Impasse sobre Obamacare leva governo ao fechamento parcial
Na madrugada de 1º de outubro de 2025, o governo federal dos Estados Unidos entrou em shutdown após o Congresso não aprovar o financiamento para o ano fiscal de 2026. É o primeiro fechamento desde 2018-2019 e o terceiro durante a presidência de Donald Trump. A crise foi provocada pelo impasse entre republicanos e democratas sobre os subsídios do Affordable Care Act (ACA), conhecido como Obamacare.
O ACA enfrenta ameaças desde sua criação. Em 2025, os subsídios que ajudam milhões de americanos a pagar planos de saúde estavam prestes a expirar. Democratas, liderados por Chuck Schumer e Hakeem Jeffries, exigiam a extensão desses subsídios como condição para apoiar qualquer projeto de lei de financiamento.

Jeffries afirmou para a AFP: “Estamos dispostos a negociar, mas não podemos permitir que o acesso à saúde seja comprometido.”
Republicanos, incluindo Trump, se opuseram à extensão dos subsídios, afirmando que gasto excessivo e expansão do governo. Trump declarou: “Não podemos continuar financiando um sistema de saúde falido que está drenando nossos recursos”
Nos dias que antecederam o shutdown, o Senado rejeitou propostas de ambos os partidos. Democratas bloquearam plano republicano sem subsídios do ACA; republicanos se opuseram ao plano democrata que os incluía. Ambos falharam em obter os 60 votos necessários.
Trump tentou mediar com líderes democratas na Casa Branca. A reunião não gerou acordo. Ele cancelou encontro agendado, chamando as demandas de “não sérias”, mas depois convidou os líderes para nova reunião com republicanos
Com a falha em aprovar o orçamento, cerca de 900.000 funcionários federais ficaram em licença não remunerada, e 700.000 continuaram trabalhando sem pagamento imediato. Serviços essenciais como Medicare, Medicaid e TSA continuaram operando, mas muitas agências suspenderam atividades.
Jeffries acusou Trump de “fomentar o caos em vez da estabilidade”, enquanto republicanos, incluindo o vice-presidente JD Vance, responsabilizaram os democratas pelo impasse.

Aprovação do “grande projeto” de Trump
Em paralelo à tudo isso, o Congresso aprovou o projeto de lei de gastos e impostos de Trump. A Câmara dos Representantes aprovou o texto por 218 votos a 214 em 3 de julho de 2025, após ajustes feitos pelo Senado. Apenas dois republicanos votaram contra; todos os democratas rejeitaram a proposta.
O projeto abrange cortes de impostos, reformas no Medicaid e na Previdência Social, subsídios alimentares e de energia limpa, além de isenção de impostos sobre gorjetas. Trump indicou que sancionaria a lei em 4 de julho, feriado da Independência.
O Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) estima que o projeto pode adicionar US$ 3,3 trilhões ao déficit nos próximos dez anos, deixando milhões sem cobertura de saúde. A Casa Branca contesta essa estimativa, afirmando que a lei reduziria o déficit em mais de US$ 2 trilhões.
Entre as medidas, destacam-se:
- Permanência dos cortes de impostos de 2017 para empresas e pessoas físicas;
- Novos requisitos de trabalho e critérios mais rigorosos para Medicaid;
- Redução gradual de incentivos fiscais para energia limpa;
- Fim de impostos sobre gorjetas.
Segundo análises, cerca de 12 milhões de americanos podem perder assistência de saúde até 2034, incluindo 1,4 milhão sem cidadania ou status migratório comprovado. A Kaiser Family Foundation estima cortes de US$ 1 trilhão nos gastos com Medicaid na próxima década.
O projeto foi elogiado por bancos e especialistas como estímulo econômico de curto prazo, mas a oposição feita pelos Democratas insiste que aumenta déficits e transfere recursos de cidadãos de baixa renda para os mais ricos.
Estratégia de Trump
Trump vê o shutdown como oportunidade para avançar reformas, incluindo cortes em programas de saúde e segurança social. A pressão sobre os democratas busca consolidar sua base e implementar políticas conservadoras.
Republicanos defendem que negociações sobre subsídios podem esperar até o final do ano, quando expirarão os atuais auxílios. Mike Johnson, presidente da Câmara, disse: “Eles estão caminhando para uma armadilha que todos eles mesmos prepararam”.
O governo federal fechou às 00h01 de 1º de outubro, após o Senado não aprovar projetos democrata ou republicano. O projeto democrata incluía US$ 1 trilhão em restauração de cortes do Medicaid e extensão permanente dos subsídios do Obamacare; o projeto republicano previa financiamento por sete semanas. Ambos falharam.
Serviços afetados
Com o shutdown, apenas serviços essenciais funcionam: segurança pública, fiscalização de fronteiras, parte do controle aéreo e programas de saúde prioritários. Funcionários federais de agências não essenciais ficaram em licença não remunerada, e quem trabalha em setores essenciais pode ter salários suspensos, pagos retroativamente quando o orçamento for normalizado.
A Administração Federal de Aviação (FAA) enviou 11 mil funcionários para casa. 13 mil controladores de tráfego aéreo continuam trabalhando sem pagamento. Parques nacionais, museus e zoológicos federais podem fechar ou suspender atividades internas.
Programas de aposentadoria, benefícios de invalidez e assistência alimentar continuarão enquanto houver recursos. Serviço Postal opera normalmente. Tribunais federais e Receita Federal terão operações limitadas. Militares ativos permanecem em serviço, enquanto mais da metade dos 742 mil civis do Pentágono será afastada.
