Na edição desta segunda-feira (24) do programa Alive, o engenheiro Carlos Rocha, pesquisador do Instituto Voto Legal (IVL), trouxe novas perspectivas sobre a investigação conduzida pela Polícia Federal em relação às eleições de 2022, e comentou que nunca utilizou palavra “fraude” . Rocha, que está entre os indiciados no inquérito sobre a suposta tentativa de golpe de Estado, defendeu a validade do trabalho técnico realizado por sua equipe e criticou a atuação da Procuradoria-Geral da República (PGR) no caso.
“Usaram conversas minhas de WhatsApp [com um técnico da investigação] como prova que evidentemente além de ser pesca probatória, o que é ilegal, a conversa é absolutamente técnica. Sou eu conversando com ele dizendo: vê aí se você acha algum problema, se tem alguma manipulação, se tem alguma alteração… a palavra fraude não consta dessa conversa”, afirmou o engenheiro.
Rocha comentou as recentes denúncias da PGR, destacando sua surpresa com o fato de que outros envolvidos em questões eleitorais anteriores não receberam o mesmo tratamento. “Dos 36 indiciados, eu sou o único que não trabalhou em nenhum governo. Todos os demais já tiveram vínculos diretos. Então, qual é o critério?’ questionou o engenheiro.
O engenheiro detalhou o processo de auditoria realizado pelo IVL a pedido do Partido Liberal (PL) em 2022. Ele ressaltou que a fiscalização foi baseada na metodologia do Tribunal de Contas da União (TCU), que, em relatório de 2021, apontou riscos e vulnerabilidades no sistema eleitoral. “Não inventamos nada. Apenas seguimos as recomendações e aplicamos técnicas reconhecidas internacionalmente”, afirmou Rocha.
Segundo ele, a auditoria identificou erros nos registros de todas as versões de urnas eletrônicas, embora os modelos mais antigos apresentassem maior incidência de falhas. “Erro em tecnologia existe. O que fizemos foi apontar que há espaço para melhorias. O problema foi a politização do tema”, disse o engenheiro.
Carlos Rocha destacou sua experiência na área, mencionando sua formação em engenharia eletrônica pelo ITA em 1977 e sua participação no desenvolvimento das urnas eletrônicas desde 1995. “Participei de todo o processo, desde a concepção até a implementação. Sempre defendi que a tecnologia deve ser aprimorada com base em evidências técnicas, não políticas”, afirmou.
Segundo Rocha, sua colaboração com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) incluiu sugestões para aprimoramentos, como a implementação do comprovante impresso do voto. “Essa medida chegou a ser aceita pelo ministro Gilmar Mendes em 2016, mas depois foi vetada pelo STF. A transparência deveria ser a prioridade”, criticou.
Rocha afirmou que a equipe do IVL seguiu o procedimento estabelecido pelo próprio TSE ao solicitar uma verificação extraordinária das inconsistências encontradas. No entanto, a corte tratou o pedido administrativo como uma tentativa de descredibilizar o sistema eleitoral. “Nós pedimos uma análise técnica. Em vez disso, fomos acusados de má-fé. Como pode um relatório técnico virar motivo para indiciamento?”, questionou.
Ele também criticou a atuação da PGR, afirmando que o órgão ignorou completamente as evidências apresentadas. “Entregamos tudo, documentamos cada detalhe. A resposta foi o silêncio e, depois, a criminalização do nosso trabalho”, lamentou Rocha.
Carlos Rocha está entre os 36 indiciados pela Polícia Federal no inquérito sobre a suposta tentativa de golpe de Estado após as eleições presidenciais. A decisão final sobre uma eventual denúncia cabe agora à PGR. “Se querem nos acusar, que ao menos analisem os dados. Mas até agora, ninguém se deu ao trabalho de refutar tecnicamente o que mostramos”, afirmou o engenheiro.
Ele também revelou que o Instituto Voto Legal concluiu, em janeiro de 2023, um relatório com propostas para um novo sistema eleitoral. “Nosso objetivo sempre foi contribuir para um sistema mais seguro e transparente. Infelizmente, qualquer tentativa de debate sério foi sufocada”, declarou.
