No dia 14 de maio, a esquerda anti-Israel comemorou uma reportagem publicada no jornal holandês NRC — uma publicação de referência nos Países Baixos, de linha editorial de centro-esquerda ou liberal.
A manchete era “Sete cientistas renomados são quase unânimes: Israel está cometendo genocídio em Gaza”. A palavra “cientistas”, claro, já é muita generosidade do jornal, pois trata-se de acadêmicos de humanas.
O “quase” não é para os sete acadêmicos entrevistados, que realmente concordam entre si de forma unânime, mas para o que eles alegaram sobre seus outros colegas que estudam genocídios: “De acordo com eles, quase todos os seus colegas concordam” que Israel está cometendo o pior crime codificado no direito internacional.
A definição de genocídio aceita pela ONU exige que haja por parte do perpetrador uma intenção (dolo) de destruir “por completo ou em parte” o grupo alvo por ser de determinado grupo definido por nacionalidade, etnia, raça ou religião. Para que Israel seja enquadrado no crime, portanto, não é necessário que esteja matando palestinos em todo lugar em que vivem — e não serve a objeção de que não poderia ser genocídio porque a população palestina cresceu nas últimas décadas.
Por isso, a atenção dos acusadores se concentra em provar que há uma intenção de destruição que inclui a população civil. Isso é feito por acusações secundárias, como que Israel estaria deixando os palestinos passarem fome de propósito, ou que o Estado israelense não se importaria com os civis mortos como dano colateral de suas operações militares em Gaza.
Como veremos adiante, o próprio Hamas, que iniciou o confronto em curso, não age como se acreditasse que Israel tem a intenção de eliminar os palestinos.
Amostra pequena demais para afirmar consenso
A definição legal de genocídio, que deriva do trabalho do jurista judeu Raphael Lemkin em 1944 para caracterizar o Holocausto, é aceita com algum desconforto entre os estudiosos de genocídio. Segundo o jornal holandês, “a área acadêmica de pesquisa dos estudos de genocídio não vê [o crime] como uma questão de sim ou não, mas como um processo”.
“Posso dar o nome de alguém cujo trabalho eu respeito que não chame de genocídio? Não, não há contra-argumento que leve em conta todos os indícios”, disse ao NRC o acadêmico Raz Segal, que é israelense e trabalha na Universidade Stockton, em Nova Jersey (EUA).
Mas, como mostrei em uma reportagem, Segal está dizendo a mesma coisa desde apenas um mês após o ataque terrorista de 7 de outubro de 2023. O ataque com quase 1200 vítimas foi perpetrado pelo Hamas no Sul de Israel, teve civis como alvo e envolveu estupros e profanação de cadáveres, como afirmou um relatório de parlamentares britânicos.
Segal parece ter tirado suas conclusões rápido demais. Em 13 de novembro de 2023, ele já estava afirmando à revista Time que a resposta militar de Israel em Gaza era “um caso paradigmático de genocídio”. É muita convicção para uma área tão inexata.
A opinião de Segal é um termômetro de um fenômeno maior. Na época da reportagem da Time, em que o acadêmico já se incluía entre uma suposta maioria de “especialistas” na acusação contra Israel, um estudioso mostrou que, na Universidade Columbia, enquanto 96% dos professores de ciências, tecnologia, engenharia e matemática eram pró-Israel, 62% dos acadêmicos das ciências sociais eram anti-Israel, cedo no confronto em curso.
A Time também usou sete acadêmicos, mas dois discordavam do veredicto de genocídio e um negava que a ação militar se encaixasse no crime: Ben Kiernan e David Simon, ambos da Universidade Yale. “Independentemente de ser indiscriminada”, disse Kiernan na época, a ação de Israel “não satisfaz o limiar muito alto exigido para a definição legal de genocídio”. Desde então, ele não se manifestou mais.
Simon, que agora preside o grupo de estudos de genocídio em Yale, disse o contrário de Segal em 2023, que o caso “certamente não é de manual”, ou seja, paradigmático. Desde então, ele tem reformado sua opinião especialmente após a Corte Internacional de Justiça ter decidido preliminarmente, em resposta a uma denúncia da África do Sul, que uma ação genocida ocorrendo em Gaza é “plausível”.
