Entre saques, empresas de fachada e cartões de crédito, Andreson Gonçalves teria ocultado recursos ilícitos por anos
A Polícia Federal investiga Andreson de Oliveira Gonçalves, apontado como o “lobista dos tribunais”, suspeito de liderar um esquema de venda de decisões judiciais no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e em cortes estaduais, com movimentações financeiras que teriam ultrapassado R$ 10 milhões em operações diárias.
A investigação integra a Operação Sisamnes, cujo relatório detalha uma complexa rede de lavagem de dinheiro com ao menos 14 operadores diretos.
Esquema milionário e “mestre dos magos”
O relatório da PF descreve Andreson como o “mestre dos magos”, referência ao seu conhecimento na ocultação de ativos adquiridos via corrupção.
Segundo os federais, ele utilizava uma empresa de fachada de transporte de cargas, a Florais Transporte Ltda, como núcleo financeiro do esquema, realizando operações que disfarçavam a origem ilícita dos recursos.
Entre 2014 e 2024, apenas uma conta da transportadora registrou créditos de R$ 72 milhões e débitos de R$ 73 milhões, incluindo saques em espécie, empréstimos e compensações de cheques, apontando um padrão de pulverização financeira para dificultar rastreamento.
O lobista está em prisão domiciliar em Primavera do Leste (MT) desde julho, por decisão do ministro Cristiano Zanin, relator da Sisamnes no Supremo Tribunal Federal.

foto: STJ
A PF aponta que Andreson teria contado com advogados, servidores do STJ e consultores jurídicos para estruturar a lavagem de dinheiro e pagamentos ilícitos a magistrados.
A esposa de Andreson, Mirian Ribeiro, é apontada como braço direito no esquema, com movimentações financeiras vultosas: entre 2019 e 2023, seus créditos bancários excederam em milhões suas receitas declaradas, e seus gastos com cartões de crédito chegaram a R$ 533 mil anuais em 2023.
Além dela, operadores como Diego Cavalcante Gomes e João Batista da Silva desempenhavam funções estratégicas: Diego realizava saques fracionados e transferências para ocultar valores, enquanto Batista, identificado como “agente duplo”, repassava documentos judiciais sigilosos diretamente ao lobista antes da divulgação oficial nos sistemas do STJ.
Outro elo importante era Daniela Barbosa Schutz, que administrava uma agência de viagens fantasma usada para redistribuir recursos ilícitos, garantindo que o lobista mantivesse controle sobre os pagamentos e benefícios oferecidos a agentes públicos.
Segundo a PF, o esquema incluía subornos diretos e indiretos, como custeio de hospedagens, uso de aeronaves privadas e ingressos para eventos de luxo, como a Fórmula 1. As investigações indicam ainda que os recursos eram inseridos no circuito econômico formal por meio de notas frias, boletos artificiais e contratos simulados, conferindo aparência de legalidade às transações.
A investigação também cita o advogado Roberto Zampieri, assassinado em 2023, como integrante do esquema, responsável por repasses milionários da Florais Transporte e saques expressivos em espécie, muitas vezes dentro de agências bancárias, para distribuir propinas a magistrados e servidores.
O inquérito detalha a atuação de Nilvan Marques Medrado, contador responsável por empresas de fachada de Andreson, e de Márcio José Toledo Pinto, ex-servidor do STJ, que junto com a esposa Vanessa Resende Gonçalves controlava a Marvan Logística.
Essa companhia funcionava como elo entre a Florais Transporte e os beneficiários finais, permitindo movimentações milionárias sem deixar rastros diretos.
O magistrado citado no inquérito, Og Fernandes, não é investigado e informou que não tem conhecimento dos fatos, afirmando que atos ilícitos devem ter responsabilização legal.
O advogado de Daimler Alberto de Campos, ex-chefe de gabinete da ministra Isabel Gallotti, negou envolvimento, alegando que o nome do cliente foi usado de maneira espúria.
A defesa de Andreson Gonçalves ainda não se manifestou publicamente. A reportagem do site Cláudio Dantas abre espaço para posicionamento.
