Entrevista tem co-autoria de filha de dirigente petista
Algo que a entrevista de Alexandre de Moraes ao jornal The Washington Post deixou muito claro foi que só é possível retratar o ministro de forma neutra, ou simpática, pela via da amnésia.
O jornal falou do Inquérito do Fim do Mundo e entrevistou quem deu esse apelido à investigação ilegal e interminável, o ministro aposentado Marco Aurélio Mello.
Mas o WaPo deixou de fora que uma das primeiras vítimas de censura incluídas no inquérito foi a reportagem da revista Crusoé que denunciava que o ministro Dias Toffoli, criador do inquérito, teria um codinome na planilha de propinas da construtora Odebrecht, um dos cernes do Petrolão, revelado pela Lava Jato.
O denunciado pela reportagem delegou a Moraes o poder de censurar a reportagem em 2019, e os denunciados, até onde sabe o advogado da revista, André Marsiglia, seguem incluídos no inquérito inconstitucional sem data para acabar. Se a intenção era deixar o leitor em cima do muro sobre o STF, o único jeito era não mencionar essas informações.
Há um problema de conflito de interesse na entrevista. Ela é assinada pelo americano Terrence McCoy e pela brasileira Marina Dias. A jornalista é filha de José Américo Dias, filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) desde sua fundação, ex-deputado estadual pela legenda, e que presidiu o PT de São Paulo entre 2008 e 2009.
É um conflito de interesse pois, como colocou a Folha de São Paulo há dois dias, o PT faz parte dos aliados de Moraes no poder, o que inclui “a relação com o presidente Lula”.
Ignorância é força
Há mais coisa escabrosa que o jornal americano de propriedade de Jeff Bezos deixou de fora.
Peguemos o caso do aeroporto de Roma. Em julho de 2023, Alexandre de Moraes e família alegaram ter sido hostilizados e agredidos pelo empresário de 71 anos, Roberto Mantovani Filho, e família (esposa e genro) no aeroporto de Roma, por causa de uma disputa por acesso a um lounge lotado. Apesar de a família Mantovani não ter foro privilegiado, a presidente do STF na época, Rosa Weber, emitiu ordem de busca e apreensão em seus endereços quatro dias depois.
As alegações da família Moraes foram ficando cada vez mais fracas. As imagens do ocorrido capturadas por câmeras de segurança foram mantidas em sigilo.
Enquanto isso, a família Mantovani publicava um vídeo de Moraes chamando um deles de “bandido”, e um laudo pericial concluindo que, se houve agressão física, o agressor foi o filho de Moraes. No mínimo, ficava aparente que houve um bate-boca com participação de ambos os lados. A defesa da família também mostrou um vídeo do filho de Moraes, Alexandre Barci, dizendo que a família “ficou com medo, agora. Vocês vão ser todos identificados, vão ser processados”.
O tribunal violou o sigilo entre Roberto Mantovani e seu advogado, expondo a transcrição de diálogos entre eles.
Depois que o delegado responsável decidiu não indiciar os Mantovanis por pensar que se tratava de crime de menor potencial ofensivo (ele alegou que houve crime de “injúria”), ele foi afastado e substituído pelo delegado Thiago Severo de Rezende. Pouco tempo depois, Rezende ganhou um cargo na Europa por indicação do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
Como aconteceu com casos notórios de presos do 8 de Janeiro como Débora Rodrigues dos Santos (a que pintou a estátua “A Justiça” com um batom), a família Mantovani fez uma retratação, pediu desculpas a Moraes e confessou seus supostos crimes em dezembro de 2024. O relator do caso era Toffoli, que se deu por satisfeito e o encerrou.
A família Mantovani ser julgada diretamente pelo STF, em vez de por um tribunal de primeira instância, é algo completamente irregular. O caso é cercado de todos os lados por suspeita de intimidação das autoridades sobre cidadãos comuns, por suposto crime de expressão, já que nenhuma prova de tapa em Alexandre Barci foi apresentada.
Presumo que Moraes conte com o Washington Post para ignorar esse e outros casos. Ignorância é força, como estabeleceu Orwell.
O silêncio dos inocentes
A imprensa alinhada com o regime faz força para ignorar, mas estão se acumulando muitos casos de injustiça praticada por Moraes contra os presos do 8 de Janeiro. Notoriamente, Moraes tem insistido em concentrar todo o poder decisório sobre esses presos desde as audiências de custódia, cujas irregularidades foram denunciadas na Vaza Toga 2.
