A bióloga Tatiana Lobo Coelho de Sampaio, professora da UFRJ, virou celebridade do dia para a noite no Brasil. O motivo é seu papel no desenvolvimento de um tratamento pioneiro para lesões na medula que causam paraplegia e tetraplegia, com base na substância polilaminina.
No dia 5 de janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária liberou um estudo clínico com cinco pessoas, com lesão medular que tenha acontecido menos de 72 horas antes do início do tratamento experimental. O número de pessoas é pequeno porque não tem o propósito principal de testar a eficácia da polilaminina em restaurar as lesões, mas de testar sua segurança no organismo.
A substância resulta da junção de várias moléculas de laminina, uma proteína ligada a açúcares que faz parte da estrutura da parte de fora das células e media a comunicação entre elas. Há 11 tipos geneticamente distintos de laminina no organismo humano.
Como biólogo e alguém que já reclamou do desperdício de dinheiro público em projetos de “pesquisa” no Brasil que são ou mal disfarçado ativismo político ou pura futilidade, até aqui só tenho a comemorar.
Parabenizo a doutora Tatiana de Sampaio por mostrar que há quem aplique o dinheiro de impostos em projetos de valor e que demonstram a importância da biologia. É uma brisa de ar fresco para nós brasileiros, maltratados que somos ao pagar nosso “terço dos infernos” (carga tributária de 33%) para sustentar uma classe política corrupta e indiferente.
Ainda que, no fim, a polilaminina se mostre ineficaz, o trabalho realizado terá valido a pena.
Então, vamos ao que interessa: dá para bater o martelo e afirmar que funciona?
O que sabemos até agora sobre a eficácia da polilaminina para lesões na medula
Quando acontece uma lesão na medula espinhal, a causa da perda de movimentos é o rompimento de axônios, as “caudas” longuíssimas dos neurônios que funcionam como os fios condutores dos sinais do cérebro para movimentar os membros.
A hipótese de trabalho de Sampaio é que a polilaminina forma uma estrutura convidativa para sua regeneração, como uma ponte improvisada de madeira até que a ponte de pedra seja reconstruída.
Para avaliar o estado da arte da pesquisa no tema, utilizei a versão paga da ferramenta de inteligência artificial Consensus App, especializada em publicações científicas. A ferramenta é elogiada em alguns artigos científicos para esse tipo de busca.
De um total de 998 artigos da busca inicial, a ferramenta peneirou 40 publicações relevantes para o assunto. Entre os 23 artigos mais relevantes, 70% apontam que a polilaminina é promissora para tratamento da lesão medular, 26% têm conclusões incertas e 4% (um artigo) descartam a ideia.
Ao contrário do que foi sugerido repetidamente durante a pandemia por muitos comunicadores científicos, contudo, a ciência não é feita de consensos. A verdade sobre a natureza não depende de votos, mas da qualidade dos indícios para apoiar as melhores respostas. Se há uma convergência de pesquisadores independentes, isso é importante, mas é um subproduto da qualidade dos indícios e de sua reprodutibilidade.
Voltemos ao artigo solitário com a resposta negativa, de 2019, que é de pesquisadores tchecos trabalhando com lesões medulares em roedores. Na verdade, o estudo trata da laminina não polimerizada, o que é relevante para os testes da polilaminina, mas diferenças são esperadas. A laminina foi usada para cobrir uma estrutura de hidrogel e células-tronco implantada nas lesões medulares dos camundongos. Os autores observaram resultados promissores, como a sobrevivência das células-tronco, mas não viram “melhoria significativa na recuperação da locomoção”. A amostra não foi grande: 30 roedores.
Trabalho de Sampaio sugere eficácia desde 2010
A pesquisadora brasileira está envolvida no estudo da polilaminina há mais de duas décadas. No ano 2000, com a colega Elisabete Freire, ela demonstrou que a laminina se concatenava espontaneamente em polilaminina quando posta em ambiente ácido.
Em poucos anos, Sampaio desenvolveria a ideia de que a polilaminina poderia ser usada em benefício dos paraplégicos e tetraplégicos, como sugere seu pedido de patente internacional para essa aplicação, em 2008.
