A reportagem “Vaza Toga 2” revelou que, ao elaborar “certidões” clandestinas contra os detidos do 8 de Janeiro a mando de Alexandre de Moraes, uma equipe de investigação montada no TSE usou “parceiros” externos.
Um desses parceiros era a jornalista Letícia Sallorenzo, que usa o pseudônimo “Bruxa” nas redes sociais. Sua participação era conhecida desde a “Vaza Toga 1”, quando os jornalistas Fábio Serapião e Glenn Greenwald revelaram a seguinte mensagem do chefe da equipe, Eduardo Tagliaferro: “A bruxa não tem esse bom senso, é totalmente partidária sem pensar nas consequências”.
Tagliaferro estava falando de uma lista de perfis nas redes sociais que Sallorenzo havia recomendado para aplicação de censura pelos juízes auxiliares de Moraes. “O problema é que foi o Ministro quem passou. Depois recebi pelo Deputado Frota”, respondeu o juiz Airton Vieira.
A identidade da “Bruxa” foi revelada por uma investigação do jornalista David Ágape em novembro de 2024.
Quem é a Bruxa
Letícia Sallorenzo de Freitas é formada em jornalismo desde os anos 1990. Teve uma breve passagem com cargo baixo na Casa Civil no primeiro governo Dilma Rousseff e já palestrou em cursos promovidos por militantes do PT.
Sua persona @BruxaOD era bem conhecida nos primórdios do Twitter. Postava curiosidades, comentários provocadores e tentativas geralmente malsucedidas de ser engraçada. Sua coluna, em atividade no portal petista Jornal GGN, tem o mesmo teor.
Conversei com pessoas que têm contas grandes no Twitter e estavam presentes na época em que Sallorenzo mais despontou na rede social. Romperam contato “quando ela se radicalizou no petismo”, me disseram.
Recentemente, no dia 30 de outubro de 2024, ela defendeu sua qualificação de doutorado na Universidade de Brasília (uma etapa intermediária no caminho para a obtenção do título acadêmico).
O título de trabalho de sua tese é “Firehosing, linguística cognitiva e os ataques do Gabinete do Ódio contra Alexandre de Moraes”. (Entenda o que é “firehosing” na última seção deste artigo.)
O interesse de Sallorenzo pelo ministro é recorrente. Quando ele baniu a rede social X (antigo Twitter) por 40 dias no ano passado, ela parou de postar e trancou sua conta, em solidariedade a Moraes.
Até o fim do ano passado, a descrição em seu perfil na rede social era “Passando pano para Alexandre de Moraes desde junho de 2021”. Como outros militantes de esquerda, após a censura do X, ela foi para a rede social Bluesky, onde sua descrição de perfil era “Ninguém fala mal de Alexandre de Moraes na minha frente! Nem Alexandre de Moraes!”
A jornalista apagou ambas as descrições após as revelações de Ágape. Mas a bajulação continua. “Não há por que se falar em excessos do Xandão”, escreveu Sallorenzo em sua última coluna no GGN, dois dias após a publicação da Vaza Toga 2. Para ela, o ministro “está apenas e tão somente exercendo todos os poderes que lhe confere a Constituição”.
Nem Gilmar Mendes, o decano da corte, concorda com isso: “Gilmar reconhece certos excessos em decisões de Alexandre de Moraes”, escreveu o colunista Lauro Jardim, especialista em bastidores da política, para o jornal O Globo ontem.
A “Bruxa” consegue ser mais “xandonista” que o decano do STF, que apesar da crítica branda e inespecífica continua sendo um escudo de Moraes na corte.
Chorando de emoção em apoio à censura em pleno TSE
Apesar de ter trancado sua conta no X, parte dos posts antigos de Sallorenzo na rede social ainda estão disponíveis na ferramenta Threader App, que concatena fios de postagens em textos inteiros, sem alterar seu conteúdo.
