Soa familiar? Pesquisadores asiáticos denunciam “combate a fake news” como desculpa para repressão e censura - Claudio Dantas
Brasília, Sábado, 04 de julho de 2026
Artigos Exclusivos

Soa familiar? Pesquisadores asiáticos denunciam “combate a fake news” como desculpa para repressão e censura

Repressão da Internet. Imagem gerada por IA.
Repressão da Internet. Imagem gerada por IA.

Compartilhe em

Foto do autor

Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Em um certo lugar do mundo, autoridades governamentais estão usando rótulos como “fake news” e “desinformação” para propósitos políticos repressivos. Entre esses propósitos estão a perseguição judicial de usuários de redes sociais e até de plataformas inteiras; restrição de conteúdo; vigilância de opiniões.

✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp

Na avaliação de um artigo publicado por estudiosos de comunicação e cultura, o que está acontecendo é que “o governo usa a alegação de ‘fake news’ para processar judicialmente os usuários da Internet que criticaram o regime”.

Não é o Brasil, mas bem poderia ser. Dos quatro propósitos políticos descritos no artigo, somente um não se aplica aqui: o desligamento completo da Internet. A perseguição judicial aconteceu, como documentou uma comissão do Congresso americano que expôs ordens secretas de censura emitidas por Alexandre de Moraes. Como diz um relatório da comissão, “Moraes ordenou a censura de um cidadão brasileiro por criticar Moraes por censurar brasileiros”.

A perseguição a plataformas inteiras também se aplica, pois o mesmo ministro baniu a rede social X, por canetada, por 40 dias em 2024, ameaçando todos os cidadãos que tentassem acessá-la por VPN com uma multa diária de R$ 50 mil.

Quanto à restrição de conteúdo, os exemplos são abundantes: o próprio X denunciou recentemente o caso de um juiz de Blumenau que quis remover tweets de bate-boca entre brasileiros em todo o mundo. E houve vigilância de opiniões políticas que foram usadas como critério de prisão preventiva de detidos do 8 de Janeiro, como provou a reportagem Vaza Toga 2.

Brasil está cada vez mais parecido com ditaduras do Sudeste Asiático

O artigo em questão é “Justificando a repressão digital pela via de ‘combater fake news’: um estudo de quatro autocracias do Sudeste Asiático”, publicado em janeiro pelo Instituto Yusof Ishak (ISEAS, ligado ao Ministério da Educação de Singapura) e pela editora da Universidade de Cambridge.

Os autores, Janjira Sombatpoonsiri e Dien Nguyen An Luong, analisaram a desculpa do combate às “fake news” para censura e repressão no Camboja, Myanmar, Tailândia e Vietnã.

Sombatpoonsiri e Luong dizem que deram foco aos quatro países do Sudeste Asiático porque são “caracteristicamente autocráticos e têm uma propensão a intensificar a repressão digital”. Na classificação do Instituto Variedades de Democracia (V-Dem), três desses países são classificados como “autocracias fechadas”, ou seja, ditaduras completas, e o Camboja é classificado como “autocracia eleitoral”.

As semelhanças com o Brasil não são apenas as mencionadas acima. Por exemplo, os autores contam que, na Tailândia e no Vietnã, “a alegação de ‘fake news’ fomentou uma vigilância extensa de postagens em redes sociais e uma coleta sistemática de dados de usuários”.

Como mostraram as reportagens Twitter Files Brasil, o TSE, sob as presidências de Luís Roberto Barroso, Edson Fachin e Alexandre de Moraes, repetidamente exigiu que o Twitter fornecesse dados pessoais de usuários que postaram hashtags críticas ao voto eletrônico (#VotoDemocráticoAuditável) e aos próprios ministros (#BarrosoNaCadeia foi uma delas). Havia pressão da cúpula do Judiciário federal para desvendar endereços de IP, por exemplo, e descobrir quem criou as hashtags. Graças à resistência do Twitter, a quantidade de pessoas cujos dados foram entregues baixou de potenciais centenas de milhares para cerca de 200.

Não é à toa que a primeira das investigações intermináveis abertas de ofício pelo STF, que se estende há seis anos e oito meses, se chama “Inquérito das Fake News”. Como provam os dois estudiosos asiáticos, as tais “fake news” são uma desculpa perfeita para autoridades do Estado abusarem de seu poder.

