Era para ser um momento de celebração. Foi publicado ontem, na revista Science, o melhor estudo da genética brasileira até o momento, mostrando que a nossa mistura é singular no mundo. Os dados são sem precedentes: 2.723 genomas completos de brasileiros espalhados pelas cinco regiões do país. Foram descobertas mais de 8,7 milhões de variantes genéticas, uma minoria das quais está ligada à saúde e pode ser útil para a medicina preventiva nacional.
Mas no meio do caminho havia uma frase. O estudo confirma, como já foi discutido nos últimos anos quando resultados preliminares foram disponibilizados, que há uma desproporção de sexo e origem geográfica na herança genética brasileira: nossa herança paterna é mais europeia, nossa herança materna é mais africana e indígena. O identitarismo decidiu interpretar disso, sem provas, que a melhor explicação é o estupro das negras e das nativas pelos colonizadores brancos.
A frase dando crédito a essa ideia está no final de um parágrafo após a segunda figura do artigo. Depois de recontar as diferenças observadas na herança materna e paterna, o artigo alega que isso “é previsível dado que a maioria dos colonos eram homens, especialmente na América Latina, e também ao se considerar a história da violência durante a colonização, que provavelmente levou a uma maior mortalidade de homens indígenas americanos e homens africanos, junto com a violência sexual contra as mulheres desses grupos”.
A frase começa bem, propondo uma hipótese plausível: a predominância europeia na ascendência paterna dos brasileiros se deve em parte ao fato de que as caravelas vinham cheias de homens, com raríssima presença feminina. Até aqui, nada a reclamar. Depois propõe hipóteses cada vez mais implausíveis e mais politizadas, culminando com a mais implausível e política, a hipótese do estupro.
Como tenho dito em todos os textos em que respondo a essa hipótese artificialmente inflada em importância pelos progressistas, deve haver alguma participação de estupro na mestiçagem porque o estupro participa do legado reprodutivo de qualquer população. Mas é apenas uma em um universo maior de hipóteses, algumas das quais são politicamente incorretas para esse grupo político, como o fato de que as mulheres são atraídas por homens com maior capacidade de prover recursos, o que certamente era o caso para os primeiros colonizadores europeus que, como sabem os historiadores, se casaram com as filhas dos caciques e foram morar em suas casas, o que já era um costume tupi — o marido se mudar para a casa da esposa.
Escolher a hipótese do estupro para ganhar menção específica, enquanto se ignoram fenômenos bem conhecidos do comportamento sexual humano, é desonesto e infla a importância da violência sexual. Além disso, a genética não dispõe de métodos que indiquem o estupro como causa da mestiçagem diretamente. A influência do identitarismo sobre a escolha de lançar holofotes na hipótese, de outra forma pouco merecedora da atenção que estão dando, é muito clara.
Quanto à violência em geral, também merece mais nuance. A violência da escravização é uma fonte clara da mestiçagem brasileira, de fato. Mas a sugestão de que a violência explica a baixa presença de herança indígena (mas ela é maior do que supunham antes) ignora a importância dos patógenos que os europeus trouxeram.
Como contou Jared Diamond no famoso livro e documentário “Armas, Germes e Aço”, os europeus tinham maior convivência com animais domesticados por séculos, que eram fonte de patógenos como vírus e bactérias, e assim desenvolveram resistência. Ao virem para as Américas, eles trouxeram inadvertidamente esses patógenos, que foram a principal fonte da mortandade indígena, acima da violência. Isso não é grande novidade. Antes da ascensão dos antibióticos e vacinas, eram doenças como a varíola as principais fontes de morte até mesmo em guerras. A exceção ao padrão é a sífilis, cujo trajeto foi o inverso: dos nativos para os colonizadores.
Fontes não corroboram a alegação
A situação piora quando examinamos as duas fontes indicadas pelo artigo da Science para corroborar a hipótese do estupro como causa importante da miscigenação brasileira.
