Artigo da Science sobre genética brasileira insiste em ligar mestiços a estupro - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Artigo da Science sobre genética brasileira insiste em ligar mestiços a estupro

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Era para ser um momento de celebração. Foi publicado ontem, na revista Science, o melhor estudo da genética brasileira até o momento, mostrando que a nossa mistura é singular no mundo. Os dados são sem precedentes: 2.723 genomas completos de brasileiros espalhados pelas cinco regiões do país. Foram descobertas mais de 8,7 milhões de variantes genéticas, uma minoria das quais está ligada à saúde e pode ser útil para a medicina preventiva nacional.

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Mas no meio do caminho havia uma frase. O estudo confirma, como já foi discutido nos últimos anos quando resultados preliminares foram disponibilizados, que há uma desproporção de sexo e origem geográfica na herança genética brasileira: nossa herança paterna é mais europeia, nossa herança materna é mais africana e indígena. O identitarismo decidiu interpretar disso, sem provas, que a melhor explicação é o estupro das negras e das nativas pelos colonizadores brancos.

A frase dando crédito a essa ideia está no final de um parágrafo após a segunda figura do artigo. Depois de recontar as diferenças observadas na herança materna e paterna, o artigo alega que isso “é previsível dado que a maioria dos colonos eram homens, especialmente na América Latina, e também ao se considerar a história da violência durante a colonização, que provavelmente levou a uma maior mortalidade de homens indígenas americanos e homens africanos, junto com a violência sexual contra as mulheres desses grupos”.

A frase começa bem, propondo uma hipótese plausível: a predominância europeia na ascendência paterna dos brasileiros se deve em parte ao fato de que as caravelas vinham cheias de homens, com raríssima presença feminina. Até aqui, nada a reclamar. Depois propõe hipóteses cada vez mais implausíveis e mais politizadas, culminando com a mais implausível e política, a hipótese do estupro.

Como tenho dito em todos os textos em que respondo a essa hipótese artificialmente inflada em importância pelos progressistas, deve haver alguma participação de estupro na mestiçagem porque o estupro participa do legado reprodutivo de qualquer população. Mas é apenas uma em um universo maior de hipóteses, algumas das quais são politicamente incorretas para esse grupo político, como o fato de que as mulheres são atraídas por homens com maior capacidade de prover recursos, o que certamente era o caso para os primeiros colonizadores europeus que, como sabem os historiadores, se casaram com as filhas dos caciques e foram morar em suas casas, o que já era um costume tupi — o marido se mudar para a casa da esposa.

Escolher a hipótese do estupro para ganhar menção específica, enquanto se ignoram fenômenos bem conhecidos do comportamento sexual humano, é desonesto e infla a importância da violência sexual. Além disso, a genética não dispõe de métodos que indiquem o estupro como causa da mestiçagem diretamente. A influência do identitarismo sobre a escolha de lançar holofotes na hipótese, de outra forma pouco merecedora da atenção que estão dando, é muito clara.

Quanto à violência em geral, também merece mais nuance. A violência da escravização é uma fonte clara da mestiçagem brasileira, de fato. Mas a sugestão de que a violência explica a baixa presença de herança indígena (mas ela é maior do que supunham antes) ignora a importância dos patógenos que os europeus trouxeram.

Como contou Jared Diamond no famoso livro e documentário “Armas, Germes e Aço”, os europeus tinham maior convivência com animais domesticados por séculos, que eram fonte de patógenos como vírus e bactérias, e assim desenvolveram resistência. Ao virem para as Américas, eles trouxeram inadvertidamente esses patógenos, que foram a principal fonte da mortandade indígena, acima da violência. Isso não é grande novidade. Antes da ascensão dos antibióticos e vacinas, eram doenças como a varíola as principais fontes de morte até mesmo em guerras. A exceção ao padrão é a sífilis, cujo trajeto foi o inverso: dos nativos para os colonizadores.

Fontes não corroboram a alegação

A situação piora quando examinamos as duas fontes indicadas pelo artigo da Science para corroborar a hipótese do estupro como causa importante da miscigenação brasileira.