A ideia não nasce em um vácuo científico. As primeiras sugestões de que a laminina (sem polimerização) era importante para o crescimento neuronal foram feitas por outros pesquisadores e datam de 1983 e 1985. A sugestão de aplicação em lesão medular data de 1988.
Em 2010, Sampaio estava pronta para publicar os primeiros resultados. Na companhia de quatro outros pesquisadores brasileiros, ela publicou naquele ano um artigo na revista da Federação de Sociedades Americanas de Biologia Experimental (FASEB) a respeito de testes em camundongos. Os roedores, menos de 100, foram distribuídos em três tipos de lesão diferentes na medula: por compressão, corte de 80% e rompimento completo.
Conclusão: a polilaminina, aplicada rapidamente após a lesão (30 minutos), melhorou a recuperação locomotora após lesão medular nos roedores, enquanto a laminina sem polimerização não alterou a curva de recuperação espontânea. Sampaio, portanto, não ficaria surpresa com o resultado negativo dos pesquisadores tchecos em 2019.
Antes que nos empolguemos demais, algumas ressalvas são necessárias. Os grupos de ratos comparados eram muito pequenos, de até dez recebendo ou não o tratamento. A outra questão é o quanto a paralisia melhorou.
Tanto o grupo brasileiro quanto o dos tchecos usam uma escala para mensurar a locomoção chamada BBB (vem dos sobrenomes dos cientistas Basso, Beattie e Bresnahan). Ela vai de zero (paralisia completa) a 21 pontos (locomoção normal).
No pior caso do estudo de 2010, o rompimento completo da medula, os roedores melhoraram a partir de menos de dois pontos na escala BBB após a lesão, estado em que ficaram por cinco semanas, até 7,8 pontos quando tratados com polilaminina de roedor e até 8,9 pontos com a substância humana. O grupo sem tratamento (controle) também melhorou, mas só até 4,2 pontos.
Sampaio buscou dar uma explicação para a aparente superioridade da polilaminina em tratar lesões na medula. Em um artigo de 2014 com colaboradores da Escócia e da Espanha, ela propôs que a polilaminina forma estruturas “fractais” nas lesões, diferentes da versão não polimerizada da laminina, o que indica plausibilidade no uso. É interessante, mas não suficiente para demonstrar eficácia em lesões (não foi o propósito do estudo).
Pesquisadora avança para estudos em cães e humanos
Nos anos seguintes, Sampaio e seus colegas testaram o tratamento em cães e em humanos. Em estudo publicado em agosto de 2025, o tratamento em seis cães paraplégicos mostrou melhoras modestas, mas o estudo também usou duas outras substâncias que também podem ter efeito, então não se sabe se foi a polilaminina, especificamente, que ajudou.
O primeiro estudo em humanos ainda não passou pelo processo de revisão científica e envolveu oito pessoas. Elas receberam uma injeção única de polilaminina após, em média, dois dias da lesão medular. Infelizmente, duas morreram em poucos dias, não por causa da injeção, mas por complicações dos traumas que afetaram suas colunas.
Dos restantes, “todos os seis pacientes recuperaram o controle motor voluntário abaixo do nível da lesão, o que é uma recuperação sem precedentes”.
O acompanhamento mínimo foi de um mês. A recuperação não foi uniforme entre os pacientes: enquanto um participante atingiu “capacidade total de marcha” e recuperou o controle da bexiga e do intestino, além da sensibilidade, três tiveram um ganho comparativamente pequeno, com tendência de estabilizar ou até de se reduzir após um ano. Os ganhos para os restantes são também mais modestos do que o caso estupendo do primeiro indivíduo.
As melhoras observadas foram por causa da polilaminina? Difícil dizer. Como diz o rascunho em pré-publicação, 15% das pessoas com lesão na medula recuperam a função motora espontaneamente. Um dado importante: no imageamento, os pesquisadores não conseguiram ver uma diferença detectável no processo já conhecido de formação de uma “cavitação” no local das lesões.
O trabalho continua com o novo estudo aprovado pela Anvisa.
