Fotos e relatos da decisão mostram mulher em tonel de gelo e morador arrastado pelas ruas
O juiz Leonardo Rodrigues da Silva Picanço, da 42ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, que autorizou a megaoperação contra o Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão e da Penha, destacou em sua decisão a existência de uma prática sistemática de torturas e punições contra moradores e a manutenção de um esquema hierárquico e armado que controla o tráfico de drogas na região.
A Operação Contenção, deflagrada na terça-feira (28) pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, mirou a cúpula da facção narcoterrorista, que reagiu brutalmente à incursão da polícia, que tentava cumprir cerca de 100 mandados. O tiroteio terminou com quatro policiais e 117 criminosos mortos.
No documento que baseou a operação, o magistrado menciona as evidências recolhidas no inquérito, incluindo vídeos, mensagens e conversas interceptadas que revelam a rotina de punições e execuções comandadas pela facção.

Um dos registros mostra Aldenir Martins do Monte Júnior sendo amarrado, amordaçado e arrastado por um carro, enquanto implora por perdão. Em resposta, um dos chefes do grupo “faz piada do sofrimento alheio, debochando da vítima agonizante”, narra o juiz.
Outro vídeo mostra uma mulher negra dentro de um tonel de gelo, método usado como castigo em bailes funk, segundo a investigação.
O inquérito da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) aponta que o grupo é chefiado por Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, considerado o principal líder do CV no Rio.
NÃO CESSARÁ POR ENCANTO
Ao lado dele atuam Pedro Paulo Guedes (Pedro Bala), Carlos Costa Neves (Gardenal), Washington César Braga da Silva (Grandão ou Síndico da Penha) e Juan Breno Malta Ramos, o BMW, apontado como executor de torturas e homicídios.
De acordo com a polícia, os chefes da facção usavam aplicativos de mensagem para dar ordens sobre a venda de drogas, escalas de vigilância, movimentação de armas e punições a moradores. BMW, segundo os investigadores, liderava o Grupo Sombra, responsável por, além de aplicar castigos, treinar novos integrantes no uso de armas de grosso calibre.
O juiz Picanço destacou que a atuação da facção demonstra “estabilidade e permanência” nas comunidades da Zona Norte e classificou as práticas relatadas como “degradantes e inaceitáveis”.
“Ora, é pueril imaginar que uma vida criminosa, como resta indiciado ser a dos acusados acima mencionados, cessará como que por encanto. Não é isso que a realidade demonstra”, afirmou o magistrado.
Diante das evidências, ele determinou a prisão preventiva de 51 suspeitos, afirmando que apenas a medida cautelar seria capaz de preservar a ordem pública e impedir que os acusados continuem suas “carreiras criminosas”.

Além das prisões, foram expedidos 54 mandados de busca e apreensão. Outros 17 investigados foram alvos de medidas cautelares alternativas, como recolhimento domiciliar noturno.
Apesar da mobilização, Edgar Alves de Andrade, o Doca, escapou do cerco e segue foragido. O Disque Denúncia oferece recompensa de R$ 100 mil por informações que levem à sua captura.
Até o momento, a operação deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais. A ação envolveu cerca de 2,5 mil agentes das polícias Civil e Militar e cumpriu mais de 100 mandados de prisão. Segundo o governo do Rio, 113 suspeitos foram presos, e as forças de segurança apreenderam 118 armas — sendo 91 fuzis — além de 14 explosivos e drogas.