Simon tem dito que o caso da fome em Gaza poderia pender a balança contra Israel perante a corte, mas tem evitado afirmar que há genocídio. Ele afirmou que poderia haver maior plausibilidade em se dizer que Israel é culpado de “crimes de guerra e crimes contra a humanidade” em uma palestra do ano passado, como relatou o site Balkan Diskurs.
A reportagem do NRC não entrevistou os dois especialistas de Yale. A alegação de consenso, portanto, é baseada em uma amostra pequena de sete acadêmicos com grande probabilidade de ser enviesada, e alegações dos entrevistados sobre o que pensam seus colegas.
Uma estudiosa se manifestou contra o suposto consenso: a historiadora Fania Oz-Salzberger, israelense filha do escritor Amos Oz e crítica do governo de Benjamin Netanyahu, disse à revista belga Knack que “Israel trava uma guerra suja em Gaza, mas não genocídio”.
Qual é a direção do efeito inibidor na universidade?
Segal e outros alegam que há pressão pela autocensura entre os estudiosos de genocídio com táticas como acusações espúrias de antissemitismo. “Os cientistas às vezes descobrem que não é vantajoso para suas carreiras acusarem Israel de genocídio”, resume o jornal.
Mas a autocensura via efeito inibidor é uma via de mão dupla: se israelenses e judeus podem fazer pressão nos acadêmicos pela via do corte de verbas, as ideologias de esquerda dominantes na academia, com consenso anti-Israel especialmente presente nas humanidades, fazem pressão via assassinatos de reputação contra quem for pró-Israel ou simplesmente anti-Hamas.
Em novembro de 2024, houve em uma associação de estudantes de Oxford (Reino Unido) um debate sobre uma moção que acusava Israel de genocídio e Apartheid. A moção ganhou por maioria esmagadora dos estudantes, e o debate foi interrompido repetidamente por xingamentos dos estudantes radicalizados contra Israel.
Entre os debatedores contra a moção estava Mosab Yousef, filho de um dos fundadores do Hamas que, após espionar o grupo para Israel em colaboração premiada, mudou sua visão de mundo contra o próprio pai. No debate, ele imaginou uma situação hipotética em que os presentes soubessem dos planos do ataque do 7 de Outubro e perguntou se denunciariam às autoridades. Pediu que quem denunciaria levantasse a mão. Segundo ele, somente 5% dos presentes levantaram a mão. Segundo relatos à revista britânica The Critic, foi menos de um quarto dos presentes, na maioria alunos. O presidente da Oxford Union expulsou Yousef do debate por suposto mau comportamento.
Este é o clima anti-Israel e, suspeita-se, também pró-Hamas em muitas universidades do Ocidente. Este é o contexto em que precisamos entender por quais possíveis motivos há especialistas em genocídio que permanecem calados, e outros que têm mais incentivos para falar. Não é no campo pró-Israel que estão os últimos, como o jornal holandês faz parecer.
Escudos humanos e escolas de doutrinação terrorista
Líderes do Hamas já confessaram orgulhosamente que usam os civis palestinos como escudo. Este é o principal fator de nuance a ser aplicado à mortandade de civis em Gaza, que já teria passado de 50 mil, segundo o próprio Hamas em estatísticas creditadas ao Ministério da Saúde de Gaza, que é um braço do grupo terrorista islâmico.
Outra coisa importante é que, infelizmente, não dá para confiar muito na ONU neste assunto. Em novembro de 2024, a Organização das Nações Unidas demitiu a queniana Alice Wairimu Nderitu, até então Conselheira Especial para a Prevenção do Genocídio. A razão da demissão, segundo o Wall Street Journal, foi que ela “não se deixou abalar em sua crença de que a guerra de Israel contra o Hamas não é um genocídio”.
A ONU tem duas agências de refugiados: uma especialmente para palestinos, a UNRWA, e outra para o “resto”. A UNRWA manteve escolas nos últimos anos em que os palestinos foram radicalizados em ideologia antissemita. As provas são abundantes. Muitos dos próprios combatentes do Hamas que perpetraram o 7 de Outubro foram “educados” em escolas da UNRWA.