Os esforços de Tatiana de Sampaio e seus colaboradores são valiosos, mas, talvez pela má alocação e cortes de verbas que ela já denunciou por afetarem seu trabalho (o mais grave foi no segundo governo Dilma Rousseff), além de dificuldades práticas e éticas em obter pacientes, as amostras são geralmente muito pequenas e os resultados, por isso, são cercados de incertezas.
Alternativa australiana
Compare a luta de Sampaio com o trabalho de outros pesquisadores da área que dispõem de mais apoio em seus países, como o professor James St John, da Universidade Griffith, na Austrália. Ele também tem um estudo em primeira fase para tratamento de lesão medular.
A aposta de St John é no transplante de pontes neurais de células associadas ao olfato que, como sugere a recuperação do olfato em quem teve Covid, se regeneram melhor que outras. As células são removidas por biópsia dos próprios pacientes, colocadas em pontes tridimensionais e transplantadas para o local da lesão medular. O estudo dispõe de 30 participantes, 20 recebendo o tratamento e 10 no grupo sem tratamento para comparação (controle).
O estudo australiano começará a recrutar pacientes no próximo mês. Os dados serão coletados até 2030.
Há outras linhas investigativas promissoras para lesões medulares
No México, há uma salamandra extraordinária capaz de regenerar uma coluna espinhal partida completamente. É o axolotl, distintivo por sua falta de melanina e guelras mantidas na fase adulta. Estudos têm mostrado que o anfíbio mobiliza células-tronco neurais para a área da lesão, envolvendo centenas de genes no esforço. Aparentemente, é importante para o sucesso da regeneração que o sistema imunológico seja “acalmado” no bicho.
Também tem essa capacidade o peixe-zebra, amplamente usado em pesquisas científicas. Após partir a coluna, o animal volta a nadar depois de seis a oito semanas. Uma observação interessante é que, depois de iniciar o processo de inflamação na lesão, o organismo do peixe-zebra desliga a resposta imunológica para evitar a formação de cicatriz na medula. Essa cicatriz, embora tenha sua função, é parte do que dificulta que humanos sejam capazes da mesma regeneração.
Portanto, o axolotl e o peixe-zebra convergem em indicar um ajuste fino da resposta imunológica como um passo importante para a possibilidade de recuperar movimentos após lesão medular.
E eles sugerem que, se a laminina é parte da história, pode não ser uma parte grande: centenas de genes estão envolvidos, não apenas os 11 genes humanos que codificam as lamininas.
Defesa de substância ineficaz contra o câncer juntou Jair Bolsonaro e Jean Wyllys na mesma causa
Muitos brasileiros positivamente impressionados com o trabalho da polilaminina não gostam de ouvir a possibilidade de que os resultados futuros dos testes podem decepcionar. Mas é uma possibilidade real, que não seria culpa de Tatiana de Sampaio, mas um desfecho com precedentes da dificuldade que temos para ler o livro da natureza em sua linguagem original.
Um episódio notório de alimentação de falsa esperança no Brasil ocorreu há uma década, quando um pesquisador sozinho começou a prescrever fosfoetanolamina, outra substância que ocorre naturalmente no organismo, como suposto tratamento de câncer.
Na pressa de atender à febre da opinião pública a favor do tratamento experimental, os então deputados Jean Wyllys e Jair Bolsonaro, que não poderiam ser mais opostos politicamente, se uniram no projeto de tentar liberar a “pílula do câncer” para pacientes desesperados. Para resumir o resultado dos estudos: o principal precisou ser interrompido por razões éticas, pois os pacientes que estavam tomando a “fosfo” não estavam se saindo melhor.
Para pessoas com diagnóstico de câncer terminal, ou que encaram a perspectiva de uma vida de mobilidade reduzida, perder a esperança faz mal.
Também faz mal, contudo, a falsa esperança, aquela que deixa crescer expectativas que são dolorosamente invalidadas pela realidade. A falsa esperança tem um custo de oportunidade: o tempo gasto perseguindo tratamentos ineficazes tem um custo no tempo dedicado à família e à árdua caminhada rumo à paz mental.
Ainda é cedo demais, contudo, para dizer que a polilaminina é falsa esperança. No meio da incerteza, torcer de forma sóbria e manejar as expectativas não faz mal. Boa sorte a todos. Ciência também envolve sorte.
