No mesmo dia, Papa e CEO da Cloudflare convergem: a censura passou dos limites - Claudio Dantas
Brasília, Domingo, 19 de julho de 2026
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No mesmo dia, Papa e CEO da Cloudflare convergem: a censura passou dos limites

Luiz Inácio Lula da Silva e o papa Leão XIV, em outubro de 2025. Foto: Ricardo Stuckert / PR
Luiz Inácio Lula da Silva e o papa Leão XIV, em outubro de 2025. Foto: Ricardo Stuckert / PR

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

De vez em quando os planetas se alinham, a borra do café forma um padrão, e pessoas completamente diferentes nos mostram, de forma independente, que um problema (como a onda da censura) não está só na nossa cabeça.

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Foi o caso, nesta sexta-feira (9), quando o Papa Leão XIV e Matthew Prince, diretor executivo da Cloudflare (empresa de segurança online que tem o controle de uma enorme parte da internet), reclamaram do mesmo problema: a deterioração da liberdade de expressão no Ocidente.

“Isso é nojento”

Comecemos com a denúncia de Prince. “Ontem, um órgão quase-judicial da Itália multou a Cloudflare em US$ 17 milhões por falhar em acompanhá-lo em um esquema para censurar a internet”, disse o executivo, no X.

Dessa vez, até a União Europeia, segundo ele, ficou alarmada. Isso surpreende, pois a União Europeia vem pressionando as empresas de tecnologia (tendo multado o próprio X em milhões) por mais remoção de conteúdo.

Os italianos “exigiram, dentro do prazo de meros 30 minutos de notificação, que censurássemos completamente da internet quaisquer sites que uma súcia de elites midiáticas da Europa considerasse contrários a seus interesses”, explicou Prince, em vocabulário surpreendentemente duro.

“Não havia supervisão judicial. Nem devido processo. Sem apelação. Sem transparência.”

Uma parte é familiar para os brasileiros: “exigiam não só que censurássemos o conteúdo na Itália, mas globalmente”. Foi exatamente o que fez um juiz de Blumenau contra o X em setembro de 2025, com detalhes que este portal trouxe em primeira mão.

“Isso, é claro, é NOJENTO”, afirmou o CEO da Cloudflare. “Não só porque é errado para nós, mas porque é errado para os valores democráticos”. Ele disse que está considerando seriamente retirar sua empresa da Itália, ou alguma outra ação que poderia prejudicar os sites ligados aos jogos olímpicos de inverno nas cidades italianas de Milão e Cortina d’Ampezzo, que ocorrerão entre 6 e 22 de fevereiro. “Participem de jogos idiotas, ganhem prêmios idiotas”, disparou.

Matthew Prince disse que discorda de algumas das ações do governo Trump, mas agradeceu ao vice-presidente americano, J. D. Vance, por ter soado o alarme sobre a mania de censura na Europa no começo do mandato. “E, neste caso, Elon Musk está certo”, acrescentou.

O empresário anunciou que conversará com o governo americano quando estiver em Washington D.C. na próxima semana, e que também aproveitará uma viagem a Lausanne para falar com o Comitê Olímpico Internacional a respeito da possibilidade de o fim dos serviços da Cloudflare prejudicarem os jogos.

O órgão “quase-judicial” que causou a celeuma é a Autoridade pela Garantia da Comunicação (AGCOM), uma agência reguladora italiana. O órgão publicou no dia 8 de janeiro que multou a Cloudflare em 14 milhões de euros “por violar regulamentações antipirataria”. Para a entidade, portanto, o problema é de direitos autorais. O que eu, particularmente, vejo nisso é a influência de empresas poderosas de comunicação e entretenimento, então tendo a pensar que Prince tem razão.

Leão XIV dá indireta na cultura woke e reclama de censura no Ocidente

Se você ler um tweet de hoje na conta em português do Papa Leão XIV no X, sua reclamação da pressão política contra as liberdades não parece ter um alvo muito específico. Vale ler na íntegra:

“No contexto atual, verifica-se um verdadeiro ‘curto-circuito’ dos Direitos Humanos: o direito à liberdade de expressão, à liberdade de consciência, à liberdade religiosa e até mesmo o direito à vida sofrem limitações em nome de outros direitos considerados novos, resultando na perda de vigor do próprio sistema de direitos humanos, o que abre caminho à força e à opressão. Isso ocorre quando cada direito se torna autorreferencial e, sobretudo, quando perde a sua conexão com a realidade das coisas, a sua natureza e a verdade.”

Soa abstrato, talvez um pouco vago, com nada de novo. Mas a fala do papa em inglês, feita na Sala das Bênçãos do Palácio Apostólico durante o encontro anual com o Corpo Diplomático, teve um trecho bem mais contundente, com alvos mais claros. O discurso é conhecido como “Estado do Mundo” e é uma das principais ações do pontífice na abertura de um novo ano.

“É doloroso ver como, especialmente no Ocidente, o espaço para a genuína liberdade de expressão está encolhendo rapidamente”, disse Leão XIV. “Ao mesmo tempo, uma nova linguagem de estilo orwelliano está se desenvolvendo, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, acaba excluindo aqueles que não se conformam às ideologias que a estão alimentando”.

Agora, sim, está muito claro. O papa está falando daquele fenômeno que levou uma âncora da BBC, Martine Croxall, a corrigir para “mulheres” quando seu teleprompter colocou “pessoas grávidas” em sua boca. Ela fez uma careta, claramente incomodada com o linguajar ideológico. Croxall terminou punida pela emissora britânica, que alegou que sua reação de incômodo violou o princípio da imparcialidade (depois, dois diretores da BBC caíram por terem permitido uma edição enviesada e desonesta de um discurso de Trump).

É o fenômeno que criou termos tolos como “lugar de fala” e “apropriação cultural”, tentando fazer valer com gritaria no espaço público os seus valores: a cultura woke, a lacração, o identitarismo.

Se até o papa está reclamando do problema, tratando como digno de menção, a coisa realmente está feia. No discurso, ele mencionou também o direito à vida, em referência à posição da Igreja contra o aborto. Também é relevante: no Reino Unido, pessoas já foram punidas até por rezar silenciosamente na frente das clínicas de aborto. Se nem expressão silenciosa está sendo perdoada pela sanha da censura, o Ocidente está em crise.

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