“A negação do Holocausto levou alguns anos para se enraizar em bolsões da sociedade, mas no 7 de outubro de 2023, poucas horas foram necessárias para as pessoas alegarem que os massacres no Sul de Israel não aconteceram”. Com essas palavras o historiador britânico Andrew Roberts, Barão de Belgravia e membro da Câmara dos Lordes (casa parlamentar do Reino Unido equivalente ao Senado), abre o Relatório da Comissão Parlamentar do 7 de Outubro, publicado na semana passada.
Para Roberts, que presidiu a comissão, o documento contém provas indisputáveis de que quase 1.200 pessoas foram assassinadas pelo Hamas na data, “frequentemente em cenas de barbárie sádica não vistas na história do mundo desde o Estupro de Nanquim em 1937”, um massacre com violência sexual cometido por tropas japonesas na cidade chinesa.
O relatório cita respostas dadas pelo líder mais experiente do Hamas fora da Faixa de Gaza, Khalil Al-Hayya, em uma entrevista à BBC um ano após o ataque. Ele alegou que não houve intenção de matar ou raptar civis e negou que houve estupros. O documento mostra que Al-Hayya mentiu.
“Civis foram visados com precisão calculada e sem reservas. As vítimas, de todas as idades, dos bebês aos idosos, com frequência levaram tiros a queima-roupa, foram queimadas vivas ou mortas com granadas. A destruição sistemática incluiu a aniquilação deliberada de famílias inteiras nos kibutzim. Crianças ficaram órfãs quando seus pais foram mortos na sua frente enquanto elas se escondiam”, afirma o documento.
Os parlamentares britânicos excluíram informações que suspeitam que sejam verdadeiras, mas não puderam checar independentemente, para máxima objetividade. Eles cobriram o período de 48 horas a partir da manhã de 7 de outubro.
Um resumo das descobertas dos britânicos
O número exato de mortos é 1.182. Foram mais de 4.000 feridos e 251 reféns raptados pelo Hamas, sendo que 41 desses reféns já estavam mortos — como Shani Louk, alemã de 22 anos que teve o corpo exibido na carroceria de uma picape pelas ruas de Gaza. Dos mortos e raptados, 90% eram cidadãos israelenses, de etnia distribuída entre judeus, árabes e beduínos; além de cidadãos de 44 países, incluindo o Brasil. Os estrangeiros mais comuns entre as vítimas foram os tailandeses, muitos deles trabalhadores rurais.
Relativamente ao tamanho da população, o ataque vitimou 1 de cada 10 mil israelenses, o que faz dele o terceiro pior ataque terrorista em número de mortos de toda a história. Contrariando as alegações de Al-Hayya, os civis foram os alvos principais: são 73% dos mortos. Além disso, mulheres e crianças foram 27% dos mortos e 49% dos raptados vivos.
A vítima mais jovem do Hamas tinha 14 horas de idade: um bebê alvejado na perna dentro do útero de sua mãe, que dirigia para o hospital para o parto. A vítima mais velha tinha 92 anos de idade e havia sobrevivido ao genocídio promovido por Hitler.
O ataque deixou marcas em um pico de casos de transtorno de estresse pós-traumático e suicídios, o que alguns especialistas chamaram de “trauma em massa”.
Não foram só disparos de arma de fogo: o Hamas usou asfixia, incêndio criminoso, granadas tradicionais e lançadas por foguete, além de mísseis e drones. Foram usados explosivos específicos para arrebentar portas reforçadas de segurança usadas em quartos de pânico. Muitas vítimas foram mutiladas, estupradas e brutalizadas de outras formas, antes ou depois da morte. Médicos legistas tiveram dificuldade de identificar restos mortais por causa do esforço de desfiguração dos corpos.
No ataque, o Hamas empregou 3.800 combatentes de suas forças de elite Nukhba e membros das brigadas Izz al-Din Al-Qassam. Houve também apoio de 2.200 combatentes de outros grupos como o Jihad Islâmica Palestina, além de apoiadores civis em Gaza — 1.000 indivíduos que operaram lançadores de mísseis e deram apoio tático ao grupo.
Planos para o ataque, chamado “Operação Dilúvio de Al-Aqsa”, começaram por volta de 2014, com atos preparatórios se iniciando em 2021. Além das brigadas Al-Qassam, a coalizão do Hamas reuniu as brigadas Al-Quds (da Jihad Islâmica Palestina) e grupos menos conhecidos como a Frente Popular de Libertação da Palestina (com duas brigadas, Abu Li Mustafa e Jihad Jibril), Frente Democrática pela Libertação da Palestina (“Brigadas da Resistência Nacional”), Comitês Populares da Resistência (Batalhões Nasser Saleh al-Din), Brigadas de Mártires de Al-Aqsa (ex-Fatah), Batalhões de Guerreiros Santos (Mujahedeen) e Brigadas Al-Ansar. Os detalhes operacionais foram mantidos em segredo, exceto para um grupo de líderes sêniores, até horas antes da execução.
