O ex-comandante da Marinha Almir Garnier Santos se emocionou ao relatar à Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, nesta terça-feira (10), que foi impedido de realizar a cerimônia tradicional de passagem de comando, após 52 anos de serviço, por causa do contexto político da transição.
“Eu queria me despedir da Marinha onde comecei, aos 10 anos de idade. Toda a cerimônia estava programada no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Mas, em respeito ao acordo feito com o então ministro da Defesa e os demais comandantes, não participei”, disse.
Garnier ressaltou que cumpriu todo o protocolo institucional. “Fiz toda a passagem de comando como previsto na Ordem Geral para o Serviço da Armada. Transmiti o serviço ao almirante Olsen. Mas a cerimônia, que é simbólica para quem serve a vida inteira, foi cancelada”, completou, com a voz embargada.
VERSÕES DESMENTIDAS
Durante o depoimento, o almirante negou envolvimento em qualquer plano de ruptura e afirmou que não recebeu nem teve acesso à chamada “minuta do golpe”. Disse ter visto apenas tópicos projetados em uma tela, durante reunião no Palácio da Alvorada em dezembro de 2022.
Segundo ele, o conteúdo se limitava a menções sobre pressão popular, caminhoneiros e o processo eleitoral. “Não me recordo de que se tenha discutido a necessidade de novas eleições.”
Garnier também declarou que a reunião de 7 de dezembro tratou de hipóteses de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), diante das manifestações nas portas de quartéis. “Foram apresentados tópicos de considerações. Não houve deliberação. Não havia proposta concreta.”
Ele refutou a acusação feita pelo ex-comandante da Aeronáutica, brigadeiro Baptista Júnior, de que teria colocado a Marinha à disposição do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Não ocorreu. O senhor nem tocou nesse assunto”, respondeu, dirigindo-se diretamente ao colega da Aeronáutica, sentado ao lado.
O almirante defendeu que as Forças Armadas agiram conforme a Constituição e rejeitou insinuações sobre adesão a propostas de ruptura. “Seguimos o Estatuto dos Militares. Conversas ou suposições não fazem parte da conduta institucional.”
Sobre a reunião do dia 14 de dezembro, Garnier a classificou como encerrada antes de começar. “Já havia desentendimento no ambiente. O ministro não abriu nenhuma pauta, e eu não tive participação ativa.”
Ao ser questionado sobre o relatório das Forças Armadas nas eleições de 2022, afirmou que não foi identificada fraude. Disse que o documento elaborado pelo Ministério da Defesa foi entregue e classificado como “conforme”. Também confirmou que houve versão parcial do relatório entre o primeiro e segundo turnos.
Negou ter conhecimento de qualquer pressão de Bolsonaro ou do Ministério da Defesa para influenciar o conteúdo ou a divulgação do relatório.
Sobre o episódio relatado por Baptista Júnior, de que teria se recusado a receber um documento de Anderson Torres, Garnier foi direto: “Um comandante não diz isso a um ministro da Defesa.”
O interrogatório de Garnier integra a fase final de instrução do inquérito que investiga um suposto plano de golpe. Após essa etapa, defesa e acusação poderão solicitar diligências complementares. Em seguida, será aberto prazo para alegações finais e, posteriormente, o caso poderá ser levado a julgamento.
Além de Garnier, prestaram depoimento na mesma audiência o deputado Alexandre Ramagem e o tenente-coronel Mauro Cid.
Leia também:
