Pequeno Manual do Direitista Entrevistado por Jornalista Esquerdista - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Pequeno Manual do Direitista Entrevistado por Jornalista Esquerdista

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Por Redação

Por Marcelo Pessoa*

Após assistir ao vídeo com trechos da entrevista de Romeu Zema à GloboNews, resolvi escrever este Pequeno Manual do Direitista Entrevistado por Jornalista Esquerdista. Ilustrarei as quatro regras com exemplos da entrevista.

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Vejamos:

1ª Regra – Antes de começar, assuma que o entrevistador é seu inimigo e está ali para te destruir. Para isso, ele fará “gotcha questions”, mentirá descaradamente, recorrerá a todo tipo de argumento falacioso possível e editará a entrevista da pior forma para o entrevistado.

Exemplo: No vídeo que viralizou, a entrevista foi cortada exatamente após Zema dizer “Tá certo então” em resposta a um comentário falacioso do entrevistador. Na entrevista completa, Zema continua após essa frase com uma boa defesa do seu ponto.

2ª Regra – Antes da entrevista, estude todos os aspectos dos temas que serão discutidos e dos temas mais relevantes para a opinião pública naquele momento, mesmo que a entrevista não seja sobre eles.

Exemplo: Sobre o 8 de janeiro, Zema deveria estar ciente dos fatos relacionados à manifestação, ao julgamento e à legislação aplicável.

3ª Regra: Nunca permita interrupções. Acuse o jornalista de não permitir a finalização do raciocínio. Se ele insistir, continue falando de forma cada vez mais assertiva até que ele ceda ou a entrevista termine.

Exemplo: Zema não havia concluído seu ponto quando foi interrompido pelos jornalistas, que tentaram contradizê-lo citando a lei 14.197.

4ª Regra: Jamais aceite as premissas do jornalista como verdadeiras. Discuta cada premissa como se fosse absolutamente falsa e sempre confronte os jornalistas.

Exemplo 1: Sobre o argumento de Zema de que as penas são excessivas para as ações cometidas, a jornalista o interrompe: “Existe uma lei aprovada por Bolsonaro e desenhada pelo Congresso Nacional que estabelece essas penas. Então, se essas penas não existem em nenhum lugar do mundo, talvez seja porque a lei dos outros países não é como a nossa, que foi feita pelo Congresso e sancionada pelo ex-presidente.”

Nesse momento, Zema deveria ter contestado todas as premissas: “Não, a lei aprovada pelo Congresso e sancionada por Bolsonaro não trata de manifestações populares com destruição de patrimônio público, que foi o que ocorreu no 8 de janeiro. As penas para isso são leves: apenas multa e detenção por até três anos. No 8 de janeiro, essas pessoas receberam penas de quase vinte anos de prisão. O que aconteceu? O STF, com o apoio de vocês da mídia, está usando a lei 14.197, que trata de crimes gravíssimos como golpe de Estado, espionagem e defesa da soberania nacional, para encarcerar inocentes por anos com o objetivo de fazer terrorismo contra a direita.

Estão usando essa lei para incutir medo nos cidadãos, impedindo que exerçam o direito constitucional de manifestação e expressão. Por isso, vocês deveriam ter vergonha de defender uma pena de 14 anos para uma mãe de família que escreveu com batom em uma estátua ou 17 anos para um trabalhador que se sentou em uma cadeira. Não percebem que nenhum cidadão decente concorda com isso? É por isso que a audiência e a credibilidade de vocês estão próximas de zero junto ao povo brasileiro. É por isso que esses mesmos ministros do STF foram sancionados pela mais robusta democracia do mundo como violadores de direitos humanos.

Exemplo 2: O jornalista complementa o colega: “E o crime não é sentar na cadeira nem pichar com batom, mas tentativa de golpe de Estado.

Mais uma vez, Zema deveria ter contestado a premissa: “Não, o crime foi depredação de patrimônio público. Golpe de Estado é o crime pelo qual esses inocentes estão sendo enquadrados por ministros sancionados por violação de direitos humanos, com o apoio de vocês da mídia. Que golpe de Estado? Para haver golpe, é preciso controlar a força das armas, ter liderança e planejamento.

