Daniella Marques: Internet como base do capitalismo popular
Brasília, Terça, 21 de julho de 2026
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Daniella Marques: Internet como base do capitalismo popular

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Por Redação

Por Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e colaboradora da pré-campanha de Flávio Bolsonaro*

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Margaret Thatcher entrou para a história ao defender uma ideia que transformou a economia britânica: uma sociedade é mais livre quando um número cada vez maior de cidadãos tem acesso à propriedade. Seu projeto de capitalismo popular ampliou o acesso à casa própria, ao mercado de capitais e à participação acionária de milhões de famílias. A propriedade deixou de ser privilégio de poucos para se tornar instrumento de autonomia, responsabilidade e liberdade.

A ideia permanece atual. O desafio brasileiro, porém, começa antes.

O principal obstáculo ao desenvolvimento do Brasil não é a ausência de patrimônio, mas a dificuldade de milhões de famílias em reunir as condições necessárias para construí-lo. Em um país onde mais de oito em cada dez famílias convivem com algum nível de endividamento, a renda frequentemente termina antes do fim do mês, o crédito financia a sobrevivência em vez do investimento e a poupança deixou de fazer parte da realidade de grande parcela da população. Nessa circunstância, discutir apenas a democratização da propriedade significa iniciar o debate pela última etapa da jornada.

O Brasil precisa, antes de tudo, democratizar as oportunidades que permitem formar patrimônio. Isso significa construir uma verdadeira rampa de mobilidade social, capaz de ajudar cada família a reorganizar sua vida financeira, reduzir o custo do crédito, ampliar sua renda, empreender, poupar, investir e, somente então, acumular patrimônio. A diferença entre o Reino Unido dos anos 1980 e o Brasil de hoje talvez resida exatamente nesse ponto: enquanto lá o desafio era ampliar o acesso à riqueza, aqui a prioridade é ampliar a capacidade de produzi-la.

Essa mudança exige uma revisão profunda do papel do Estado. Durante décadas, estruturamos governos em torno de ministérios, órgãos e competências administrativas. O cidadão, entretanto, não organiza sua vida dessa maneira. Ele enfrenta desafios concretos que atravessam diferentes áreas da administração pública: precisa de segurança, educação, crédito, emprego, saúde e oportunidades para melhorar de vida. A lógica da máquina pública raramente acompanha a lógica da vida real.

O governo do século XXI precisará abandonar a organização baseada em estruturas burocráticas e passar a se orientar pelos resultados produzidos na trajetória das famílias. Mais do que administrar políticas públicas isoladas, a missão da administração pública será integrar instrumentos capazes de ampliar a prosperidade.

É justamente nesse contexto que a inteligência artificial assume um papel estratégico. Se a infraestrutura física sustentou os ciclos de desenvolvimento econômico do século passado, a infraestrutura tecnológica será a base do capitalismo popular do século XXI. A inteligência artificial permitirá integrar políticas públicas hoje fragmentadas, eliminar burocracias, reduzir fraudes, personalizar serviços e conectar educação, qualificação profissional, crédito, proteção social e empreendedorismo em uma única jornada voltada para o crescimento das famílias.

Seu potencial, entretanto, vai além da melhoria dos serviços públicos. Pela primeira vez, o Brasil dispõe de uma tecnologia capaz de produzir um choque estrutural de produtividade no Estado. A automação de processos, a integração de bases de dados e a utilização inteligente da informação podem reduzir significativamente os custos administrativos, eliminar sobreposições, aumentar a eficiência da gestão pública e permitir que o Estado entregue mais gastando menos.

Essa talvez seja a maior oportunidade econômica das próximas décadas. Ao contrário das revoluções tecnológicas anteriores, cujos ganhos ficaram concentrados sobretudo no setor privado, a inteligência artificial oferece ao poder público a possibilidade de rever sua própria estrutura de custos. Um Estado mais eficiente deixa de exigir expansão permanente de despesas e cria espaço para enfrentar um dos maiores entraves ao crescimento brasileiro: a elevada carga tributária.

O objetivo desse choque tecnológico não é fortalecer a máquina pública, mas devolver produtividade à sociedade. Cada real economizado por um Estado mais inteligente pode significar menos impostos sobre quem trabalha, produz, empreende e investe. Em outras palavras, a inteligência artificial pode finalmente tornar compatíveis duas agendas que durante muito tempo pareceram conflitantes: um Estado mais eficiente e uma sociedade mais livre para prosperar.

Nesse novo desenho institucional, a Caixa Econômica Federal pode desempenhar um papel decisivo. Mais do que operadora de políticas públicas, pode transformar-se na plataforma que conecta proteção social, orientação financeira, crédito, empreendedorismo e formação de patrimônio, acompanhando a jornada das famílias desde sua situação de vulnerabilidade até sua plena autonomia econômica.

Margaret Thatcher demonstrou que ampliar o número de proprietários fortalece a democracia de mercado. O Brasil precisa enfrentar um desafio anterior: criar as condições para que milhões de brasileiros possam se tornar proprietários. O capitalismo popular do século XXI não será sustentado apenas pela ampliação do acesso à propriedade, mas por um Estado mais inteligente, menos custoso, uma carga tributária mais leve e uma infraestrutura tecnológica capaz de transformar produtividade em prosperidade. Quando essa equação estiver completa, a construção de patrimônio deixará de ser privilégio de poucos para voltar a ser consequência natural do trabalho, da liberdade e das oportunidades oferecidas a cada família brasileira.

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