As fontes não corroboram a alegação. Uma delas, Adhikari et al. (2017), intitulada “A Diversidade Genética das Américas”, não fala em estupro em nenhuma parte. Os autores mencionam o excesso de homens vindo da Europa, sua dominância social sobre as populações colonizadas (o que é genérico demais para ligar a estupro, podemos ligar também à preferência feminina mencionada acima), e a facilidade com que europeus tinham filhos fora do casamento. Violência sexual não foi considerada importante o suficiente para ser mencionada especificamente.
A outra fonte é um livro organizado pelo geneticista Sérgio Pena, da UFMG. “Homo brasilis” foi publicado em 2002. Pena foi um pioneiro no Brasil, responsável por resultados surpreendentes como a maior parte de herança europeia no DNA de negros brasileiros como o Neguinho da Beija-flor (67% de ascendência europeia, 32% africana).
Sem cópia digitalizada disponível online, o livro me deu mais trabalho para apurar. Agradeço à jornalista e advogada Marília Rodrigues, que digitalizou para mim a parte final do livro, “Aspectos Socioantropológicos”, a mais provável de conter a hipótese do estupro.
Falei com o antropólogo Antonio Risério, o decano da resistência ao identitarismo no Brasil. Ele leu o livro há anos e disse que não se lembra de menções à hipótese do estupro dentro dele.
Como o livro tem mais de duas décadas, a memória de qualquer leitor pode falhar. Vamos então aos quatro capítulos finais sobre aspectos socioantropológicos da distribuição racial no Brasil. Se a hipótese do estupro estiver no livro, terá que estar nessa parte.

Examinei todos eles. São capítulos importantes, que tratam de temas como a “política do branqueamento”, o papel vergonhoso do Museu Nacional ao abrigar pesquisas racistas que buscaram hierarquizar raças com base na craniologia, os debates sobre raça na UNESCO e o “mito” da “democracia racial”.
Nenhum desses capítulos — repito, nenhum deles — corrobora a hipótese do estupro como uma causa importante da mistura racial brasileira. O último capítulo chega a comentar trabalhos anteriores do Sérgio Pena e sua repercussão em blogs do movimento negro, vendo mais valor em questionar as origens mestiças de autodeclarados brancos no país do que em ofertar a hipótese do estupro. Pelo visto, a memória do Antonio Risério está afiada.
Manipulação de citação
Citar fontes para um conteúdo que elas não corroboram é um problema conhecido na ciência. “Mesmo que não tenha um nome, é um demônio que todos nós conhecemos: um artigo cita uma fonte que não ampara a afirmação em questão”, diz uma análise publicada em 2023 na BMJ, uma revista médica britânica. Mas há um nome, sim: manipulação de citação, segundo o Comitê de Ética de Publicação (COPE): “é um problema [que acontece] quando as referências não contribuem para o conteúdo acadêmico do artigo [que as cita]”.
Quando o identitarismo progressista emergiu por volta de 2010 e 2011, ele veio junto com uma herança intelectual da “teoria” “crítica” (que não é teoria, nem crítica), obcecada com “diferenciais de poder” na sociedade. Também houve influência do pós-modernismo, especialmente via Michel Foucault. Por trás dessa novíssima ênfase no estupro como explicação para a miscigenação brasileira, está um vandalismo semântico sobre o significado da palavra “estupro”: para eles não é, necessariamente, sexo forçado criminoso entre indivíduos. É sexo entre pessoas que tenham algum desnível de poder. O Código Penal discorda. E isso é parte da desonestidade intelectual do identitarismo.
Houve violência, houve estupro e muitas outras coisas feias nas origens do Brasil. Também houve coisas interessantes e admiráveis. O truque do identitarismo é fingir que as coisas feias vieram apenas de um lado, para demonizar um grupo inteiro de pessoas, e as belas de todos os outros lados, que passam a ser tratados como anjos, não como gente. Essa é uma visão patentemente falsa no Brasil. E que tenha sido contrabandeada em um artigo técnico da Science é uma vergonha.
