Brasil pode lucrar com guerra comercial China-EUA, mas inflação preocupa Lula - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Brasil pode lucrar com guerra comercial China-EUA, mas inflação preocupa Lula

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Por Redação

O governo Lula vê uma oportunidade para o agronegócio brasileiro com a nova escalada da guerra comercial entre China e Estados Unidos. Pequim impôs tarifas retaliatórias sobre produtos agrícolas americanos, como milho, soja e carnes, abrindo espaço para que o Brasil amplie suas exportações.

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Membros do governo, ouvidos pela Folha, apontam que o Brasil é o substituto natural dos EUA nesses mercados, como já ocorreu no primeiro mandato de Donald Trump (2017-2020). Na época, as exportações brasileiras dispararam com as retaliações chinesas, embora tenham sido limitadas por um acordo entre Washington e Pequim em 2020.

O Departamento de Agricultura dos EUA reconheceu essa perda de espaço em um relatório de 2022, apontando que, em 2018, a China reduziu suas compras de produtos agrícolas americanos em US$ 8 bilhões, enquanto as exportações brasileiras desses itens cresceram US$ 4 bilhões.

A nova retaliação chinesa entra em vigor em 10 de março, impondo tarifas adicionais de 15% sobre frango, trigo, milho e algodão, e de 10% sobre soja, carne suína, bovina, produtos aquáticos, frutas, vegetais e laticínios. Os EUA haviam dobrado as tarifas sobre produtos chineses para 20%, intensificando o conflito comercial.

A expectativa no governo é de que a soja brasileira seja a maior beneficiada, já que os EUA são seus principais concorrentes no mercado chinês. Em 2024, o Brasil exportou 74,6 milhões de toneladas de soja para a China, faturando US$ 36 bilhões, enquanto os americanos venderam 22,13 milhões de toneladas, totalizando US$ 12 bilhões.

O milho também pode ter ganhos, ainda que em menor escala. Com previsão de safra recorde, o excedente pode ser absorvido pela China, que busca alternativas aos produtos taxados dos EUA.

Nos setores de carne suína e frango, a disputa também favorece o Brasil. Os americanos são os segundos maiores fornecedores de aves para a China, atrás do Brasil, e têm uma participação relevante no mercado de carne suína, embora fiquem bem atrás dos brasileiros.

Até mesmo o sorgo, produto pouco explorado pelo Brasil, entra no radar. Os EUA são os principais exportadores do grão para a China, que importou US$ 1,83 bilhão em 2023. O Brasil, que até o ano passado tinha uma fatia insignificante desse mercado, recebeu recentemente autorização para vender sorgo aos chineses.

Se o agronegócio pode lucrar, o impacto na inflação preocupa. A guerra comercial e o aumento das exportações tendem a pressionar os preços no mercado interno, o que já é um problema para o governo.

Economistas alertam que a alta do dólar, impulsionada pelo cenário global, já vem pressionando a inflação. Carlos Thadeu Freitas Filho, especialista da BGC Liquidez, afirmou que “o risco inflacionário se concretizou”, destacando que o mercado já previa um cenário de tarifas elevadas desde a eleição de Trump.

Para piorar, o Brasil enfrenta desafios climáticos que podem agravar a situação. “O Centro-Oeste já está quente, e o resto do ano deve seguir nesse padrão, com déficit hídrico”, disse Freitas Filho.

Com Lula desgastado nas pesquisas e a inflação em alta, o governo se vê em um dilema: se beneficia da disputa entre China e EUA, mas pode pagar o preço político caso os alimentos fiquem ainda mais caros no mercado interno.

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