Mas o silêncio não vai reinar para sempre. Temos casos como o de Clériston Pereira da Cunha, o Clezão, que morreu na prisão apesar de inúmeros avisos de risco de vida por doença. Como o da idosa de 73 anos Iraci Nagoshi que, mantida em regime fechado por ordem direta de Moraes, passou frio e dormiu no chão.
O catador de lixo Jean de Brito da Silva, um autista de 28 anos que continuou usando tornozeleira eletrônica até depois que não havia mais exigência, também foi alvo do ministro.
Também o ex-morador de rua Wagner de Oliveira, 50 anos, que visitava o acampamento de protesto na frente do QG do Exército apenas para ter o que comer. Similarmente, estava usando tornozeleira sem necessidade até pouco tempo atrás, revelou a revista Oeste.
Outro atormentado pelos abusos do STF foi Davi Torres, homem de 47 anos que sofre de lepra. Ele é pai de seis filhos e aposentado por invalidez. Passou dois meses na penitenciária da Papuda, com outros 13 presos em cela pequena, segundo apuração de Cristyan Costa. A tornozeleira machuca sua perna, já coberta de feridas por causa da lepra, mas Moraes insistiu em impor o aparelho, mais uma vez ignorando pedidos humanitários da defesa. Torres já perdeu as pontas de vários de seus dedos.
O vendedor ambulante Ademir Domingos Pinto da Silva, assim como Torres, só estava visitando o acampamento. Não esteve presente no quebra-quebra do dia 8, diz sua defesa. Contra ele, um núcleo de inteligência paralela montado no TSE por Moraes, e administrado por sua chefe de gabinete, emitiu um fichamento incriminatório cujo conteúdo consistia completamente em opiniões políticas que ele manifestou no Twitter em 2018.
“Perfil pessoal no Twitter com postagens antigas que exprimem aversão a Lula e ao Partido dos Trabalhadores”, resume a “certidão positiva” sobre os supostos crimes de Ademir. O documento conta com número de registro oficial (SEI) do TSE, o brasão da República e a assinatura de servidores do tribunal, mas é clandestino, pois não foi compartilhado nos autos ou com a defesa do réu. Segundo o chefe do núcleo, 1.398 detidos do 8 de Janeiro foram alvo de “certidões” do tipo.
Desde a publicação da Vaza Toga 2, há duas semanas, Moraes e seu gabinete têm se recusado a responder a perguntas não só dos autores da reportagem investigativa, como de outros veículos que cobriram os fatos revelados: CNN Brasil, Poder360, Gazeta do Povo e agência Aos Fatos — ainda que a última faça insinuações contra os autores da reportagem em seu texto, também não obteve resposta do ministro ou dos envolvidos na investigação paralela.
Somente ignorando os fatos acima é possível publicar uma entrevista com o ministro que ainda deixe o leitor em dúvida sobre seu papel de suposta “defesa da democracia”, ou que inspire no leitor alguma admiração por Moraes. Quem admira autoridades que usam o maquinário e o poder a seu dispor para perseguir e censurar críticos, até quando a crítica diz respeito ao acesso a um lounge de aeroporto, e punir pessoas sem qualquer prova individualizada de culpa?
Comparação com outras entrevistas a veículos estrangeiros
Mas a aposta na amnésia da imprensa internacional não deixa de ser informativa. É um contraste notável comparado com a entrevista à revista The New Yorker em abril, que tinha outro tom, de bajulação escancarada. Publiquei um artigo de crítica na revista britânica Spiked a respeito.
Também em abril, a entrevista de Moraes à revista The Economist saiu pela culatra, expondo o lado ridículo do ministro, como a repetição de uma frase falsamente atribuída a um nazista e a autodeclaração dele como “liberal clássico”.
Dessa vez, a declaração de Moraes que mais chamou a atenção no Washington Post foi sua promessa de que não recuaria nem um milímetro em suas ações. Deve ser porque ele já recuou dois milímetros: ao parar de censurar previamente as redes sociais do jornalista Rodrigo Constantino, que tem cidadania americana, e a conta @PATRlOTAS no X, com mais de um milhão de seguidores.
