A Polícia Federal (PF) afirma que uma empresa ligada ao empresário José Marcos de Moura, o “Rei do Lixo”, movimentou ao menos R$ 861 milhões em transações suspeitas entre 2014 e 2025. O dado consta na representação que motivou a 3ª fase da Operação Overclean, deflagrada para investigar o desvio de recursos públicos por meio de emendas parlamentares.
Segundo a PF, os valores foram registrados nas contas da MM Consultoria e Construções, controlada por Moura. Os relatórios foram enviados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que aponta um volume total de R$ 12,6 bilhões em movimentações nas contas de empresas ligadas ao grupo — sendo R$ 999 milhões classificados como atípicos, com “indícios de lavagem de dinheiro”.
“José Marcos Moura movimentou R$ 80.243.234,45 em operações classificadas como suspeitas, sendo beneficiário direto de recursos desviados. Grande parte desses valores teve origem na MM Consultoria Construções e Serviços LTDA, que sozinha acumulou R$ 861.412.612,79 em transações atípicas”, detalha a PF no documento obtido pelo Metrópoles.
As transações incluíram R$ 5,1 milhões em saques em espécie e cerca de R$ 20 milhões em negócios imobiliários suspeitos entre 2020 e 2024. Em um dos casos, uma transferência de R$ 435 mil foi direcionada a uma pessoa com foro privilegiado — dado considerado relevante para que a investigação fosse remetida ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O ministro Kassio Nunes Marques, relator do caso no STF, autorizou o acesso da PF às identidades dos envolvidos com prerrogativa de foro e determinou que o Coaf envie os dados detalhados das movimentações.
Outro nome citado nas investigações é o de Gabriel Mascarenhas Sobral, apontado como lobista responsável por liberar emendas e convênios em dois ministérios. Em 2022, ele também teria transferido valores a uma pessoa com foro privilegiado. A PF ressalta que essas transações não foram detectadas inicialmente porque a Overclean tramitava na 1ª instância da Justiça Federal da Bahia.
A Overclean teve origem em um contrato do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), mas se expandiu após a apreensão de documentos com os irmãos Alex e Fabio Parente — empresários ligados à Allpha Pavimentações. A empresa recebeu R$ 67 milhões do governo federal entre 2021 e 2024, via DNOCS. Parte dos contratos foi firmada ainda no governo Bolsonaro (PL), mas os pagamentos seguiram durante o governo Lula (PT), com recursos do chamado “orçamento secreto”.
Em dezembro de 2024, Alex Parente foi abordado pela PF em um avião ao lado de Lucas Maciel Lobão Vieira, ex-chefe do DNOCS na Bahia. Na ação, agentes encontraram o que classificaram como uma “contabilidade clandestina” do grupo. O material serviu de base para as fases seguintes da operação.
A 2ª fase da Overclean, realizada em 23 de dezembro, prendeu o vice-prefeito de Lauro de Freitas (BA), Vidigal Cafezeiro Neto; o secretário de Mobilidade Urbana de Vitória da Conquista (BA), Lucas Dias; um policial federal; e Carlos André Coelho, operador do grupo, segundo a PF.
Em 15 de janeiro, a investigação foi remetida ao STF após surgirem indícios do envolvimento do deputado federal Elmar Nascimento (União Brasil-BA), que integra a cúpula do partido e é aliado do governo no Congresso. O nome de Elmar reacendeu a tensão política no Planalto, em meio ao desgaste com a base do centrão.
Enquanto o governo Lula insiste no discurso de “nova política”, as investigações revelam a persistência de velhas práticas. “O esquema investigado envolve a movimentação de mais de R$ 12 bilhões”, resume a PF. O silêncio do governo sobre o caso tem sido interpretado como uma tentativa de blindagem.
A defesa de José Marcos Moura não se manifestou.