De uma forma ou de outra, é justo que haja uma vigilância constante sobre Israel. Alguns casos tornam difícil acreditar que as Forças de Defesa de Israel (FDI) realmente são cirúrgicas nos ataques. Há dois dias, por exemplo, nove crianças irmãs com menos de 12 anos morreram quando as FDI bombardearam sua casa em Khan Yunis. Somente uma criança, nesta família chefiada por dois médicos do Hospital Nasser, sobreviveu.
Comentando o caso, as FDI disseram ao jornal Haaretz que “uma aeronave atingiu vários suspeitos identificados pelas FDI operando perto de um prédio próximo às tropas na área de Khan Yunis, uma área perigosa de combate que havia sido evacuada de civis com antecedência, para sua proteção. A alegação de dano a indivíduos não-envolvidos está sendo investigada”.
O Jerusalem Post, contudo, coletou de outros veículos dois exemplos de operações em que a taxa de civis mortos foi de 100 para cada terrorista abatido, dificilmente sinal de eficiência cirúrgica. Resta saber se foram casos isolados, ou representativos da campanha militar como um todo.
O próprio Hamas não age como se acreditasse que Israel tem intenções genocidas
Hoje, o jornal Al-Quds al-Arabi, de língua árabe, fundado em Londres em 1989, supostamente financiado pelo Qatar e simpático à causa palestina, publicou que o Hamas está aconselhando os residentes de Gaza a recusarem comida distribuída por Israel, o que não está consistente com a acusação de imposição proposital de fome por parte dos israelenses.
Claro, a retórica do grupo terrorista que controla a região desde 2007 é que Israel está só tentando continuar sua “guerra genocida” pelo controle da distribuição de comida e água com uma nova fundação, supostamente usando os bens essenciais para comprar denúncias contra o Hamas. O que Israel diz é que o Hamas está roubando os suprimentos que são mandados via UNRWA.
Israel está esgarçando a própria imagem com uma campanha de bloqueio com mais de 80 dias. A BBC noticiou que, de fato, grupos armados estão atacando comboios de ajuda humanitária e roubando os suprimentos. Na semana passada, o alvo foi um comboio de 20 caminhões do Programa Mundial de Alimentos (WFP) que carregavam farinha. Segundo as fontes do veículo britânico, contudo, o roubo não foi feito pelo Hamas, que estaria escoltando o comboio e trocou tiros com os saqueadores. Israel, aparentemente sem conseguir diferenciar entre os grupos, atacou todos com drone.
Felizmente, 130 caminhões conseguiram distribuir insumos no último fim de semana em Gaza, após as FDI relaxarem parcialmente o bloqueio.
O caos em Gaza, como dá para ver, inclui as informações desencontradas e as acusações mútuas entre as partes na guerra. Mas meu ponto, aqui, é que se o Hamas está até ameaçando os palestinos para não colaborarem com ajuda humanitária administrada por Israel, sendo ou não feita com intenções mais militares que humanitárias, isso está em desconformidade com a tese de que as ações de Israel são um “caso paradigmático” de genocídio.
O texto do Al-Quds contém a ameaça. “Não toleraremos a criação de órgãos de colaboração com a ocupação nas áreas controladas por seu exército”, disse ao jornal o “ministro do Interior” do Hamas, “e qualquer um que cooperar com a ocupação na imposição de sua agenda pagará o preço; tomaremos as medidas necessárias contra quem o fizer”.
Supreendentemente, acontecem protestos de palestinos contra o Hamas em Gaza. A resposta do Hamas é assassinar esses palestinos. Foi o que aconteceu com Oday Nasser Al-Rabay. Ele participou de um protesto contra o Hamas em março. Foi sequestrado, torturado e executado pelo Hamas. Tinha apenas 22 anos. Os terroristas deixaram seu corpo à porta da casa da família.
Entre alguns dos especialistas em genocídio ouvidos pelo jornal holandês, há também a opinião de que o Hamas tem as exatas intenções previstas para o enquadramento no crime. A Corte Internacional de Justiça, contudo, não deve acusar o Hamas porque só trata de conflitos entre Estados estabelecidos.