É um dos fatos sociológicos mais evidentes da última meia década: o número de jovens em países ricos que alegam ser LGBT explodiu, e não foi por causa da “saída do armário”.
Foi contágio social, ou seja, influência de comportamentos e ideias, inclusive as ideias políticas, que estavam na moda. O contágio social (termo comum das ciências sociais que não tem nada a ver com patologizar os comportamentos que se espalham assim) foi concomitante à ascensão do woke, ou identitarismo, ideologia de esquerda que criou incentivos para quem se incluísse em grupos pré-julgados como oprimidos pela via da autodeclaração.
É possível examinar as evidências do contágio social nas minhas duas reportagens anteriores sobre o assunto, em abril e em junho de 2022.
Esse fato foi suprimido ativamente por parte da comunidade acadêmica, como se pode descobrir na história da despublicação de um artigo do sexólogo J. Michael Bailey a respeito da “disforia de início rápido” — uma faceta do contágio social que levou garotas a pensar equivocadamente que eram trans.
Agora que múltiplos autores críticos do woke anunciam que essa ideologia está enfraquecendo, do britânico Andrew Doyle ao brasileiro Antonio Risério, o padrão é corroborado por uma nova fase do fenômeno: o contágio social está em queda.
Queda de até 4,5 vezes de “não-binários” em apenas dois anos
Um dos poucos pesquisadores que acompanharam o fenômeno foi o cientista social Eric Kaufmann, fundador do Centro de Ciência Social Heterodoxa (CHSS) na Universidade de Buckingham, Reino Unido.
Em um relatório publicado hoje, Kaufmann fornece indícios de três fontes diferentes da queda da autodeclaração trans e de gênero neutro entre jovens americanos. Em um dos bancos de dados (da organização FIRE), o número dos que se identificavam como nem homens nem mulheres (“não-binários”) caiu de 6,8% em 2022 e 2023 para 3,6% em 2025.
O fenômeno do contágio social foi especialmente proeminente em instituições de ensino de elite, onde a ideologia identitária teve mais sucesso desde 2020. Nos dados da escola prestigiosa e de classe alta Philips Academy, da cidade de Andover, em Massachusetts, a queda foi bem mais dramática: de 9,2% para 2% nas mesmas datas.
O terceiro banco de dados, da Universidade Brown (parte da assim chamada Ivy League, o grupo das universidades mais renomadas dos EUA), corrobora o fenômeno, com queda de 5% de não-binários em 2023 para 2,6% em 2025.

Heterossexuais saindo do armário
Kaufmann também analisou as tendências quanto à orientação sexual. O pesquisador afirma que está acontecendo “um retorno à heterossexualidade” que tem como carro-chefe o exato grupo que ele havia apontado em seus trabalhos anteriores como o que puxou o contágio social: autodeclarados bissexuais e “queer” (que costumava ser uma palavra pejorativa para gay em inglês, mas se tornou um termo amplo convidativo para heterossexuais que queriam ser incluídos em siglas como “LGBTQIA+”).
Na escola de luxo de Andover, “a não-heterossexualidade atingiu seu ápice durante 2022 e 2023, em cerca de um terço do corpo discente”. Ou seja, um a cada três alunos da escola alegava em 2023 que não era heterossexual. Depois, “a heterossexualidade retornou, embora se mantenha sete pontos percentuais abaixo dos níveis de 2020”.
Os alegados bissexuais entre os alunos cresceram de 10% para 17% entre 2020 e 2023, depois caíram a 12% em 2025. O mesmo aconteceu com a identidade “queer” e outras que foram estimuladas no auge do wokismo, como “assexual”, “pansexual” e outros rótulos.
Já nos dados gerais da FIRE para universidades, a recuperação da autodeclaração heterossexual foi quase completa para os níveis de 2020: 80% naquele ano, menos de 70% em 2023, voltando a 77% em 2025. Os heterossexuais estão saindo do armário nas universidades americanas.
A data aproximada de início do identitarismo/woke é 2011, como sugere o sociólogo Musa al-Gharbi em seu livro We Have Never Been Woke (“Nunca fomos wokes”, em tradução livre; Princeton University Press, 2024). Antes disso, em 2010, 87% dos alunos da Universidade Brown se autodeclaravam heterossexuais, segundo pesquisas do jornal universitário local, Daily Herald.
Esse número caiu para menos de 60% após o ápice do wokismo, em 2022 e 2023, e subiu a 68% em 2025.
Na sua pesquisa anterior, Kaufmann mostrou indícios de que a autodeclaração dos jovens pode não corresponder ao comportamento sexual genuíno. Entre as mulheres jovens que se disseram bissexuais ou lésbicas em 2022, somente 7% tiveram uma experiência erótica com alguém do mesmo sexo nos 12 meses anteriores à pesquisa.
Não significa que são autodeclarações mentirosas. O mais provável é que seja autoengano: ao perceberem que, em seu meio social e ideológico, ser LGBT é considerado não algo neutro, mas louvável, os jovens passam a superinterpretar qualquer mínima dúvida sobre sua própria identidade para se encaixar na categoria. Como sabem os economistas, as pessoas respondem a incentivos.
É uma pena que, em alguns casos, essa superinterpretação levou mulheres a remover as mamas e a fazerem tratamentos hormonais desnecessários. A história do contágio social das autodeclarações LGBT dá muita munição para comédia, mas também é tragédia.