Pela primeira vez desde a Ditadura Militar, o Brasil tem jornalistas exilados. Liberdade de imprensa ferida mais uma vez. Goste-se ou não de seu trabalho, Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Paulo Figueiredo se apresentam como jornalistas e publicam material que é típico do jornalismo, como opinião política. Também é o caso do colunista Rodrigo Constantino, que é economista.
Agentes do FBI de Joe Biden se recusaram a extraditar Santos a pedido do Ministério da Justiça de Flávio Dino, dizendo que aquilo que as autoridades brasileiras alegavam que eram crimes, para eles eram “só palavras”, segundo a Folha de S. Paulo.
Além disso, a Audiência Nacional da Espanha, a mais alta corte do país, se recusou repetida e terminantemente a extraditar Eustáquio, dizendo que ele pode ser alvo de perseguição política no Brasil.
Também devo mencionar que David Ágape e eu somos alvo de uma petição criminal direta ao STF, mesmo sem termos foro privilegiado, por causa do nosso jornalismo investigativo.
Depois disso tudo, o que a ONG Repórteres Sem Fronteiras tem a dizer sobre o estado da liberdade de imprensa no nosso país? Que “deu um salto” positivo, como colocou a Folha de S. Paulo. “O Brasil avançou no ranking da Repórteres Sem Fronteiras, subindo 19 posições em um ano e 47 desde 2022, último ano do governo Bolsonaro”.
Já examinei as alegações dessa ONG para a Gazeta do Povo. Em resumo, ela deixa amplo espaço para duas comunidades com baixa diversidade de pensamento político — os jornalistas e os acadêmicos da comunicação — utilizarem meras opiniões para influenciar a posição do país no ranking.
Dessa forma, se quem estava no poder era Jair Bolsonaro, que criticava muito os jornalistas, as meras críticas eram prontamente chamadas de “ataques” e tratadas como grande ameaça à liberdade de expressão e de imprensa. Se quem está no poder é Luiz Inácio Lula da Silva, que sempre ameaçou a imprensa inflamando sua base dizendo que aprovaria “regulamentação”, isso só ganha aplausos.
Quem paga pela ONG
Uma minoria dos fundos da RSF vem de pequenos doadores individuais e da venda de livros. A maior parte vem de governos e grandes fundações que financiam o ativismo de esquerda globalmente, como a Open Society de George e Alex Soros e a Ford Foundation.
No relatório financeiro da RSF de 2021, um orçamento de oito milhões de euros tinha 64% de sua origem declarada em verbas de governos e das grandes fundações. Os doadores de fundos públicos são ligados a governos como o da Suécia (SIDA – Agência Sueca de Cooperação Internacional pelo Desenvolvimento), França (OIF), União Europeia (DG Connect e IEDDH), Reino Unido (FCO), o Ministério das Relações Exteriores dos Países Baixos e o Fundo Nacional para a Democracia (NED) dos Estados Unidos.
Desde então, ter dançado conforme a música “antipopulista” da esquerda e das elites burocráticas tem sido lucrativo para a RSF. De seis milhões em 2020, seu orçamento cresceu para 12,5 milhões de euros em 2023 e 13,3 milhões em 2025. A participação do setor público em seus fundos cresceu de 50% em 2021 para 65% em 2024.
Mais uma vez, preciso dizer nesta coluna que a maior mentira sobre as ONGs é o “N”. Elas costumam ser, efetivamente, puxadinhos de governos que gastam demais. E qual ideologia política mais estimula governos a gastarem cada vez mais?
A fonte mais importante entre governos é a do meta-Estado da União Europeia, que também gasta dinheiro no Brasil com uma clara promoção de valores de esquerda.
Do dinheiro que vem do setor privado, o mais importante é o de Soros e da Ford, entre outras fundações. Foram 22% do orçamento da RSF em 2022 e 2023. Em 2024, a participação caiu para 12%. Ainda é mais que o que a organização ganha com atividades comerciais, apenas 10%.
Repórteres Sem Pudores
Quando Michael Shellenberger, David Ágape e eu publicamos a série de reportagens Twitter Files Brasil, revelamos alvos de censura por decisões judiciais secretas que sequer sabiam que o eram. Foi o caso do deputado Marcel van Hattem (Novo-RS), por exemplo.
Mas o escritório latino-americano da ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) reagiu à história de um só jeito: ignorando completamente a censura feita pelo Judiciário e alegando que a recusa de Elon Musk a obedecer a ordens de Alexandre de Moraes, que levou o ministro a dobrar a aposta na censura banindo o X no Brasil por 40 dias, seria uma “arbitrariedade intolerável” e acusando o empresário de ser “contra a democracia no Brasil”.
O diretor do escritório, Artur Romeu, que é jornalista, mas jamais trabalhou como repórter para qualquer veículo, adotou a cantilena da esquerda e disse que “as plataformas devem ser firmemente reguladas”.
Ignorando o Marco Civil da Internet, agora vandalizado em seu artigo da liberdade de expressão pelo STF, Romeu alegou que há um “vácuo regulatório” sobre as plataformas digitais no Brasil.
A ONG fez campanha ativamente pelo PL da Censura (PL das Fake News): “a RSF pede ao governo brasileiro que reforce o projeto de lei de regulação das plataformas (PL 2630)”. Portanto, não só a RSF ignora censura contra jornalistas, como faz campanha aberta a favor da censura, que era o propósito deste projeto de lei para qualquer um que o examinasse atentamente.
Não é coincidência que o inquérito abusivo mais longevo do STF se chama “Inquérito das Fake News”, aberto em 2019. Combater “fake news” tem sido uma desculpa de regimes autoritários ao redor do mundo para a repressão a jornalistas e cidadãos comuns, até no Sudeste Asiático.
Nome mais apropriado para a ONG é Repórteres Sem Pudores, cujo escritório latino-americano é chefiado por uma pessoa que jamais foi repórter. A ONG faz um bom trabalho, se o propósito for criticar alguma autocracia do outro lado do mundo que mata jornalistas.
No Ocidente, contudo, a RSF trabalha ativamente para exagerar a ameaça vinda de um lado político pelo qual tem antipatia e ignorar ou até impulsionar a ameaça vinda de outras partes do espectro político, em nome de salvar o mundo da “desinformação”.
