Os documentos revelados trazem, pela 1ª vez, a íntegra das audiências envolvendo Mauro Cid, incluindo diálogos diretos entre Alexandre Moraes e o delator de Bolsonaro.
“Eu vou passar a palavra a ele [Cid], só que eu já… Porque depois – e quero, aqui, não vai dizer que não avisei –, depois eu tenho aqui um relatório detalhado não só da investigação como do novo relatório que a Polícia Federal está apresentando agora, encerrando a investigação sobre a tentativa de golpe, com 700 páginas detalhadas”, continuou Alexandre de Moraes, insinuando que incompatibilidades do relatório da PF com a delação poderiam comprometer Cid.
Quando disse que a família de Mauro Cid poderia perder os benefícios, Alexandre de Moraes destacou: “saliento essa parte pela importância”. Entre os benefícios concedidos à família de Cid está a atuação da Polícia Federal (PF) para garantir sua segurança.
“Eu quero recordar, nos termos da colaboração premiada, na cláusula da parte IV, os benefícios pleiteados pelo colaborador: 1) perdão judicial ou pena privativa de liberdade não superior a dois anos; 2) restituição de bens e valores pertencentes ao colaborador que efetivamente tiverem sido aprendidos; 3) – e saliento essa parte pela importância – extensão dos benefícios para pai, esposa e filha maior do colaborador no que for compatível; e 4) ação da Polícia Federal visando garantir a segurança do colaborador e seus familiares”, afirmou Alexandre de Moraes na audiência.
“Moraes: Eventual rescisão [da colaboração] englobará inclusive a continuidade das investigações e responsabilização do pai do investigado, de sua esposa e de sua filha maior. Eu gostaria de saber se o colaborador está plenamente ciente das consequências da manutenção dessas omissões e contradições.
Cid: Sim, senhor”.
“Agora, o colaborador tem também não só benefícios, tem também obrigações. E as obrigações, a maior delas, das obrigações, é falar a verdade, é não se omitir, não se contradizer. Não há, na colaboração premiada, essa ideia de que só respondo o que me perguntam. Não! O colaborador ou colabora com dados, com dados efetivos, até porque há um requisito essencial pra que os benefícios sejam concedidos: a efetividade da colaboração. Se não houver efetividade da colaboração, se a colaboração em nada auxiliou, não há por que, dentro dessa ideia de justiça colaborativa, a justiça premial, se dar os benefícios. Então, a questão aqui é muito importante em relação à veracidade das informações e, mais do que isso, a não omissão das informações importantes”, afirmou Alexandre de Moraes em outro trecho.
Após essa conversa com Moraes, Mauro Cid modificou seu relato sobre a reunião com Bolsonaro em novembro de 2022, na residência do general Braga Netto. Inicialmente descrito como um encontro informal, o evento passou a ser apontado como uma reunião para planejar estratégias de instabilidade social que justificassem uma possível intervenção das Forças Armadas.
Mauro Cid também acabou vinculando, de forma mais direta, o ex-presidente da República e seus aliados ao suposto plano de golpe de Estado.
As novas informações obtidas na audiência garantiram a manutenção do acordo de delação premiada do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro.
