Efeito Trump: imigrantes ilegais pagam “coiotes” para voltar para casa - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Mundo

Efeito Trump: imigrantes ilegais pagam “coiotes” para voltar para casa

Foto: Reprodução/X @realDonaldTrump

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Os coiotes — como são conhecidos os agentes que facilitam a entrada de imigrantes ilegais nos Estados Unidos pela fronteira com o México — agora estão oferecendo serviços para migrantes que querem voltar a seus países.

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“Sou jornalista há mais de 25 anos, mas nunca achei que eu veria isso”, disse Alfredo Corchado, repórter texano que cobre a fronteira, em uma conferência do Council on Foreign Relations (um think tank apartidário com 104 anos) realizada na semana passada. Ele disse que os pacotes para os arrependidos são conhecidos em espanhol como “paquetes de retorno”.

Se pegos pelo governo americano, os imigrantes ilegais (que são cerca de 14 milhões de pessoas) podem ser separados de suas famílias enquanto a deportação é processada. Além disso, são banidos de voltar ao país por dez anos. Outros revezes envolvem dificuldades de acesso a contas bancárias nos Estados Unidos e perda de bens adquiridos no país.

Por causa das políticas mais duras de Donald Trump, está sendo criada uma indústria da autodeportação. “Tornou-se uma indústria multimilionária”, disse o empresário Jeff Lamour, de Albertville, no Alabama, ao site Breitbart News. Ele alega que os haitianos preferem a autodeportação para lugares como México e Chile que serem forçados a voltar ao Haiti pelo governo. Na cidade de Lamour, eles ocupavam empregos em abatedouros de frango. O preço cobrado pelos coiotes chegaria a US$ 10 mil por cabeça.

New York Times confirma fenômeno

Não são só rumores na imprensa conservadora e pró-Trump. Em reportagem da última sexta (28), o jornal The New York Times relatou que a autodeportação, conceito popularizado em 2012 pelo candidato republicano à presidência naquele ano, Mitt Romney, e ridicularizado na época, agora é uma realidade.

“Pela primeira vez nos meus 15 anos de cobertura desse assunto”, escreveu a jornalista Miriam Jordan, “os imigrantes me dizem que estão considerando” deportarem a si mesmos. “Alguns já o fizeram”.

Jordan visitou Denver, a capital do Colorado, que recebeu 40 mil imigrantes nos últimos anos, a maioria de venezuelanos. “A maioria está disposta a partir”, afirmou a jornalista. “Eles veem as imagens de migrantes algemados sendo postos em aviões de deportação. Assistem aos vídeos de mais de 200 homens venezuelanos, acusados pelo governo Trump de serem membros de gangues, voando para uma megaprisão em El Salvador”.

Jesús, um venezuelano de 25 anos, disse que foi para os Estados Unidos “para trabalhar e ajudar minha família”. Ele já foi detido pela Agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês), a mais temida agência do governo para os imigrantes, e libertado temporariamente para dar lugar a outros migrantes ilegais. “Espero que eu consiga sair antes que me deportem”, afirmou. Ele tem dinheiro para comprar a passagem de avião, mas seu passaporte foi retido pela agência.

Ainda não é uma onda de autodeportações, muitos ainda insistem em ficar, depois de enfrentar selvas e territórios violentos dos cartéis de traficantes no México. Usam estratégias para se esconder e, para evitar contato com o governo atraído por seus carros, vendem-nos a preço de banana.

Alguns sempre tiveram planos de não ficar para sempre. O casal de venezuelanos Karla e Ender, por exemplo, diz que sairão dos Estados Unidos “assim que atingirmos nossas metas, talvez daqui a dois anos”.

Trump está entregando o que prometeu a seu eleitorado, ainda que a uma taxa mais lenta do que a prometida. Dos 14 milhões de imigrantes ilegais estimados no país, poucos milhares foram deportados em dois meses de governo.

Há muito drama humano envolvido, especialmente para os mais pobres que arriscam ir por terra. Um dos trechos mais perigosos da jornada é o Tapón del Darién (estreita faixa de selva entre a Colômbia e o Panamá). Jeff Lamour alega que um brasileiro perdeu esposa e filhos ao tentar cruzar a área, chegando sozinho aos Estados Unidos com ajuda de uma ONG.

O trânsito de migrantes na região de Darién caiu “porque as pessoas não estão mais arriscando a caminhada ou a jornada perigosa por lá”, disse Caleb Vitello, um funcionário sênior da ICE.

Há setores da economia que vêm sofrendo com a queda dos números de imigrantes. Andrea Flores, vice-presidente de um grupo de lobby de investidores da Costa Oeste dos EUA, disse que está sendo procurada por empresários de Nebraska desesperados por mais trabalhadores nas áreas de cuidado a idosos, creches e restaurantes.

O vice-presidente americano J. D. Vance não se sensibiliza. Para ele, o trabalho barato dos imigrantes “é uma droga na qual firmas americanas demais se viciaram”. Para o político, que tem origem relativamente humilde na classe trabalhadora americana, “a fome da globalização pelo trabalho barato é um problema porque foi ruim para a inovação. A inovação de verdade nos torna mais produtivos, mas também dignifica nossos trabalhadores, eu penso. Aumenta nosso padrão de vida. Fortalece nossa força de trabalho e o valor relativo de seu labor”, ele afirmou em uma reunião com investidores este mês.

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