Garnier se emociona ao comentar ausência de passagem de comando - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Justiça

Garnier se emociona ao comentar ausência de passagem de comando

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Por Mariana Albuquerque

Jornalista e pós-graduada em Direito Legislativo.

O ex-comandante da Marinha Almir Garnier Santos se emocionou ao relatar à Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, nesta terça-feira (10), que foi impedido de realizar a cerimônia tradicional de passagem de comando, após 52 anos de serviço, por causa do contexto político da transição.

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“Eu queria me despedir da Marinha onde comecei, aos 10 anos de idade. Toda a cerimônia estava programada no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Mas, em respeito ao acordo feito com o então ministro da Defesa e os demais comandantes, não participei”, disse.

Garnier ressaltou que cumpriu todo o protocolo institucional. “Fiz toda a passagem de comando como previsto na Ordem Geral para o Serviço da Armada. Transmiti o serviço ao almirante Olsen. Mas a cerimônia, que é simbólica para quem serve a vida inteira, foi cancelada”, completou, com a voz embargada.

VERSÕES DESMENTIDAS

Durante o depoimento, o almirante negou envolvimento em qualquer plano de ruptura e afirmou que não recebeu nem teve acesso à chamada “minuta do golpe”. Disse ter visto apenas tópicos projetados em uma tela, durante reunião no Palácio da Alvorada em dezembro de 2022.

Segundo ele, o conteúdo se limitava a menções sobre pressão popular, caminhoneiros e o processo eleitoral. “Não me recordo de que se tenha discutido a necessidade de novas eleições.”

Garnier também declarou que a reunião de 7 de dezembro tratou de hipóteses de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), diante das manifestações nas portas de quartéis. “Foram apresentados tópicos de considerações. Não houve deliberação. Não havia proposta concreta.”

Ele refutou a acusação feita pelo ex-comandante da Aeronáutica, brigadeiro Baptista Júnior, de que teria colocado a Marinha à disposição do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Não ocorreu. O senhor nem tocou nesse assunto”, respondeu, dirigindo-se diretamente ao colega da Aeronáutica, sentado ao lado.

O almirante defendeu que as Forças Armadas agiram conforme a Constituição e rejeitou insinuações sobre adesão a propostas de ruptura. “Seguimos o Estatuto dos Militares. Conversas ou suposições não fazem parte da conduta institucional.”

Sobre a reunião do dia 14 de dezembro, Garnier a classificou como encerrada antes de começar. “Já havia desentendimento no ambiente. O ministro não abriu nenhuma pauta, e eu não tive participação ativa.”

Ao ser questionado sobre o relatório das Forças Armadas nas eleições de 2022, afirmou que não foi identificada fraude. Disse que o documento elaborado pelo Ministério da Defesa foi entregue e classificado como “conforme”. Também confirmou que houve versão parcial do relatório entre o primeiro e segundo turnos.

Negou ter conhecimento de qualquer pressão de Bolsonaro ou do Ministério da Defesa para influenciar o conteúdo ou a divulgação do relatório.

Sobre o episódio relatado por Baptista Júnior, de que teria se recusado a receber um documento de Anderson Torres, Garnier foi direto: “Um comandante não diz isso a um ministro da Defesa.”

O interrogatório de Garnier integra a fase final de instrução do inquérito que investiga um suposto plano de golpe. Após essa etapa, defesa e acusação poderão solicitar diligências complementares. Em seguida, será aberto prazo para alegações finais e, posteriormente, o caso poderá ser levado a julgamento.

Além de Garnier, prestaram depoimento na mesma audiência o deputado Alexandre Ramagem e o tenente-coronel Mauro Cid.

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