Educação anti-Oruam: como ajudar meninos a se tornarem homens - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Educação anti-Oruam: como ajudar meninos a se tornarem homens

Guerreiros do povo maori, na Nova Zelândia, fazendo a dança marcial haka, em 1925. Foto: H. E. Partridge/Domínio Público.
Guerreiros do povo maori, na Nova Zelândia, fazendo a dança marcial haka, em 1925. Foto: H. E. Partridge/Domínio Público.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

O identitarismo conseguiu criar um ambiente cultural em que as pessoas diplomadas, da dita “sociedade polida”, evitarão expressões populares como “homem de verdade” por medo de serem acusadas de “misoginia” e outros crimes de pensamento contra as mulheres.

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Mas as culturas latinas se perguntam há tempos onde estão os homens de verdade. Eles são aqueles que formam família, são provedores, protegem suas esposas e filhos, e não aqueles que se entregam ao hedonismo da solteirice eterna, nem à exaltação de um modo de vida parasitário e à margem da lei.

Em suma, um homem de verdade seria alguém muito diferente do rapper Oruam, recém-libertado da prisão, autor de músicas que glorificam o que há de pior na sociedade brasileira. “Nós é Comando Vermelhão de natureza”, diz uma de suas letras que exaltam a facção criminosa.

Estudando o “homem de verdade” a sério

Pelo uso honorífico de “homem” na expressão “homem de verdade”, o que está sendo insinuado é que ser homem é algo que os meninos conquistam, não um estado ao qual chegam passivamente pelo mero desenvolvimento biológico.

Foi a experiência com a cultura latina da Espanha que inspirou o antropólogo David Gilmore a publicar em 1991 o livro Manhood in the Making (algo como “A Fabricação da Masculinidade”; Yale University Press).

Resgatando a obra de Gilmore para uma atualidade pós-woke, o psicólogo social Rob Henderson resume assim seus insights: “Homens maduros não emergem simplesmente como borboletas de casulos meninos. Eles devem ser encorajados, estimulados, aconselhados e incentivados a dar os passos necessários para a masculinidade”.

A masculinidade é construída pela cultura para “ir contra a configuração padrão da autoindulgência e da fuga da responsabilidade”. Não é verdade, como presumem alguns conservadores, que “os homens naturalmente queiram ser bons maridos e pais”. Se isso fosse verdade, argumenta Henderson, a Roma Antiga não teria visto necessidade em passar leis contra a solteirice masculina.

“Foi necessário esforço para moldar os homens para esses papéis” importantes para a sociedade, continua o pensador. Também estão errados os progressistas que alegam que o padrão de fábrica dos homens é buscar “o poder e o controle”.

A maioria dos rapazes hoje não tem ganas de dominância. Pelo contrário: no mundo desenvolvido, mais e mais jovens do sexo masculino estão desistindo de se engajar socialmente.

Testes de iniciação através das culturas

Na obra de 1991, Gilmore oferece oito etnografias detalhadas de como diferentes culturas testam os meninos para fazer-lhes homens. O antropólogo estudou sociedades em torno do Mediterrâneo, na Micronésia, o povo meinaco do Xingu, os samburus do Quênia, os sâmbias da Papua-Nova Guiné, culturas do Leste e Sul asiáticos, além de exceções à regra da masculinidade no Taiti e na Malásia.

Entre os samburus, com paralelos entre os massais, o ritual de iniciação dos meninos na vida adulta é doloroso: uma circuncisão sem anestesia em público. O menino não pode demonstrar dor, “nem mesmo com movimentos involuntários”, diante dos parentes.

Isso não é tudo: há também um período de afastamento da tribo, em que o menino precisa provar sua capacidade por anos como jovem guerreiro e caçador. Para voltar, ele tem de sacrificar seu próprio boi.

Entre os sâmbias, há um período em que o menino é afastado da mãe e um ritual em que ele precisa provar resiliência pela sangria causada pela inserção de lâminas de grama nas narinas, além de aguentar chibatadas e espancamentos.

Na Micronésia, há lutas e testes de bravura, de como o rapaz responde a insultos, se está disposto a brigar, se é indiferente à dor e ao sangue. As lutas ritualizadas são precedidas por bebedeira.

Entre os meinacos do Xingu, homens de verdade trazem para a aldeia fartura obtida com a caça. A relutância a compartilhar e a pouca produtividade são consideradas pouco másculas.

