Os acontecimentos das últimas semanas não serão bons para a imagem da polícia de imigração dos Estados Unidos, conhecida pela sigla ICE — Agência de Controle de Imigração e Alfândega, parte do Departamento de Segurança Interna (DHS).
No dia 7 de janeiro, Renée Good, uma mulher de 37 anos, foi morta dentro de seu carro após o agente da ICE Jonathan Ross disparar três tiros contra ela. As imagens do incidente não deixam claro se Good tentou ou não atropelar Ross, que estava de pé perto da parte frontal esquerda do veículo.
O presidente Donald Trump defendeu que Ross agiu em defesa própria, e dois membros anônimos do governo alegaram, em entrevista à CBS News, que o agente teria sofrido hemorragia interna após o acontecimento. A informação foi confirmada pela ABC News.
No domingo (25), aconteceu de novo. Alex Pretti, um enfermeiro de 37 anos, se envolveu em luta corporal contra agentes da Patrulha de Fronteira (também do DHS). As imagens capturadas por transeuntes mostram Pretti se posicionando entre os agentes e uma mulher caída ao chão, portando um celular na mão. Ele recebeu um jato de spray de pimenta e foi cercado por seis agentes. Pretti portava uma arma de fogo consigo (ele tinha licença para isso), mas não a empunhava; a arma foi removida por um agente. Dá para ouvir os oficiais dizendo “arma, arma”, e então, em cinco segundos, após ser segurado no chão, Pretti foi alvejado por até dez tiros de arma de fogo dos agentes, morrendo no local.
A expectativa, agora, é que os protestos contra as políticas anti-imigração se inflamem. A cidade em que as duas mortes aconteceram é a mesma em que morreu George Floyd em meados de 2020, precipitando um quebra-quebra que custou mais vidas e bilhões de dólares.
Vitimologia e partilha de responsabilidades
É evidente que, no caso de agentes individuais com poderes de polícia, a primeira linha de responsabilidade por abuso de poder ou erros que levem a mortes é deles próprios.
Dada a pressa do governo federal de atingir promessas de campanha e bater recordes de detenções e deportações de imigrantes ilegais, há substancial chance de que o treinamento dos agentes seja insuficiente, o que também distribui a responsabilidade para outras autoridades.
Cabe também perguntar, como fez o jornalista Michael Shellenberger, se os incentivos ideológicos a interferir no trabalho policial têm uma parcela da culpa.
“Está claro que, ao encorajar pessoas a interferir com operações policiais, a esquerda está contribuindo para suas mortes”, disse Shellenberger em seu veículo, Public.
Os vídeos dos momentos finais de ambas as vítimas, observa o jornalista californiano, mostram-nas “impedindo operações policiais, e é isso o que as ONGs progressistas, os democratas e os influenciadores progressistas têm incentivado há meses”.
Renée Good, por exemplo, usou seu veículo para bloquear uma via enquanto sua parceira “provocava oficiais da ICE”. Quanto a Alex Pretti, ele pode ser visto nos registros interferindo ao menos duas vezes, incentivando o trânsito de veículos na área e, do seu ponto de vista, tentando proteger a mulher que também estava ali para protestar contra a ICE.
É preciso pensar nos problemas calmamente. Há anos, a cantilena mais associada à esquerda (mas a direita não é isenta disso quando se sente atacada) tem sido acusar esse tipo de análise, como a feita por Shellenberger, de ser uma forma de “culpar a vítima”. Pessoas que querem formular resoluções racionais para problemas na área da criminologia, contudo, ainda que não especialistas, não podem se furtar a pensar quais comportamentos tornam alguém mais ou menos propenso a se tornar uma vítima. Isso é conhecido como “vitimologia”.
Quando se está diante de pessoas armadas, o risco de ser alvejado cresce instantaneamente na sua presença, sendo ou não justas as críticas a elas. Pretti tinha motivo para temer os agentes, e os agentes tinham motivos para temer Pretti ao descobrir que ele estava portando uma arma de fogo, ainda que legalmente e na cintura, sem ser empunhada.
“Não estou defendendo as decisões e comportamentos dos oficiais da ICE ou de qualquer outra pessoa. As mortes são uma tragédia. E há um debate importante em curso sobre as táticas da ICE, separado dos comportamentos específicos de Good e Pretti”, comentou Shellenberger.
O contexto maior é uma disputa de jurisdição: os Estados Unidos derivam seu nome do fato de que seus estados componentes têm mais autonomia que as províncias de outras antigas colônias, mas existem leis federais para limitar a imigração. As cidades governadas pelo Partido Democrata têm desafiado a lei federal ao se declararem “santuários” para os imigrantes ilegais. São cidades como Nova York, Los Angeles, San Francisco, Seattle, Portland, Chicago, Denver, Mineápolis, Boston, Filadélfia, Las Vegas e outras.
O consenso progressista americano chegou a abolir o termo “imigrante ilegal” (o termo exato da lei federal é “alienígena ilegal”), trocando por “imigrante não-documentado” em sua cartilha politicamente correta.