O treinamento incluiu a invasão de imitações de comunidades israelenses e o ensaio do rapto dos reféns. Mapas detalhados das localidades a serem atacadas foram usados.
Notoriamente, os terroristas usaram câmeras GoPro para documentar o ataque, além de celulares para transmitir ao vivo. O Telegram foi uma das redes sociais favoritas para publicizar a operação.
Na manhã de outubro de um feriado judaico, o ataque começou com um lançamento em massa mísseis no sul de Israel e contra metrópoles do país. Foram registrados 119 invasões de fronteira. No dia 7, foram lançados 3.873 mísseis, seguidos por 987 nos dias 8 e 9. Alertas foram acionados em 498 comunidades, cobrindo 75% da população de Israel.
Além dos mais infames parapentes avistados no Festival Nova de música eletrônica, em que uma maioria de jovens menores de 30 anos entre 370 civis foram assassinados, o Hamas também invadiu pelo mar com botes e barcos motorizados, concentrando-se em atacar as forças de defesa de Israel próximas da praia Zikim.
O massacre do Festival Nova foi o mais fatal ataque a um evento musical da história, segundo apuração da revista Rolling Stone. Mais da metade dos jovens foram mortos ao tentar fugir. O Hamas tomou pontos estratégicos da Rota 232 para obstruir os fugitivos com carros e assassinaram pessoas em 30 localizações distintas da rodovia. Todo carro foi feito de alvo para disparos e granadas. Dessa forma, fizeram de toda a área um abatedouro humano.
Outra prova de que o alvo principal eram civis: o Hamas se concentrou em atacar 32 comunidades civis (os kibutzim e os moshavim), matando nelas 416 pessoas em poucas horas. Dos 251 reféns raptados, 73% vieram dessas vilas. A região de Israel afetada, conhecida como “Envelope de Gaza”, teve de evacuar 89% de suas comunidades, afetando dezenas de milhares de pessoas que tiveram de fugir de suas casas em apenas quatro dias.
Além das vilas, três cidades foram alvo do Hamas: Sderot, Ofakim e Netivot. Ofakim foi o ponto mais profundo de invasão no território, 22 km a leste da fronteira de Gaza.
Entre as bases militares de Israel, 150 soldados foram mortos e dezenas feitos de reféns. Na base de Nahal Oz, com um terço das vítimas, 15 eram mulheres desarmadas que só faziam trabalho de observação. O objetivo do Hamas era evitar que os militares oferecessem proteção aos civis. Houve sabotagem às redes de comunicação.
As mulheres foram alvos especiais. O relatório afirma que aconteceram “estupros coletivos, mutilação sexual e violência tanto contra vítimas vivas quanto contra as mortas”. Um padrão em vários pontos do ataque foi a presença de “corpos total ou parcialmente nus da cintura para baixo”, na maioria mulheres, “com mãos atadas e múltiplos furos de tiros, com frequência na cabeça”. Esse padrão foi prevalente no local do Festival Nova.
Mais informações do relatório
Em 315 páginas, o relatório da Comissão Parlamentar do 7 de Outubro traz ricas informações, como uma linha do tempo detalhada e um mapa da movimentação do ataque terrorista, fotos do evento e de restos mortais; capítulos dedicado a documentar a tortura, a profanação de corpos, os estupros e a violência contra reféns.
O Hamas matou deliberadamente 29 crianças e adolescentes com idade até os 17 anos e 70 idosos com mais de 70 anos. Foram 30 os cadáveres de civis raptados.
Em um artigo publicado no dia 18 na revista The Spectator, o presidente da comissão, Andrew Roberts, disse que a Anistia Internacional e Harvard já estavam culpando Israel pelo ataque do Hamas antes mesmo do país responder com tropas entrando em Gaza, 20 dias após o ataque.
“Já havia protestos anti-Israel [com o slogan] ‘do rio ao mar’, postagens antissemitas no TikTok, o início do movimento de ocupação em campi, um silêncio sepulcral das Nações Unidas (especialmente de seu comitê das mulheres, que levaria seis meses para denunciar o estupro em massa) e uma tentativa global de culpar as vítimas do 7 de Outubro”, afirmou o parlamentar.
Ele lamenta que a London School of Economics (LSE, que teve em seu quadro de acadêmicos o filósofo liberal Karl Popper) tenha publicado recentemente o livro “Entendendo o Hamas e por que isso é importante”, com coautoria de Helena Cobban, uma pesquisadora das relações internacionais especializada em Oriente Médio, que disse que “muito do que o Hamas fez no 7 de Outubro foi atacar alvos militares”. O livro da LSE alega que o Hamas “mudou das tendências antigas antijudeus para uma postura que diferencia entre o judaísmo e o sionismo”. Roberts afirma que seu relatório prova que ambas as alegações são falsas.
O relatório dos parlamentares britânicos pode ser lido aqui. Aviso: há fotos de cadáveres, restos mortais e crianças assassinadas pelo Hamas.