Mais informações do artigo

As desculpas mais comuns das ditaduras para reprimir cidadãos antes do advento da Internet eram tipos legais vagos como “desordem pública”, “insegurança nacional” e “dano à imagem nacional”, como contam os dois autores. Os termos “fake news” e “desinformação” têm a mesma vagueza e, portanto, servem para o mesmo propósito.

São uma arma útil que permite que governos autoritários “sinalizem subjetivamente conteúdo desfavorável a eles como inverídico” e “criminalizem aqueles acusados de disseminar ‘fake news perigosas’”, escreveram Sombatpoonsiri e Luong.

No Camboja, após quase perder uma eleição em 2013, o regime do Partido Popular do Camboja instituiu seu próprio “PL das Fake News”. A peça legal, conhecida como Artigo 425, criminaliza a “comunicação ou revelação de informações falsas com a intenção de criar uma impressão que destrói, deteriora ou prejudica pessoas”. A pena imposta é de multa de US$ 900 e prisão de até dois anos.

Há outras leis repressivas cambojanas e uma entidade interministerial para vigiar a Internet. Em 2020, o Ministério da Informação tentou passar uma “Lei das Fake News” que não vingou, mas em 2021 outro projeto foi criado, a “Lei de Crimes Cibernéticos”, que incluiu a criminalização de “prover desinformação”. A propósito, as leis anti-fake news do país incluem a proteção da “saúde pública” e do “resultado de uma eleição nacional”. Parece o sonho de muitas autoridades brasileiras, algumas das quais propuseram prisão de até oito anos para quem duvidasse das vacinas da Covid.

Myanmar tem uma Lei de Telecomunicações que criminaliza a “comunicação, recepção, envio, distribuição ou compartilhamento de informações incorretas com intenção desonesta”. Com pena de prisão por um ano. O país, ao contrário do Brasil, realmente passou por um golpe de Estado recentemente, em 2021. Após o golpe, o Conselho de Administração do Estado (uma junta militar) editou outra lei para punir a disseminação de “fake news ou desinformação”, impondo penas de até três anos de cárcere.

A Tailândia tem uma Lei de Crimes Relacionados a Computadores, cujos artigos 14(1) e 14(2) colocam o alvo de repressão em “fake news”. A censura à alegada desinformação se intensificou com regulamentação adicional, editada em 2022, sob o escopo da lei. É um arcabouço legal amplo, que integra as novas tecnologias de informação com crimes antigos como “lesa-majestade”.

No Vietnã, as autoridades tratam com mão de ferro o que consideram opiniões “erradas” ou “distorcidas”, além de “conteúdo tóxico” e, claro, “fake news”. O Decreto 15, editado logo no início da pandemia, em fevereiro de 2020, prevê multas adicionais para a criação e disseminação do que na opinião do regime for informação enganosa. Blogueiros, jornalistas e ativistas vietnamitas acusados de espalhar notícias falsas sobre o Estado podem ser condenados a passar entre cinco e 20 anos na prisão.

“Similarmente aos outros países”, escreveram os autores do artigo, “a noção de conteúdo falso nunca foi esclarecida no arcabouço regulatório do Vietnã”. O país foi um dos pioneiros na repressão online, lançando já em 1997, quando a Internet chegou, uma perseguição a “conteúdo tóxico”.

Mais uma vez, o que é caracterizado como “fake news” foi associado em primeiro lugar ao conteúdo contrário ao Estado e que manifeste oposição “à República Socialista do Vietnã” e “ameace a segurança nacional, a ordem social e o bem-estar”. Previsivelmente, durante a pandemia de COVID-19 “fake news” poderia ser qualquer informação que pudesse causar medo ou alarme no público ou desafiar “o país e seu povo”.

Sombatpoonsiri e Luong estão denunciando o que estão vendo em sua região do mundo, e reconhecem que a moda repressiva de combate às supostas “fake news” foi impulsionada pelas derrotas da esquerda ocidental no Brexit e na vitória de Donald Trump em 2016.

E por aqui, no Brasil? Até quando os doutos diplomados vão continuar em silêncio, ou aplaudindo os vários sinais de que o Brasil está imitando o Vietnã? Quantas bocas mais precisarão ser caladas até que abram as próprias? Como a experiência do Sudeste Asiático mostra, o tempo está se esgotando.

Escreva seu e-mail para receber bastidores e notícias exclusivas

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Publicidade