O nascente escândalo do Signal
O estado do Minnesota, onde fica Mineápolis, tornou-se o ponto principal do debate sobre imigração desde que Trump e seus apoiadores começaram a denunciar uma rede de fraudes de benefícios estatais para creches e centros médicos. Segundo eles, os responsáveis pelas fraudes são principalmente imigrantes da Somália. Parte do escândalo foi coberta pela imprensa tradicional, mas há grande presença da nova mídia dos influenciadores.
A briga chegou até Davos, onde Trump criticou a deputada Ilhan Omar, que tem essa origem. Uma das acusações é que Omar teria se casado no papel com seu próprio irmão por um tempo para poder facilitar sua imigração aos EUA.
O governador do Minnesota é Tim Walz, o candidato a vice-presidente do Partido Democrata em 2024 na chapa de Kamala Harris. Na semana passada (19), Walz chamou a ICE de “Gestapo moderna de Trump”.
A vice-governadora do estado é Peggy Flanagan. Dias antes da segunda tragédia, ela postou um vídeo nas redes sociais dizendo que “nossos vizinhos estão desaparecendo sem devido processo legal; isso se chama sequestro. Apareçam, usem suas vozes, coloquem seus corpos no caminho”.
Não poderia haver ilustração mais clara de que Shellenberger tem razão.
Agora, Flanagan pode se enroscar ainda mais na situação após o vazamento de capturas de tela de grupos no aplicativo Signal nos quais supostamente se organizavam os protestos contra a ICE em Mineápolis.
Os grupos serviam para sinalizar a presença de agentes federais de imigração à paisana, direcionar rapidamente militantes para protestar nos locais e manter uma lista negra de veículos utilizados pelos agentes.
No dia 19 de janeiro, a Fox News noticiou que esse sistema sinalizou falsamente dois engenheiros de software que estavam em horário de almoço juntos na cidade. Rapidamente, apareceram militantes que começaram a insultá-los e acusá-los de serem pedófilos.
“Meu amigo ficou chocado”, disse um deles. “Politicamente ele está no lado anti-ICE. Ele mora por perto e já comeu no local. De repente começou a ver mensagens dizendo que éramos da ICE. E apareceram pessoas gritando ‘tomara que morram’ e nos chamando de pedófilos”.
O site The Free Press corroborou a existência dos grupos de Signal e as táticas de manutenção de bancos de dados com placas dos veículos supostamente pertencentes a agentes da ICE. Em outra reportagem, a Fox News indicou que os protestos são altamente organizados e poderiam ser pagos por agentes externos ao estado.
O que a vice-governadora tem a ver com isso? As capturas de tela (ainda a serem verificadas) mostram postagens nos grupos citando Peggy Flanagan como participante ativa ou administradora.
É importante não repetir o erro dos militantes contra os dois homens que estavam só tentando almoçar: não está confirmado que Flanagan ou outras autoridades do governo de Minnesota tenham participado da criação dos grupos de “policiamento paralelo” anti-ICE. Ainda são alegações a serem investigadas. Se verdadeiras, darão munição ao governo Trump para reverter a decaída de imagem da ICE.
Uma complicação é que o Signal permite criar contas sem necessidade de um número de celular, então pode ser que alguém tenha plantado o nome de Flanagan falsamente nos grupos.
Já existem investigações abertas contra oficiais do governo de Minnesota. Segundo a Associated Press, intimações foram emitidas na semana passada por decisão de um júri para que os funcionários públicos se expliquem sobre acusações de obstrução de justiça. O Departamento de Justiça, seguindo a decisão, intimou o governador Walz; o advogado-geral do estado, Keith Ellison; o prefeito de Mineápolis, Jacob Frey; entre outras autoridades estaduais.
Entre os oponentes dos militantes pró-imigração circula a informação de que Flanagan já teria deletado seus perfis nas redes sociais. Contudo, seu Instagram segue aberto, com 78,5 mil seguidores. Um dos posts mais recentes é sua reação em vídeo à morte de Pretti, postada no mesmo dia do incidente. “Nunca tive tanto orgulho de ser uma minesotana”, ela afirmou. “Há mais americanos horrorizados com o que está acontecendo do que a favor dessas táticas horrorosas”.
O comentário mais popular no momento à postagem é do cidadão que se identifica como Rick Skowronski. “Como é ser uma administradora de um grupo terrorista no Signal? Você vai ser presa por muito tempo”, provocou o comentarista. Muitos dos outros comentários com mais curtidas são similares. Os favoráveis, no momento, ganham poucos likes.
Ainda é muito cedo para dizer quem ganhará a queda de braço nos Estados Unidos sobre quem está errando mais — a ICE ou o ativismo pró-imigração que tenta interferir em suas operações. Um gesto de Trump indica que ele não pensa que o trabalho de detenção e deportação está com alta qualidade: ele mandou ao estado Tom Homan, um veterano da ICE, o que indica que o trabalho do chefe da Patrulha de Fronteira, Gregory Bovino, não está agradando.
Poucos minutos antes da publicação deste artigo, a BBC noticiou que Trump e Walz tiveram uma “conversa produtiva” por telefone. Trump disse que a inciativa partiu de Walz, que teria pedido que os dois “trabalhem juntos”.
“Foi uma ótima conversa e parece que nós estamos na mesma sintonia”, disse o presidente.