Psicóloga alerta para vício semelhante ao de drogas
Aos 16 anos, Gabriel (que não quis revelar o sobrenome), hoje com 20, começou a jogar em plataformas de apostas online. Para driblar o bloqueio por idade, usava os CPFs dos pais e da irmã. “Na hora de sacar o valor do prêmio e a plataforma via que era uma conta bancária de um menor de idade, ele pedia para os familiares confirmarem a identidade”, relata a irmã, Rebeca.
Segundo ela, os pais nem sabiam que seus documentos estavam sendo usados. Gabriel chegou a ganhar mais de R$ 10 mil em um único dia. No entanto, reconhece que perdeu mais do que ganhou. “Já perdi a aposta de 900 e de 1.000 e pouco, mas eu depositei 30, 20 e fiz esse valor”, diz. Ele afirma que só aposta o que sobra, após pagar contas, e que prefere “analisar jogos” a depender da sorte.
Dados recentes reforçam a gravidade da situação. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em 2024, o varejo brasileiro deixou de faturar R$ 103 bilhões devido ao redirecionamento de recursos familiares para apostas online. O Banco Central revelou que os brasileiros destinam cerca de R$ 240 bilhões anuais às bets, com 20% da massa salarial comprometida mensalmente.
Como exemplo disso, o caso de Gabriel não é isolado. Relatos de usuários, como o empresário brasiliense Cleyton Rassilan, revelam um padrão de dependência, dívidas e abandono da vida profissional. Aos 32 anos, ele calcula já ter perdido mais de R$ 400 mil com apostas em diferentes plataformas. “Num dia fiz R$ 170 mil. No outro, perdi tudo. Peguei dinheiro a juros, refinanciei o carro, vendi consórcios e hoje ainda devo cerca de R$ 50 mil”, conta.
A realidade de um empresário
Clayton abandonou o negócio de compra e venda de celulares para se dedicar aos jogos. “Coloquei 300 pessoas em duas semanas na plataforma, ganhava por indicar. Mas parei quando percebi que estava perdendo. Imagina as 300 pessoas que coloquei?”, diz. Em crise, ele buscou ajuda psicológica, mas interrompeu o tratamento após duas semanas. “É um vício. Como álcool ou droga. E tem que ter ajuda, senão você para a vida toda.”
O impacto também atinge a saúde mental. “Cheguei a ficar dois ou três dias trancado no quarto depois de perder. Perdi noites de sono, fumo um maço de cigarro por dia. Conheço pessoas que se suicidaram por causa disso”, revela.
A psicologia dos jogos
A psicóloga e psicanalista Danielle Meireles explica que o vício em apostas online é classificado no DSM-5 como um transtorno compulsivo. “Há perda de controle, necessidade crescente de apostar valores maiores, preocupação constante com os jogos e sintomas de abstinência como irritabilidade e ansiedade”, afirma.
Segundo Danielle, os adolescentes são ainda mais vulneráveis. “O cérebro deles não está totalmente desenvolvido. Há maior impulsividade, dificuldade de avaliar riscos e forte influência dos grupos sociais e de influenciadores digitais. Muitos acreditam que vão ajudar financeiramente a família, mas se endividam ainda mais cedo.”
Ela destaca que o vício em jogos pode causar evasão escolar, abandono de compromissos e desenvolvimento de outros vícios. “Talvez, hoje, as apostas sejam uma nova ‘porta de entrada’. São acessíveis, disponíveis 24 horas por dia e normalizadas por campanhas publicitárias e influenciadores que associam o jogo a uma vida de luxo e sucesso.”
As plataformas utilizam mecanismos psicológicos para manter o jogador engajado. Entre eles, o “reforço intermitente”, em que prêmios ocorrem de forma imprevisível, e o “efeito quase ganho”, que cria a sensação de que o usuário está sempre próximo de vencer. “Eles oferecem bônus, cashbacks e promoções que geram uma ilusão de segurança. O jogador já investiu tanto que não quer parar”, diz Danielle.
Ela também explica que não há grande diferença entre os jogos de azar, como o popular “Tigrinho”, e as apostas esportivas. “O Tigrinho é puramente aleatório, cheio de sons e efeitos visuais. Já as apostas em futebol criam a falsa sensação de que o jogador pode controlar o resultado por conhecer o esporte. Ambos são baseados nos mesmos mecanismos mentais de dependência.”
Levantamento no Brasil
Segundo a Fiocruz, 9% dos adolescentes brasileiros (13 a 17 anos) já apostaram dinheiro real em jogos online — a maioria sem supervisão. Entre os meninos, o índice passa de 12%.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE/IBGE), mais de 70% dos adolescentes que apostam relataram ter usado o próprio celular e 38% disseram apostar com frequência semanal ou diária. Um em cada cinco afirma já ter pedido dinheiro emprestado para continuar apostando.
Entre os universitários, um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com mais de 3 mil alunos mostrou que 28% dos jovens que apostam relataram sintomas de depressão, ansiedade ou insônia ligados diretamente à prática. Mais de 40% declararam ter prejuízos financeiros que afetaram o pagamento de mensalidades, aluguel e alimentação.
A psicóloga alerta que o tratamento deve envolver apoio familiar, escolar e, em muitos casos, acompanhamento psicológico e psiquiátrico. “Quanto mais cedo a intervenção, maiores as chances de recuperação. O vício em apostas compromete o futuro dos jovens e destrói vidas adultas já estruturadas.”
A falta de serviços especializados para lidar com o vício em jogos de azar é uma preocupação crescente. Entre 2018 e 2023, o número de atendimentos por jogo patológico no SUS aumentou de 108 para 1.200.