No dia 20 de outubro de 2022, quando o Tribunal Superior Eleitoral decidiu censurar o documentário da produtora Brasil Paralelo sobre a facada contra Jair Bolsonaro, sem que os ministros tivessem assistido ao seu conteúdo, Letícia Sallorenzo relata que estava presente no plenário.
“Hoje eu chorei copiosamente no plenário do TSE”, postou ela no X. “De alegria”, explicou, especificando que se tratava de votação sobre uma ação “apresentada pelo PT solicitando a remoção de vários perfis das redes sociais e a remoção de um ‘documentário’ da Brasil Paralelo”. Perceba as aspas cautelosas em “documentário”, como se o filme fosse outra coisa.
A “Bruxa” alegou que sua tese favorita, do “firehosing”, havia sido usada nos votos dos ministros do TSE, embora não mencionada pelo nome. Ela continuou seu relato criticando os ministros que divergiram: “Raul Araújo abriu divergência. É o ministro que censurou o Lollapalooza no início do ano”. Já o voto favorável à censura do ministro Dias Toffoli, ganhou o comentário “Gente, que voto lindo”.
Durante o voto de Toffoli — que quando presidente do STF abriu há seis anos e cinco meses o ilegal Inquérito das Fake News — Sallorenzo quase chorou. Ela alegou que o ministro “usou informações de todo o trabalho” que ela estava fazendo “há anos”. “Meus olhos se encheram d’água, mas segurei o choro”, contou Sallorenzo.
Sobre o infame voto da ministra Cármen Lúcia, que aprovou a censura alegando “situação excepcionalíssima”, a “Bruxa” disse que “Carminha foi seca e direta”. Sallorenzo verteu uma lágrima solitária.
Mas o choro de verdade veio mesmo com o voto de seu ídolo, Alexandre de Moraes. “Aí eu desabei. Xandão continuou a explicar da importância de se combater o ‘Ecossistema de desinformação’”, disse a jornalista.
“Hoje não consegui dar abraço nem beijo em Xandão. Mas terça que vem eu consigo. E eu vou dar um abraço e um beijo também no ministro Lewandowski, que tá merecendo e muito!”
A censura ganhou por quatro votos contra três. Ricardo Lewandowski, ao votar a favor da supressão do documentário, citou outro termo da suposta pesquisa em desinformação, “desordem informacional”, criado por uma acadêmica cujo trabalho foi regado a verbas da Ford Foundation e de George Soros, Claire Wardle.
“Eu saí do TSE hoje com a certeza de que o meu trabalho tá valendo muito a pena. É muito bom chorar de felicidade!”, concluiu Sallorenzo.
Área de pesquisa de Sallorenzo é contenciosa e de cientificidade questionável
Como estou contando quase sozinho na imprensa brasileira, toda a suposta área de “pesquisa” de combate à informação caiu em descrédito com um artigo de Ceren Budak (Universidade de Michigan), publicado pela revista Nature em junho de 2024.
Budak e colegas concluíram que “desinformação” é um problema minoritário do ambiente informacional em geral, não “o mal do século”, como colocou um livro alarmista publicado pelo próprio STF.
Ou seja, as conclusões validam a opinião de que boatos falsos sempre foram um problema em eleições e no ambiente político, e a esquerda resolveu inflar a importância do problema desde que começou a perder eleições e referendos para os populistas nacionalistas no Ocidente.
Budak e colegas não estão sozinhos. Denúncias similares foram feitas por acadêmicos como o psicólogo francês Hugo Mercier e o jurista dinamarquês Jacob Mchangama, que têm visto na causa sagrada do combate às “fake news” e à “desinformação” mais um exemplo de pânico das elites contra novas tecnologias de expressão, algo cíclico na história.
Quanto ao firehosing, os cunhadores do termo, Christopher Paul e Miriam Matthews, usaram a metáfora de uma mangueira de incêndio (firehose em inglês) para caracterizar um modelo de propaganda política. O modelo apostaria em alto volume e muitos canais diferentes para propagação rápida, contínua e repetitiva de fake news ou “verdades parciais” para fins políticos. Paul e Matthews acham que isso funciona para mover a opinião pública.
O conceito de firehosing foi aplicado especialmente na fraude do Russiagate, quando a imprensa progressista americana passou dois anos alegando que Donald Trump não teria sido eleito sem interferência russa a seu favor com fake news em 2016. A diretora de inteligência do atual governo Trump, Tulsi Gabbard, tem publicado documentos antes sigilosos que sugerem que a fraude foi plantada pela adversária de Trump em 2016, Hillary Clinton.
Há um problema com o firehosing: não funciona. A revista Nature Communications publicou um resultado negativo, que testou precisamente a propaganda russa sobre americanos, já em janeiro de 2023, quando Sallorenzo estava envolvida como parceira da investigação do TSE.
Há resultados negativos de testes científicos anteriores, como dois artigos de 2020. No ano passado, a revista de relações internacionais Foreign Affairs, que não tem viés conservador, lançou um alerta: “Parem de exagerar a ameaça da desinformação”, diz o título de um artigo assinado por quatro autores, incluindo dois acadêmicos. “Uma fixação nada saudável em desinformação estrangeira está fazendo pesquisadores e organizações divulgarem às pressas alegações ousadas sobre o alcance da influência estrangeira”, escreveram.
A inflação do problema é para justificar a censura, expandindo a interferência do Estado na expressão para bem além dos boatos, como ilustra perfeitamente a conduta de Moraes, que usa o vocabulário dos progressistas pró-censura e já prendeu arbitrariamente o jornalista capixaba Jackson Rangel por mais de um ano, a partir de um pedido completamente irregular da procuradoria do Espírito Santo. Bastou Rangel criticar o STF.
O caso de Rangel, bem como a perseguição por opinião política revelada pela Vaza Toga 2, servem para ilustrar que Alexandre de Moraes é um violador de direitos humanos e mereceu a sanção americana via Lei Magnitsky.
Em suma, o trabalho acadêmico de Letícia Sallorenzo — uma jornalista que jamais manifestará apoio a seu colega capixaba injustiçado, cujo algoz ela idolatra —, com toda probabilidade, é pseudociência ou ciência ruim para justificar autoritarismo.
A universidade, que deveria ser templo do conhecimento, mais uma vez confirma que está se transformando em diretório de partidos de esquerda, que passa uma maquiagem de “conhecimento” em meras opiniões políticas.
“Nós vs. eles”: a mentalidade tribal incentivada pela jornalista
O alarmismo, que o pensador Thomas Sowell atribui especialmente à “visão dos ungidos” em sua teoria sobre a origem da divergência política, é marcado nas manifestações públicas de Letícia Sallorenzo. Além de uma entrega ativa a uma mentalidade de “nós vs. eles”.
Em entrevista ao canal GGN, em setembro passado, ela disse “eu não sei mais o que eu faço para que principalmente o setor de comunicação do PT e do governo Lula entendam que não existe mais debate de ideias. O que existe é uma disputa de valores, disputa do certo e do errado, e uma disputa do bem e do mal. Se nós não tratarmos, se a esquerda brasileira não tratar do embate político nesses termos, estará fadada ao fracasso”.
Comemorando a vitória de Lula em 2022, e torcendo para que vença novamente em 2026, a “Bruxa” acrescentou que “nós temos esta figura icônica que foi capaz de segurar o Bolsonarismo. Caso contrário, nós poderíamos estar mortas neste exato momento. Não estou exagerando, vocês sabem disso”.
Enquanto isso, na realidade, somente Bolsonaro sofreu uma tentativa de assassinato com uma facada, não Lula. Uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que os militantes de esquerda contrários a Trump são mais violentos que seus apoiadores. Trump sofreu mais de uma tentativa de assassinato em sua campanha presidencial do ano passado.
