Sistema do INSS operado pela Dataprev virou porta aberta para fraude - Claudio Dantas
Brasília, Terça, 16 de junho de 2026
Política

Sistema do INSS operado pela Dataprev virou porta aberta para fraude

Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) volta atendimento presencial nas agências.

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Por Redação

A fragilidade nos controles operacionais da Dataprev (Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social) permitiu que associações aplicassem descontos indevidos em aposentadorias e pensões de beneficiários do INSS. O alerta partiu de auditoria do TCU em junho de 2024.

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A Dataprev, subordinada ao Ministério da Gestão, é presidida por Rodrigo Assumpção desde abril de 2023. Ele minimizou falhas recentes ao declarar que as instabilidades “são naturais” durante a modernização.

Nos últimos anos, a empresa acumulou uma série de episódios críticos:

  • Instabilidade de sistemas (2023-2024): entre agosto de 2023 e dezembro de 2024, o sistema do INSS ficou fora do ar por 1.466 horas, afetando diversos serviços.
  • Vazamento de dados (abril de 2024): a falha comprometeu pedidos de aposentadoria e rendeu à Dataprev o apelido de “Vazaprev” dentro do próprio Ministério da Previdência.
  • Erro em laudos médicos (maio de 2024): atualizações no sistema inseriram textos de teste, como “blá-blá-blá”, nos laudos periciais.
  • Apagão estatístico (julho de 2024): mudanças no protocolo de segurança travaram o acesso ao Suíbe e suspenderam a publicação do Boletim Estatístico da Previdência Social.
  • Falha em autenticação (agosto de 2024): o sistema Gerid ficou instável por mais de 7 horas, afetando o atendimento no CNIS e Sibe. Há registros de falhas semelhantes em outros períodos.

O relatório do TCU apontou falhas nos processos de empréstimos consignados e descontos associativos.

“Principalmente no caso do desconto de mensalidade de associações e sindicatos, o processo é mais vulnerável”, afirma o documento.

A Dataprev executava comandos enviados pelas entidades sem verificar a origem ou a legitimidade das autorizações. Os arquivos com nomes e valores a descontar eram processados sem checagem. O INSS só tomava conhecimento de irregularidades após reclamações.

A auditoria revelou que o instituto não exigia termos de autorização no momento do desconto. Em reunião com os auditores, o INSS admitiu confiar na boa-fé das associações.

Dataprev e INSS reconheceram as falhas e prometeram criar um sistema seguro de envio e validação de autorizações, com biometria. Em abril de 2024, no fim da auditoria, ainda não havia prazo para a implementação.

A investigação foi aberta por solicitação do deputado Gustinho Ribeiro (Republicanos-SE), encaminhada pela então presidente da Comissão de Fiscalização, Bia Kicis (PL-DF). O pedido incluía medida cautelar contra a venda casada de consignados com filiação a associações, mas o TCU só aprovou a cautelar meses depois, limitada às mensalidades associativas.

A Ambec, uma das entidades envolvidas, passou de 3 associados em 2021 para 600 mil em 2023, arrecadando R$ 90,4 milhões. O total de repasses a associações e sindicatos saltou de R$ 544,7 milhões (2021) para R$ 1,5 bilhão (2023). Ao menos 35 mil queixas sobre descontos indevidos foram registradas no consumidor.gov.br em 2023.

No mesmo ano, os empréstimos consignados movimentaram R$ 89,5 bilhões.

Apenas em setembro de 2024, após denúncias, foi implantado o “Portal de Desconto de Mensalidade Associativa”, exigindo assinatura eletrônica e validação biométrica.

Em resposta à deputada Júlia Zanatta (PL-SC), o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, afirmou que a Dataprev era responsável por toda a operação sistêmica dos descontos e isentou o INSS de responsabilidade solidária.

A Dataprev foi incluída no Programa de Desestatização por Jair Bolsonaro em janeiro de 2020. Em abril de 2023, Lula retirou a empresa do plano de privatização.

Em janeiro de 2025, Stefanutto anunciou contrato de US$ 10,5 milhões com uma empresa americana para implantar IA no combate a fraudes. A tecnologia entraria em operação ainda no 1º semestre.

Três meses depois, Stefanutto foi alvo da Operação Sem Desconto, que apura o desvio de R$ 6,5 bilhões em mensalidades associativas entre 2019 e 2024. Ele pediu demissão no mesmo dia. O ministro da Previdência, Carlos Lupi, deixou o cargo em 2 de maio.

O atual presidente do INSS, Gilberto Waller, determinou a abertura de processo contra 12 entidades investigadas. Despachos do Diário Oficial listam: Ambec, CBPA, CAAP, APDAP PREV, ASABASP, AAPEN, AAPPS, AAPB, ASBrapi, Cebap, Unaspub e APBrasil.

Ficou de fora o Sindnapi, apontado como peça-chave do esquema. Segundo revelado, a entidade solicitou diretamente a Lupi, em janeiro de 2023, a facilitação para desconto das mensalidades. O Sindnapi é vinculado à Força Sindical de Paulinho da Força (Solidariedade-SP), presidido por Milton Cavalo (PDT-SP), aliado de Lupi e tem como vice Frei Chico, irmão de Lula.

Apesar de investigadas, associações como Sindnapi, COBAP e AAPB foram nomeadas para o Conselho Nacional de Saúde em novembro de 2024, sob comando de Nísia Trindade. Também têm assento em outros colegiados do governo Lula, incluindo:
• Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa
• Conselho Nacional de Saúde
• Conselho Nacional de Segurança Alimentar
• Comissão Intersetorial de Práticas Integrativas
• Conselhão
• Comitês de programas federais como o Minha Casa Minha Vida Rural, Alimentação Escolar e Fundo Amazônia

A CBPA, envolvida nas fraudes, foi nomeada para o Conselho Nacional de Aquicultura e Pesca pelo ministro André de Paula, apesar de já ter repassado recursos a um ex-secretário investigado no Maranhão.

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