Como a União Europeia financia ativismo nas universidades brasileiras - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Como a União Europeia financia ativismo nas universidades brasileiras

Mescla das bandeiras do Brasil e da União Europeia, feita por IA.
Mescla das bandeiras do Brasil e da União Europeia, feita por IA.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

O jornalista italiano Thomas Fazi, um dos autores dos Twitter Files França, publicou nesta quarta-feira um relatório sobre as atividades do Programa Jean Monnet, lançado pela Comissão Europeia (braço executivo da União Europeia — UE) em 1989 para “estimular a excelência em ensino e pesquisa sobre assuntos da UE”.

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Segundo Fazi, o real propósito do programa é transformar a pesquisa acadêmica em um ativismo “que começa com um julgamento de valor (‘a UE é benéfica’) e tem a meta de produzir ‘evidências’ em apoio a isso”. Ou seja, uma espécie de propaganda política a favor do modelo de governança supranacional do bloco.

Expressões colhidas pelo jornalista em projetos financiados pelo Monnet deixam clara a natureza desse ativismo e sugerem viés de esquerda: “promover a integração da UE” e “desafiar a ascensão do euroceticismo e de partidos populistas e de extrema direita”.

O programa gasta € 25 milhões anualmente (cerca de R$ 157 milhões na cotação atual) e envolve mais de 1.500 professores universitários e cerca de 500 mil alunos distribuídos por mais de 70 países, incluindo o Brasil.

Em apuração do Portal Claudio Dantas, traçamos o panorama da influência do Programa Jean Monnet no Brasil. A iniciativa tem o nome do político francês que a própria UE considera “a força unificadora por trás do nascimento da União Europeia”.

Programa da UE aplicou até R$ 25 milhões no Brasil

Segundo um banco de dados publicado pela Comissão Europeia, no site de sua Agência Executiva Europeia da Educação e da Cultura (EACEA), o Programa Jean Monnet financiou 45 projetos no Brasil entre 1990 e 2024.

As verbas exatas não são discriminadas pela agência, mas, levando em conta os pisos e tetos que ela própria informa para cada tipo de projeto, o valor nominal aplicado esteve entre três e quatro milhões de euros. O valor é impreciso e pode chegar a R$ 25 milhões.

Os projetos financiados no Brasil foram realizados em 24 instituições, 12 das quais são universidades públicas: UENP, UERJ, UFC, UFG, UFGD, UFMG, UFRGS, UFSC, UFU, UnB, UNESP e USP. Também estão na lista FGV, UNIVALI, Instituto Veris do IBMEC, Centro Universitário Integrado, FECAP, FAAP, UNOESC, PUC-Rio e outras associações e faculdades privadas.

Os projetos do programa Jean Monnet no Brasil têm viés político?

Nem todos os projetos têm sinais claros de viés político. Alguns soam como estudos neutros do direito como praticado na União Europeia. Os vieses ficam mais claros, especialmente, quando se analisam as cátedras, ou seja, posições empregatícias para professores universitários específicos. No Brasil, são 16 dos 45 projetos.

A cátedra da professora Claudia Loureiro da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), iniciada em 2022, tem o título “Cruzamentos globais: cidadania global, mudanças climáticas, ecocídio e transumanidade”. O projeto lista entre seus propósitos que “os princípios prevalentes na UE sejam disseminados no Brasil”.

Talvez isso não seja suficiente para declarar que o projeto de Loureiro tem viés político. Para dissipar dúvidas, basta consultar sua produção acadêmica. No artigo “O Ecocídio perante o Estatuto de Roma”, de 2023, a pesquisadora usa termos da moda do progressismo, como “interseccionalidade” e “antropoceno” — o primeiro termo é um xibolete do identitarismo e não é usado por acidente, a ideóloga de esquerda cunhadora do conceito é citada.

O segundo termo é uma ideia que os alarmistas climáticos tentam forçar sobre a ciência da geologia, alegando que o impacto ambiental do ser humano no planeta já foi tão grande que merece ser classificado como uma época geológica inteira. A União Internacional de Ciências Geológicas tem resistido à pressão, rejeitando o reconhecimento do “antropoceno” em março de 2024.

