Apuração cita manipulação de ativos, empresas de fachada e gestão fraudulenta no banco
Durante o programa Alive, transmitido no YouTube nesta quarta-feira (19), o apresentador Claudio Dantas comentou o escândalo do Banco Master, investigado pela Polícia Federal (PF).
Ele mencionou a existência de “indícios robustos” de crimes financeiros na investigação, como manipulação de ativos (quando o banco inflaciona o valor de seus investimentos), uso de empresas de fachada (para esconder operações) e gestão fraudulenta (má administração para enganar investidores).
Segundo estimativas de Dantas, baseadas em interlocutores do setor, o montante que poderá ser coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC, que é um seguro para proteger clientes caso um banco quebre) varia entre R$ 7 e 8 bilhões, bem abaixo dos R$ 41 bilhões divulgados amplamente.
Ele explicou que o cálculo de R$ 41 bilhões não considera que o FGC cobre apenas valores de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, excluindo grande parte dos investidores institucionais, como municípios, estados e fundos de previdência.
“Até onde apurei, seriam algo entre 7 e 8 bilhões, e não 41 bilhões. Se forem 41 bilhões, aí vem um novo Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer, programa criado pelo governo para socorrer bancos em crise). Os bancos nunca perdem, quem paga somos nós”, afirmou Dantas.
O apresentador acrescentou que o caso envolve grandes bancos, corretoras e gestores de fundos de previdência que adquiriram Certificado de Depósito Bancário (CDBs, que são investimentos em que o cliente empresta dinheiro para o banco e recebe juros) da instituição, o que deve ampliar o alcance das responsabilizações.
“Alertas imediatos”
Ary Alcântara, ex-secretário de Previdência Complementar e especialista em fundos de pensão, classificou o caso como anômalo em sua experiência.
“Não é possível um banco conviver com o conjunto de irregularidades que o Master convivia, com a fiscalização permanente que existe no sistema bancário.”
Ele questionou como instituições como o Banco de Brasília (BRB) teriam avaliado positivamente a compra de CDBs do Master diante de tantas inconsistências e ressaltou que taxas de remuneração de até 140% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI, é a taxa básica usada como referência para calcular juros de investimentos) deveriam ter acionado alertas imediatos.
Alcântara também apontou suspeitas de superavaliação de ativos, como precatórios adquiridos por 15% do valor de face, mas contabilizados por 100%, inflando artificialmente o patrimônio do banco.
Para investidores institucionais, como os Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) estaduais e municipais, Alcântara defendeu responsabilização pela gestão “completamente irresponsável, sem compliance”, ou seja, sem regras de controle e fiscalização interna.
Ele também mencionou a prática de “compra de prejuízo”, quando uma instituição adquire outra quebrada para absorver perdas contábeis, o que, segundo ele, é “frequentemente associada a atividades ilícitas”.
Conexões políticas
A cientista política Júlia Lucy ainda citou conexões políticas ligadas ao caso, envolvendo figuras de alto escalão, como:
- Viviane de Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, contratada pelo Banco Master;
- Ricardo Lewandowski, que integrou a folha de pagamento da instituição como consultor;
- A gestão do BRB, indicada pelo governador do Distrito Federal;
- A vida ostentosa de Daniel Vorcaro, presidente do Master, incluindo festa de 15 anos da filha estimada em R$ 15 milhões.
Ela reforçou que investidores que aplicaram em CDBs com rendimento até 130% do CDI deveriam ser investigados, já que o mercado já desconfiava de problemas de liquidez do Master (quando o banco não tem dinheiro suficiente para honrar pagamentos).
“Não existe milagre. Crime financeiro está compensando no Brasil.”
A investigação: alvos e suspeitas
A decisão do juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, atinge diretores do Banco Master, executivos do BRB e responsáveis por fintechs usadas nas operações suspeitas. Entre os alvos estão:
- Daniel Vorcaro, presidente do Master e principal beneficiário de um eventual socorro financeiro;
- Luiz Antonio Bull, Angelo Ribeiro, Augusto Lima e outros diretores do Master envolvidos em contratos suspeitos;
- Henrique Peretto e André Maia, dirigentes da Tirreno e da Cartos, empresas ligadas ao esquema;
- Paulo Henrique Costa, presidente do BRB, suspeito de gestão fraudulenta;
- Dario Garcia Júnior e Robério Mangueiras, executivos do BRB envolvidos nas operações com o Master.
Segundo o magistrado, a investigação reúne “multiplicidade de ações delituosas” e documentação que aponta “para um suposto esquema articulado para fraudar o sistema financeiro, iludir órgãos de controle, prejudicar investidores e obter vantagens indevidas”.
