Cortes atingem indicados do PP, PSD, União Brasil e MDB em cargos estratégicos
Após a derrota na Câmara com a derrubada da Medida Provisória que aumentaria o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o governo iniciou na sexta-feira (10) uma série de demissões de indicados políticos em cargos de segundo escalão. A medida atinge aliados de partidos como PP, PSD, União Brasil e MDB.
A ação é tratada como retaliação à base governista que votou contra a MP ou se ausentou. “A partir do momento que as bancadas fecharam questão contra, dão o direito ao governo de fazer as mudanças que achar conveniente”, afirmou o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE).
As exonerações envolvem cargos estratégicos na Caixa Econômica Federal, Codevasf, Iphan, DNIT e superintendências do Ministério da Agricultura. Os cortes foram articulados após a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, propor a Lula um “pente-fino” nas indicações políticas.
Até o momento, as indicações ligadas ao ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), permanecem preservadas, incluindo a presidência da Caixa, ocupada por Carlos Vieira.
Nos bastidores, a decisão foi amadurecida após a constatação de que parte do Centrão age em sintonia com a oposição em votações estratégicas. Lula, que está fora do país, teria autorizado uma reorganização da base “com quem quer estar junto”, segundo relatos de interlocutores.

Deputados do Centrão reagiram à ofensiva nas redes sociais e alertaram que uma “caça às bruxas” pode paralisar votações no Congresso.
Emendas também são usadas como arma pelo governo
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta manhã (14) que o governo pode reduzir mais de R$ 7 bilhões em emendas parlamentares no Orçamento de 2026. “Depende do cenário, tem cenários em que o orçamento fica preservado. Pode ser até mais dependendo do cenário”, declarou.
O encontro para tratar do tema deve ocorrer após o retorno de Lula de Roma, onde participou do Fórum Mundial da Alimentação.

Na semana passada, o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT), estimou o corte entre R$ 7 bilhões e R$ 10 bilhões. O Orçamento atual prevê R$ 52,9 bilhões em emendas.
Entre as alternativas em estudo estão a limitação de créditos tributários, aumento de tributos sobre casas de apostas e ajustes no IOF por decreto.
A MP derrotada na Câmara previa arrecadação de cerca de R$ 17 bilhões com a tributação de investimentos e apostas online. Após resistência de parlamentares, o texto foi retirado de pauta e perdeu validade.
As demissões começaram na semana passada e devem continuar nos próximos dias. Líderes bolsonaristas pretendem aproveitar a desorganização da base governista para impor novas derrotas ao Planalto e tentar avançar com o projeto de anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nos bastidores, o governo busca recompor sua base com foco nas eleições de 2026, priorizando apoio de parlamentares que devem se alinhar à candidatura de Lula, especialmente no Nordeste.
Membros do governo apoiam os cortes
O ministro do Turismo, Celso Sabino (União Brasil-PA), defendeu nesta segunda-feira (13) a decisão do governo de exonerar indicados de partidos que votaram contra a Medida Provisória (MP) do IOF. A declaração foi feita após reunião com o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, em Brasília.
“Eu particularmente penso que não dá para ser casado e ter vida de solteiro”, disse o ministro, ao comentar o comportamento de legendas que mantêm cargos no Executivo, mas votam contra matérias de interesse do governo.

A fala foi interpretada como um recado ao Centrão, que ampliou a pressão por mais espaço e recursos no governo, mesmo após contrariar o Planalto na votação da MP.
Sabino afirmou que continuará no cargo, apesar da pressão interna do União Brasil para que ministros do partido entreguem os postos. Ele justificou a permanência citando o compromisso com a realização da COP30, que ocorrerá em Belém (PA).
O ministro também confirmou que o União Brasil abriu um processo que pode resultar em sua expulsão. Disse, contudo, que buscará diálogo com a direção nacional. “Eu tenho feito apelo ao meu partido que compreendesse essa situação. Expliquei os projetos que estão em andamento”, afirmou.
Sabino ainda criticou a antecipação das discussões eleitorais: “Mostrei que não é o momento de falar sobre a eleição de 2026 ainda”.
O que diz o governo
O Palácio do Planalto sustenta que os cortes não configuram retaliação, mas uma medida de reorganização da base aliada. Segundo a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, a decisão busca distinguir quais parlamentares realmente apoiam o governo nas votações.
“Não se trata de uma simples retaliação. Queremos saber com quem podemos contar, quem realmente está com o governo”, afirmou Gleisi ao estadão.
