tipo penal “domínio social estruturado”, com pena de 20 a 40 anos, aplicada a ações que envolvem:

  • controle territorial;

  • uso de explosivos e armas de fogo;

  • ataques a forças de segurança;

  • sabotagem de serviços públicos;

  • bloqueio de vias;

Deputados da oposição comemoram aprovação do projeto. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Deputados da oposição comemoram aprovação do projeto. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
  • ataques a instituições financeiras;

  • sabotagem de aeroportos, portos, hospitais e escolas;

  • tomada de aeronaves e ações do chamado “novo cangaço”.

Lideranças podem receber penas de até 66 anos, conforme agravantes. Todas essas condutas passam a ser consideradas hediondas, com progressão mais rígida e vedação de benefícios como indulto e livramento condicional.

‘Terrorismo’ cai da pauta 

Durante a votação, parte da oposição defendeu a equiparação de crimes de facções ao terrorismo. O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que a medida responde a demandas da população e disse que “o tema era um clamor da sociedade”.

O destaque que tratava da equiparação foi barrado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que considerou o dispositivo matéria estranha ao projeto. Com isso, a classificação formal de facções como terrorismo não entrou no texto final.

Mesmo sem a equiparação, Derrite elevou as penas e reforçou mecanismos de repressão, afirmando que o texto aprovado representa “a resposta mais dura da história da Câmara no enfrentamento ao crime organizado”.

O projeto tipifica o crime de favorecimento ao domínio social estruturado, com pena de 12 a 20 anos e multa. O enquadramento abrange:

  • apoio logístico;

  • abrigo ou assistência a integrantes;

  • divulgação de conteúdos de incentivo;

  • produção ou guarda de armas e explosivos;

  • uso de bens ou propriedades para práticas criminosas;

  • alegação falsa de ligação com facção para obter vantagem.

Bloqueio de bens e intervenção em empresas

O juiz poderá determinar bloqueio, sequestro e perdimento de bens ainda no inquérito, quando houver risco de ocultação ou indícios de origem ilícita. As medidas alcançam bens físicos, digitais, criptomoedas, participações societárias e empresas.

O texto permite intervenção judicial imediata em empresas usadas por facções para lavagem de dinheiro. O interventor poderá afastar administradores, auditar operações e suspender contratos suspeitos.

Bens apreendidos serão destinados a fundos estaduais de segurança ou ao Fundo Nacional de Segurança Pública, conforme a natureza da investigação.

Execução penal

As regras de execução penal ficam mais rígidas:

  • progressão poderá exigir de 70% a 85% da pena, conforme o caso;

  • líderes cumprem pena obrigatoriamente em presídios federais;

  • auxílio-reclusão fica vedado para dependentes de condenados pelos crimes do projeto;

  • parlatórios poderão ter gravação mediante autorização judicial.

Audiência de custódia

Audiências de custódia serão realizadas prioritariamente por videoconferência, exigindo justificativa do juiz para ser presencial. O prazo para investigação será de 30 dias para presos e 90 dias para soltos, prorrogáveis uma vez.

Ação civil de perdimento sem prescrição

O projeto cria ação civil imprescritível para perdimento de bens relacionados ao crime, independentemente da sentença penal. O mecanismo permite confisco no Brasil e no exterior, com divisão dos valores recuperados em caso de cooperação internacional.

Mineração e crimes ambientais

Haverá agravante para crimes cometidos com objetivo de extrair recursos minerais ilegalmente ou explorar áreas protegidas, com aumento de pena de metade a dois terços.

Derrota para o PT

O líder do governo, José Guimarães (PT-CE), orientou contra o relatório e afirmou que o substitutivo desvirtuou o texto original enviado pelo Executivo. A base tentou retomar o projeto inicial, mas foi derrotada.

O líder do PT, deputado Lindbergh Farias (RJ), também chegou a reclamar dizendo que o relator não quis conversar com o governo sobre a última versão do texto. “Faltou diálogo, vontade de sentar na mesa de negociação. Continuam tirando dinheiro da Polícia Federal e atrapalhando a investigação pela Receita”, disse.

Com a aprovação, o PL Antifacção segue para análise do Senado.

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