Relatório do BC indica desaceleração em 2025 e IPCA só converge ao centro da meta no início de 2028
O Banco Central reduziu a projeção de crescimento do PIB de 2025 de 2,1% para 2,0% e manteve a indicação de que a inflação seguirá acima do centro da meta de 3% até o início de 2028, segundo o Relatório de Política Monetária divulgado hoje (25).
No documento, o BC cita a incerteza decorrente das tarifas comerciais impostas pelos EUA e sinais de moderação da atividade doméstica. O BC afirma que “o cenário externo mantém-se adverso” e que, no plano doméstico, os indicadores apontam “certa moderação do crescimento”. Segundo o relatório, o cenário combina política monetária em campo restritivo, hiato do produto ainda positivo e desaceleração global.
Inflação segue acima do centro da meta
Nas projeções do cenário de referência, o IPCA acumulado em quatro trimestres cai para 4,8% no fim de 2025, 3,6% em 2026, 3,4% no 1º trimestre de 2027 e 3,1% no 1º trimestre de 2028 — ainda levemente acima do objetivo central de 3%. O BC estima probabilidade de 71% de a inflação ultrapassar o teto (4,5%) em 2025, com 26% em 2026 e 17% em 2027. Banco Central
Pelo relatório, o Comitê de Política Monetária manteve a Selic em 15% ao ano e reforçou que a política monetária precisa ficar “significativamente contracionista por período bastante prolongado” para assegurar a convergência da inflação.
O que pressiona os preços, segundo o BC
O relatório lista fatores que ainda mantêm a inflação elevada: mercado de trabalho aquecido, hiato do produto positivo, inércia de índices passados e oscilações cambiais. Por outro lado, a apreciação do real e a queda de algumas commodities ajudam a suavizar a alta de preços.
No bloco de preços administrados, a energia elétrica segue como ponto de atenção, assim como itens sensíveis ao câmbio. Dentro do recorte por grupos, o relatório menciona pressões em alimentação no domicílio na janela recente, além de inflação ainda elevada em bens industriais quando comparada ao histórico.
BC descreve um cenário “coerente” com políticas que elevam custos e travam o ambiente de negócios, afirma especialista
O doutor em economia e professor do Ibmec BH, Claudio Shikida vê as projeções do Banco Central como reflexo de escolhas de política econômica que aumentam custos e inibem investimento privado. Segundo ele, o ajuste fiscal tem sido buscado sobretudo pelo lado da arrecadação, sem contrapartidas claras de eficiência do gasto e de melhoria do ambiente de negócios: “Você tem um governo que está no caminho de sempre, do arcabouço fiscal, que só aumenta receita e não diminui gastos”, afirma.
Para Shikida, a ênfase em elevar tributos e alterar regras para ampliar a arrecadação recai diretamente sobre a atividade: “esse aumento de receita tem aí um vários de custos que você está aumentando para a iniciativa privada, é aumento de alíquota, é aumento de imposto, é mudança na legislação de algum imposto para poder arrecadar mais; então você está criando custos para a sociedade”.
O professor chama atenção para sinais que, na sua avaliação, desgastam a previsibilidade das regras do jogo. “Não tem medidas, ou se tem, a gente não está vendo, não estão surtindo efeito de melhoria de ambiente de negócio”, diz. E critica episódios que passam a impressão de insegurança jurídica: “a gente inclusive tem aí uma lei Magnitsky que o Judiciário disse que não vai cumprir. Que impressão que isso passa? Que é um país que não tem muita segurança, nem para cumprir a legislação internacional com implicações para os bancos que operam no Brasil e lá fora.”
