Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, e a subsecretária de Estado, Sarah B. Rogers anunciaram hoje sanções contra “cinco indivíduos que lideraram esforços organizados para coagir plataformas americanas a censurar, desmonetizar e suprimir pontos de vista americanos aos quais se opõem”, diz um comunicado oficial.
O comunicado, assinado por Rubio, não dá os nomes dos indivíduos, limitando-se a explicar que são “ativistas radicais e ONGs instrumentalizadas” que ajudaram “Estados estrangeiros” a censurar indivíduos e empresas americanas.
A subsecretária, contudo, detalhou quem são os sancionados em postagens nas redes sociais (veja na próxima seção). “Nossos alvos são estrangeiros, mas vocês notarão que alguns colaboraram com burocratas dos EUA na supressão de falas”, ela disse.
Para caracterizar as atividades dos sancionados, o secretário usa o vocabulário cunhado por jornalistas na série de reportagens Twitter Files (nos EUA e depois no Brasil): “complexo industrial da censura”.
As sanções consistem em restrição de visto. “Não estamos acionando medidas financeiras no estilo Magnitsky” (como as aplicadas a Alexandre de Moraes entre julho e dezembro de 2025), explicou Rogers. “Nossa mensagem é clara: se você dedica sua carreira a fomentar a censura da expressão americana, você não é bem-vindo em solo americano”.
Burocrata europeu ameaçou o X e Elon Musk durante a campanha presidencial dos EUA em 2024
O primeiro nome da lista é o do empresário e ex-ministro da Fazenda francês Thierry Breton. Há dois anos, quando ainda comissário europeu para o Mercado Interno, Breton ameaçou Elon Musk e a rede social X com uma série de procedimentos punitivos.
Em agosto de 2024, Breton dobrou a aposta, ameaçando Musk por criticar políticas de censura da União Europeia e por entrevistar na sua plataforma o então candidato republicano, Donald Trump.
“Como você sabe, processos formais já estão em tramitação contra o X sob a DSA [Lei de Serviços Digitais], destaco em áreas ligadas à disseminação de conteúdo ilegal e na efetividade de medidas tomadas para combater a desinformação”, escreveu o burocrata francês em uma carta oficial endereçada ao empresário sul-africano. “Meus serviços e eu ficaremos extremamente vigilantes quanto a qualquer evidência que aponte para violação da DSA e não hesitaremos em fazer uso pleno dos nossos instrumentos”.
No dia seguinte, a Comissão Europeia, braço executivo do bloco europeu presidido por Ursula von der Leyen, distanciou-se de Breton. Em 16 de setembro de 2024, o francês renunciou ao seu cargo, para o qual havia sido nomeado pelo presidente da França, Emmanuel Macron.
Ainda assim, em 5 de dezembro de 2025, a Comissão Europeia decidiu multar o X em 120 milhões de euros por violações da mesma lei que Breton usou em sua ameaça. Na nota que explica a multa, contudo, não são citados os motivos usados na ameaça, como “desinformação” e “discurso de ódio”, mas outras violações como “uso enganoso da ‘marca azul’ do X”, “falta de transparência no repositório de anúncios” e “falha em dar acesso a dados públicos para pesquisadores”.
A subsecretária Rogers disse que Breton é “um mentor da Lei de Serviços Digitais” e mencionou a ameaça contra Musk antes de sua entrevista com Trump no X como motivo para a sanção.
Outros sancionados
O segundo sancionado é o britânico Imran Ahmed, fundador e diretor executivo do Centro de Combate ao Ódio Digital (CCDH, na sigla em inglês).
Em outubro de 2024, os jornalistas Paul Thacker e Matt Taibbi revelaram que a ONG tinha como uma meta recorrente em suas prioridades anuais “matar o Twitter de Elon Musk”. Outra prioridade era articular legislação pela censura na União Europeia e no Reino Unido.
Na época, a campanha de Donald Trump, que tinha Musk como coordenador e financiador, fez uma queixa formal contra o Partido Trabalhista do Reino Unido por interferência estrangeira nas eleições.
O motivo para isso é que o CCDH tem ligação direta ao partido: Morgan McSweeney, chefe de gabinete do primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer, ajudou Ahmed a fundar a ONG em 2018. Ele saiu da diretoria em 2020. A organização tem registro em ambos os países.
A organização não-governamental participou de uma campanha a dias das eleições de novembro de 2024 nos Estados Unidos, junto com os jornais The New York Times e The Washington Post e a ONG Media Matters, para tentar pressionar o YouTube a remover vídeos que eles, com seu viés progressista, consideravam “teorias da conspiração”.
Para Rogers, Ahmed foi um “colaborador chave no esforço do governo Biden de instrumentalizar o governo contra cidadãos americanos”, e o CCDH promoveu censura contra uma dúzia de americanos rotulados como “antivacinas”, inclusive o atual secretário da Saúde, Robert Kennedy Jr.
A terceira sancionada é Clare Melford, presidente do Índice Global da Desinformação (GDI), outra ONG britânica que monitora sites por suposto “discurso de ódio” e alegada “desinformação”. O produto do trabalho da organização é uma lista negra de veículos de comunicação, sites e plataformas usada para excluir quem andar fora da linha ao fechar contratos com agências de publicidade. Rogers disse que a ONG “usou dinheiro do pagador de impostos no Departamento de Estado [de Biden] para estimular a censura e fazer uma lista negra de expressões e imprensa americanas”.
As últimas da lista de sancionados são líderes de uma ONG alemã, a HateAid (algo como “Ajuda contra o ódio”): Anna-Lena von Hodenberg, fundadora, e Josephine Ballon, diretora administrativa. Para o Departamento de Estado americano, a organização foi fundada após as eleições federais alemãs de 2017 “para combater grupos conservadores”.
Rogers afirmou que a HateAid atua como “denunciante de confiança” da União Europeia no contexto da censura promovida pela DSA, e “rotineiramente exige acesso a dados de propriedade de plataformas de rede social para ajudá-la a censurar mais”. A subsecretária usou as falas de Ballon em entrevistas de 2024 em que a ativista afirmou que “a liberdade de expressão precisa de limites” e prometeu impedir a “emocionalização dos debates” pela “regulação de plataformas”.
As limitações de visto para os ativistas pró-censura acontecem no mesmo mês em que o governo Donald Trump removeu as sanções Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes. Como alguns dos novos sancionados, Moraes buscou censurar cidadãos americanos por sua expressão em plataformas americanas como Rumble e X. Diferentemente de todos eles, contudo, Moraes chegou a ordenar a prisão de ao menos uma brasileira com dupla cidadania, Flávia Magalhães, por supostos crimes de opinião.