As fontes não corroboram a alegação. Uma delas, Adhikari et al. (2017), intitulada “A Diversidade Genética das Américas”, não fala em estupro em nenhuma parte. Os autores mencionam o excesso de homens vindo da Europa, sua dominância social sobre as populações colonizadas (o que é genérico demais para ligar a estupro, podemos ligar também à preferência feminina mencionada acima), e a facilidade com que europeus tinham filhos fora do casamento. Violência sexual não foi considerada importante o suficiente para ser mencionada especificamente.

A outra fonte é um livro organizado pelo geneticista Sérgio Pena, da UFMG. “Homo brasilis” foi publicado em 2002. Pena foi um pioneiro no Brasil, responsável por resultados surpreendentes como a maior parte de herança europeia no DNA de negros brasileiros como o Neguinho da Beija-flor (67% de ascendência europeia, 32% africana).

Sem cópia digitalizada disponível online, o livro me deu mais trabalho para apurar. Agradeço à jornalista e advogada Marília Rodrigues, que digitalizou para mim a parte final do livro, “Aspectos Socioantropológicos”, a mais provável de conter a hipótese do estupro.

Falei com o antropólogo Antonio Risério, o decano da resistência ao identitarismo no Brasil. Ele leu o livro há anos e disse que não se lembra de menções à hipótese do estupro dentro dele.

Como o livro tem mais de duas décadas, a memória de qualquer leitor pode falhar. Vamos então aos quatro capítulos finais sobre aspectos socioantropológicos da distribuição racial no Brasil. Se a hipótese do estupro estiver no livro, terá que estar nessa parte.

Parte final do livro "Homo brasilis", organizado por Sérgio Pena (2002).
Parte final do livro “Homo brasilis”, organizado por Sérgio Pena (2002).

Examinei todos eles. São capítulos importantes, que tratam de temas como a “política do branqueamento”, o papel vergonhoso do Museu Nacional ao abrigar pesquisas racistas que buscaram hierarquizar raças com base na craniologia, os debates sobre raça na UNESCO e o “mito” da “democracia racial”.

Nenhum desses capítulos — repito, nenhum deles — corrobora a hipótese do estupro como uma causa importante da mistura racial brasileira. O último capítulo chega a comentar trabalhos anteriores do Sérgio Pena e sua repercussão em blogs do movimento negro, vendo mais valor em questionar as origens mestiças de autodeclarados brancos no país do que em ofertar a hipótese do estupro. Pelo visto, a memória do Antonio Risério está afiada.

Manipulação de citação

Citar fontes para um conteúdo que elas não corroboram é um problema conhecido na ciência. “Mesmo que não tenha um nome, é um demônio que todos nós conhecemos: um artigo cita uma fonte que não ampara a afirmação em questão”, diz uma análise publicada em 2023 na BMJ, uma revista médica britânica. Mas há um nome, sim: manipulação de citação, segundo o Comitê de Ética de Publicação (COPE): “é um problema [que acontece] quando as referências não contribuem para o conteúdo acadêmico do artigo [que as cita]”.

Quando o identitarismo progressista emergiu por volta de 2010 e 2011, ele veio junto com uma herança intelectual da “teoria” “crítica” (que não é teoria, nem crítica), obcecada com “diferenciais de poder” na sociedade. Também houve influência do pós-modernismo, especialmente via Michel Foucault. Por trás dessa novíssima ênfase no estupro como explicação para a miscigenação brasileira, está um vandalismo semântico sobre o significado da palavra “estupro”: para eles não é, necessariamente, sexo forçado criminoso entre indivíduos. É sexo entre pessoas que tenham algum desnível de poder. O Código Penal discorda. E isso é parte da desonestidade intelectual do identitarismo.

Houve violência, houve estupro e muitas outras coisas feias nas origens do Brasil. Também houve coisas interessantes e admiráveis. O truque do identitarismo é fingir que as coisas feias vieram apenas de um lado, para demonizar um grupo inteiro de pessoas, e as belas de todos os outros lados, que passam a ser tratados como anjos, não como gente. Essa é uma visão patentemente falsa no Brasil. E que tenha sido contrabandeada em um artigo técnico da Science é uma vergonha.

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