Os testes de macheza através das culturas envolvem geralmente a resistência à dor, a disposição a correr riscos (há até caçadas a leões) e o desempenho sob os olhos do público. O objetivo disso tudo, resume o antropólogo, é desenvolver nos homens os “três Ps”: proteger, prover e procriar.

A violência ritualizada dos testes de masculinidade é pública, limitada por regras e pró-social. Ela serve para desestimular a violência do banditismo, que é antissocial, predatória, autoindulgente e desonrosa. Os códigos de conduta para os homens nas diferentes culturas, em vez de negar ou tentar suprimir a agressão masculina — um fato da natureza —, buscam discipliná-la como um escudo pró-social.

Nesta diferença jaz o contraste entre o terror dos bandidos e a proteção oferecida por homens bem formados, que guardam pessoas vulneráveis de suas famílias contra a agressão dos primeiros.

A hombridade é feita de coragem com autocontrole, não de bullying.

O que acontece quando os meninos se recusam a se tornar homens

Os homens que não passam nos testes em algumas dessas culturas sofrem ridicularização — com frequência, são comparados a crianças. Em algumas, a vergonha não está em ser derrotado na luta, mas em se recusar a lutar. Universalmente, o preço da recusa ou da derrota é a diminuição do status social.

Gilmore traz duas culturas mais igualitárias em que não há testes de macheza aplicados nos meninos: os taitianos e os semais, da Malásia. Certamente há vantagens nesse modo de vida, como a baixa violência interpessoal.

Contudo, há também custos: os próprios semais com frequência se consideram inferiores a tribos vizinhas. A vulnerabilidade a ataques externos é alta, e a baixa competitividade entre os homens castra a inovação. A educação das crianças também sofre, pois basta dizer “não quero” para os pais desistirem de uma ou outra demanda.

Ninguém está defendendo, aqui, passar a sangrar propositalmente os meninos brasileiros, ou colocá-los em lutas de boxe públicas. Mas a lição é que, por mais que alguns rituais pareçam cruéis e absurdos, o amplo consenso das diferentes culturas é que é bom moldar os bons homens culturalmente, estimulando sua resiliência e disposição a correr alguns riscos que podem entregar ganhos a todos.

O alerta de Henderson de que muitos rapazes estão desistindo de se engajar corresponde à realidade. Diferentes estudiosos e institutos de pesquisa têm mostrado níveis alarmantes de desengajamento masculino no Ocidente.

Uma pesquisa de um banco público de San Francisco, na Califórnia, mostrou que a taxa de homens que voluntariamente se removem da força de trabalho dobrou de 7% na geração dos boomers para 14% na geração millennial.

Cresce em muitos países a taxa dos nem-nem: nem trabalham, nem estudam. Pesquisa da Youth Futures Foundation sobre os jovens do Reino Unido indicou que a última meia década foi a primeira vez, desde o começo do milênio, em que os rapazes ultrapassaram as moças na taxa dos nem-nem.

No Brasil, com uma taxa muito alta de nem-nem na comparação com países ricos, as garotas superavam os garotos na categoria em 2010: 28,2% delas eram nem-nem em 2010, contra 12,3% deles, segundo o Banco Mundial. Mas os homens estão cada vez mais representados na categoria.

Um estudo do IPEA em 2018 sobre os jovens brasileiros nem-nem entre 18 e 24 anos mostrou que se declararam “desencorajados” de atuar na força de trabalho 28,5% dos homens e 21,8% das mulheres. Alarmantemente, enquanto 29,6% das moças nem-nem justificaram estar na categoria por causa de responsabilidades familiares, a taxa de rapazes que deram essa justificativa foi zero.

A educação é outra fonte de indicadores do problema. Segundo o Pew Research Center, em pesquisa de 2024 nos EUA, 47% das mulheres entre os 25 e os 34 anos têm diploma de graduação, entre os homens o título é obtido por apenas 37%. Na geração anterior, em 1995, ambos os sexos tinham 25% de graduados.

O mesmo instituto mostrou em 2023 que os rapazes estão levando mais tempo do que as moças para conquistarem independência e saírem de casa. Enquanto 20% dos homens entre 25 e 34 anos ainda moram com os pais, 15% das moças da faixa etária fazem o mesmo.

Não está funcionando a abordagem de ralhar contra os jovens do sexo masculino, culpando seu sexo por males sociais. É urgente que se encontre uma forma de estimulá-los a ter interesse em se provarem como homens de verdade. Eternos meninos e adolescentes, já temos em abundância.

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