Quando o tarifaço contra o Brasil foi anunciado, houve vazamento de bastidores do Palácio do Planalto dizendo que havia “regozijo” entre assessores, pois Donald Trump havia dado a Lula o que ele precisava para “reagir nas redes sociais e nas pesquisas de popularidade”.
A euforia palaciana inicial parece ter passado na medida em que os prejuízos econômicos e sociais começam a ser visualizados.
Se, em um primeiro momento, se acreditou que o impacto seria localizado, agora começa-se a tomar a verdadeira dimensão do risco. Além das vendas diretas e indiretas para aquele país – por exemplo, ao barrar a entrada de frango, também se impede a importação do plástico que embala o frango –, há a ameaça de que o Brasil perca mercado também em outros países.
Algo que aparentemente ficou em um segundo plano foi o fato de os EUA serem competidores do agro brasileiro e que Trump está usando sua guerra comercial para vender seus produtos a outros países em detrimento dos brasileiros, especialmente na Ásia.
Taxar exportações, aplicar sanções a autoridades que colocam o Brasil ao lado de países párias e usar a guerra tarifária para competir com agro é um combo de risco político que o governo aparentemente subestimou.
Empresários falam para quem quiser ouvir em Brasília que não sentem nenhuma movimentação do governo para buscar solucionar o problema e sem qualquer senso de urgência.
A inércia observada leva muita gente a acreditar que o governo quer esse problema para poder fazer um “exercício de liderança” que envolve discurso vitimista, ter a oportunidade de culpar os bolsonaros em 2026 pelas dificuldades na economia, preparar um pacotão fiscal por fora das regras (emulando o modelo adotado na pandemia de criação de um orçamento paralelo), trazer os empresários para o colo com ajudas emergenciais e surfar na conhecida fórmula de promover unidade interna diante do inimigo externo.
Aí cria-se a tempestade perfeita: Trump quer o tarifaço para, entre outras coisas, ajudar seu país na competição pelo mercado de commodities, para fazer do Brasil um exemplo negativo para o “Sul Global” e prestar solidariedade ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Por sua vez, Lula quer a crise porque não foi capaz até agora de entender que o evento que se está abrindo, com repercussões comerciais e diplomáticas nunca vividas em nossa história, pode ser boa para ele nas pesquisas e servir de tônico energizante para a militância da esquerda.
P.s. Lula tem dito que não irá “se humilhar” para resolver a questão. Sobre isso, um diplomata com trânsito comercial em Brasília e São Paulo lembrou que o gabinete do Primeiro-ministro britânico, Keir Stamer, do Partido Trabalhista, possui um nível de resistência ideológica a Donald Trump que não fica devendo em nada para a ojeriza do gabinete petista.
No entanto, essa resistência não impediu que Trump fosse convidado para uma segunda visita de Estado ao Reino Unido, algo que nunca havia acontecido considerando que o país não costuma convidar presidentes de segundo mandato para esse tipo de cerimônia. Coincidência ou não, o país teve seu acordo comercial chancelado em Maio e garantiu tarifas de 10% enquanto a União Europeia, por exemplo, ficará em 15%.
Como dizia um antigo professor de Relações Internacionais que eu tive na UnB, às vezes não tem problema você se deixar humilhar um pouquinho…
Capital Político
Think Policy e Casa Blanca
