Como julgamento das big techs no STF influenciou decisão de Trump sobre tarifa - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Justiça

Como julgamento das big techs no STF influenciou decisão de Trump sobre tarifa

STF forma maioria (5x1) para responsabilizar redes sociais por conteúdos ilícitos sem ordem judicial, alterando Marco Civil. Julgamento segue para consenso

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Por Isac Mascarenhas

Em sua carta enviada ao presidente Lula para anunciar a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, Donald Trump justificou a sobretaxa como retaliação à censura do Supremo Tribunal Federal do Brasil contra empresas de tecnologia americanas.

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O julgamento do Supremo analisa os artigos 14 e 19 do Marco Civil da Internet que, até então, isentava empresas de tecnologia de crimes cometidos por seus usuários e obrigava a retirada do conteúdo ilegal apenas por meio de ordem judicial. Em 26 de junho, a Corte considerou, por maioria de 8 a 3, tais artigos inconstitucionais.

Agora, plataformas como Instagram e X (antigo Twitter) terão que remover, sem ordem judicial, conteúdos ilegais — “atos antidemocráticos”, pedofilia, homofobia, racismo e “terrorismo” —, prevendo punição em caso de descumprimento da ordem.

Após a decisão final do STF, Google e Meta (dona do Instagram, Facebook e WhatsApp) expressaram preocupação. Na visão das empresas, a responsabilização sobre conteúdo de usuários poderá prejudicar a liberdade de expressão nas redes e a economia digital. Ao longo do julgamento, que iniciou no fim do ano passado, as plataformas de tecnologia se posicionaram contra a mudança nos artigos, afirmando, em nota conjunta, que “nenhum país do mundo tentou implementar um regime de responsabilidade”.

Para o presidente americano, a decisão do STF foi um ataque às empresas, que podem ser prejudicadas economicamente — anúncios considerados ilegais também estão no escopo da decisão do Supremo. “[…] devido aos contínuos ataques do Brasil às atividades de comércio digital de empresas americanas”.

Em maio deste ano, quando o STF retomou a análise dos artigos, equipes jurídicas das gigantes de tecnologia entregaram ao governo americano processos e decisões do STF. Os dossiês foram enviados na tentativa de parar o julgamento e pressionar os EUA por sanções ao ministro Alexandre de Moraes que já retirou o X do ar por descumprimento de decisão judicial.

O ministro chegou a afirmar que o modelo de negócio das big techs é “agressivo e perverso”, argumentando que as redes sociais são, frequentemente, “usadas contra a democracia” e que as empresas fazem pouco para combater esse uso. Moraes é relator no caso que apura um suposto golpe de Estado tramado por Bolsonaro, investigação que Trump classificou como “caça às bruxas”.

Moraes é monitorado pelo governo americano desde o início deste ano, quando Eduardo Bolsonaro se licenciou do cargo de deputado para articular sanções contra o ministro. Havia expectativa de um gesto dos EUA contra o ministro após o secretário de Estado, Marco Rubio, ter dito que a chance de possibilidade de sanções era grande.

Após a declaração de Rubio, Moraes não recuou. O processo penal contra Bolsonaro seguiu e o julgamento das big techs terminou com revés para os americanos. Na carta sobre a tarifa de 50%, Trump elencou uma série de reclamações sobre “ataques insidiosos do Brasil aos direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos”.

No campo político, o republicano não deixou claros os caminhos para uma eventual negociação que poderia evitar que o Brasil fosse alvo das tarifas comerciais, mas citou o fim do processo contra Bolsonaro e criticou uma censura secreta feito pelo STF a plataformas de mídias americanas.

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