A pioneira das cátedras Monnet no Brasil foi a UFSC. A titular da cátedra na instituição é a professora Karine de Souza Silva, “a primeira catedrática Jean Monnet no Brasil, desde 2007”, como informa a página oficial do projeto. O projeto de 2007 foi realizado na UNIVALI, onde Silva lecionou entre 1999 e 2010. O projeto inicial planejava “promover o modelo supranacional” da UE, o que é mais que apenas fazer debates neutros.

Os títulos dos trabalhos publicados e projetos de Karine Silva deixam claro para que lado ela pende. “Meu mundo, minhas regras? Direito Internacional, branquitude e genocídio do povo negro brasileiro” (2023), “Gênero, raça e interseccionalidades no processo de feminização da migração” (2021) e “Fórum Social Mundial: novo ator nas Relações Internacionais contemporâneas”. Os trabalhos mais ligados ao programa Monnet têm títulos mais neutros.

Entre os outros projetos financiados pela UE no Brasil, um chefiado pela professora Andrea Ribeiro Hoffmann (PUC-Rio) diz que “a percebida falta de responsabilização democrática aumentou a distância entre a população e a União Europeia e permitiu espaço para que a polarização e o populismo vicejassem”. Isso seria “alarmante”, segundo o resumo de 2020. Entre as metas, “recuperar a credibilidade da UE perante os cidadãos europeus” e “enfrentar as tendências populistas e eurocéticas”.

Já Miriam Steffen Vieira, professora da Unisinos, iniciou um projeto em 2022 que prometeu “implementar a Agenda 2030 em países lusófonos” e difundir “conhecimento sobre o papel da União Europeia como parceira para o desenvolvimento sustentável e a recuperação [dos danos] da Covid-19”.

O efeito dos vieses na pesquisa

Por que os vieses políticos são um problema na pesquisa? Considere uma das mais notórias disputas dos acadêmicos na área da economia. Em meados do século XX, surgiram dois grandes rivais, John Maynard Keynes e Friedrich Hayek. O primeiro favorecia mais a interferência do Estado na economia, o segundo era mais liberal e propunha que o melhor para a economia é a ordem espontânea que emerge das decisões livres dos indivíduos.

Como pude testemunhar na Universidade de Cambridge, Inglaterra, os keynesianos insistem que seu guru foi um grande divisor de águas da economia como área do conhecimento, sendo Hayek uma suposta figura menor.

Como sugeriram vários comentaristas eminentes, há nessa conclusão um conflito de interesses: com frequência, quem paga pela produção intelectual nas universidades é o Estado, e interessa ao Estado financiar trabalhos que exagerem a sua importância para a economia.

O Nobel de economia James M. Buchanan, por exemplo, sugeriu em um ensaio de 1970 que as contribuições acadêmicas contêm “elementos antimercado e dirigistas”. Milton Friedman, outro laureado e discípulo de Hayek, comentou em 1980 que as ideias de Keynes dizem para os governos que “o caminho para o emprego pleno seria pavimentando com mais gastos e menos impostos” e que isso significaria transformar “vícios públicos há muito conhecidos em virtudes públicas”. “Que conselho mais atraente os políticos poderiam desejar?”, comentou Friedman.

Analogamente, é muito difícil que trabalhos acadêmicos financiados pela União Europeia contenham ceticismo contra a governança supranacional, uma coisa ainda muito nova na História, sendo a UE um experimento ainda em curso. Tanto pior que com frequência a esquerda favoreça essa perspectiva, então o risco de viés político é duplo.

Assim, algumas hipóteses que desafiem os vieses dominantes sequer são consideradas em programas como o Jean Monnet, violando o princípio das múltiplas hipóteses — uma ideia tão boa para a produção do conhecimento que foi proposta pelo filósofo Epicuro de Samos mais de 1800 anos antes de a ciência existir.

Conflito de interesse do relatório de Fazi

O relatório de Fazi foi publicado pelo MCC Bruxelas, um think tank ligado ao Mathias Corvinus Collegium (MCC), a maior instituição de ensino privada da Hungria. Apesar de ser privado, em 2020 o MCC recebeu do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán US$ 1,7 bilhão em fundos e ativos estatais, na época equivalentes a 1% do PIB do país. Orbán é um nacionalista e “antiglobalista” que governa a Hungria em quinto mandato. Fazi, contudo, é um jornalista de esquerda.

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