Não havia nada disso. Essas 700 pessoas condenadas por golpe de Estado estavam sob a liderança de quem? Quem coordenou suas ações? Que armas tinham para enfrentar os 11 mil policiais armados do Distrito Federal ou os 212 mil soldados do Exército brasileiro? Do que estão falando? Sei bem que a narrativa dos ministros sancionados para justificar esse terrorismo contra inocentes é: ‘Não, veja bem, essas pessoas queriam criar uma comoção nacional para que o Exército tomasse o poder. Por isso, quebraram tudo em Brasília, para que o Exército observasse e tomasse o poder para manter a ordem.’

Ora, pra começar, os chefes das Forças Armadas jamais concordaram nem mesmo em usar instrumentos constitucionais, como o estado de defesa, quando questionados. Mesmo sendo algo previsto na Constituição e dependente da aprovação do Congresso, os chefes das Forças Armadas não apoiaram seu uso, por exemplo, quando questionados por Dilma em 2016. Também não apoiaram quando questionados por Bolsonaro em dezembro de 2022.

Que golpe, se no dia 30 de dezembro Bolsonaro nomeou o indicado por Lula, o general Julio Arruda, como comandante do Exército? Então, que golpe, se no 8 de janeiro Lula já tinha pleno comando do Exército? Vocês querem mesmo que o povo acredite que nossos generais veriam algumas pessoas quebrando janelas na Praça dos Três Poderes e diriam: ‘É, não temos escolha. Dona Débora escreveu “Perdeu, mané!” numa estátua.

Precisamos tomar o poder do presidente recém-eleito com mais de 60 milhões de votos. Estamos numa sinuca de bico. É colocar tanques nas ruas ou deixar um gari limpar a estátua com água no dia seguinte. O que faremos?’ É isso que vocês defendem? Não percebem como são ridículos? Como estão afundando a credibilidade da mídia na lama com essa ladainha?”

Exemplo 3: Jornalistas alegam que houve tentativa de depor com violência o Estado Democrático de Direito porque policiais ficaram feridos no 8 de janeiro e havia um plano para matar autoridades.

Zema deveria ter contestado a premissa: “Fico feliz pela preocupação de vocês, jornalistas, com a segurança dos policiais. Da última vez que ouvi um jornalista da Globo falar de policiais, foi para dizer que não era justo que tão poucos policiais morressem em conflitos com bandidos. Agora, o que tem a ver um policial de tropa de choque atingido por manifestantes em ação violenta com a abolição violenta do Estado Democrático de Direito?

A palavra ‘violenta’? Esse é o nível infantil do argumento de vocês? Ora, a polícia foi avisada da manifestação. Policiais feridos indicam que o efetivo adequado não foi mobilizado, e não um atentado violento contra o Estado Democrático de Direito. A lei que vocês citam fala de usar violência ou grave ameaça para impedir ou restringir o exercício dos poderes constitucionais.

A manifestação ocorreu num domingo, com a Esplanada vazia. Em sete horas, tudo acabou. Os poderes funcionaram normalmente no dia seguinte, até porque aprenderam a trabalhar remotamente durante o lockdown defendido por vocês. Sobre esse plano para matar autoridades, você disse bem: plano. Planejar não é crime no Brasil. Nem mesmo atos preparatórios são crimes em si. Não sabia mesmo? Pareciam peritos em legislação no início desta entrevista.

Além disso, não havia qualquer ligação entre esses manifestantes e um suposto plano para matar quem quer que seja. Cada brasileiro tem direito a julgamento individualizado. Quer dizer, vocês, jornalistas, estão defendendo que uma mãe fique 14 anos na cadeia porque escreveu com batom em uma estátua enquanto um soldado escrevia que queria matar alguém? É esse o nível de loucura de vocês? Querem afundar ainda mais o jornalismo brasileiro na lama?

*Marcelo Pessoa é bacharel em Relações Internacionais (UnB) e doutor em Economia (EPGE-FGV).

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