Relatório global contradiz governo e aponta alta da desigualdade no Brasil
Brasília, Segunda, 13 de julho de 2026
Política

Relatório global contradiz governo e aponta alta da desigualdade no Brasil

Relatório global contesta narrativa do governo Lula e aponta aumento da desigualdade no Brasil, em contraste com estudo do Ipea

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Por Redação

Estudo internacional indica maior concentração de renda entre 2014 e 2024 e diverge de nota do Ipea

Um novo estudo internacional sobre desigualdade aponta aumento da concentração de renda no Brasil entre 2014 e 2024, em sentido oposto à avaliação recente divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e celebrada pelo governo de Lula.

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O World Inequality Report 2026, divulgado nesta quarta-feira (10), afirma que a parcela da renda apropriada pelos mais ricos cresceu no período, mantendo o Brasil entre os países mais desiguais do mundo. O relatório é produzido por um grupo internacional de economistas ligado ao World Inequality Lab, que tem o francês Thomas Piketty entre seus diretores.

A conclusão contraria nota técnica do Ipea, publicada recentemente, que aponta a desigualdade no menor nível em 30 anos, com avanço da renda dos mais pobres e queda da pobreza a patamares historicamente baixos. O estudo do instituto foi apresentado no Palácio do Planalto e passou a ser citado por autoridades do governo federal.

Em postagem nas redes sociais, Lula afirmou: “Na última semana, o IPEA divulgou que atingimos o menor nível de desigualdade da série histórica. E hoje, novos dados do IBGE mostram que mais de 8 milhões de pessoas saíram da pobreza”.

A divulgação do dado provocou reação entre economistas. Especialistas reconhecem a melhora dos indicadores de pobreza, mas questionam a conclusão de queda histórica da desigualdade. A crítica central recai sobre a metodologia do Ipea, baseada apenas em pesquisas domiciliares do IBGE, que tendem a subestimar a renda dos mais ricos.

Diferença metodológica

O estudo do Ipea utiliza dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), que capta rendimentos declarados por entrevistados. Já o relatório internacional combina informações do IBGE com dados da Receita Federal, considerados mais adequados para medir rendas do topo da pirâmide, por se basearem em declarações de Imposto de Renda.

Segundo especialistas, a renda do capital — principal fonte de ganhos dos mais ricos — aparece de forma limitada nas pesquisas domiciliares. Por isso, análises baseadas apenas nesses dados tendem a indicar desigualdade menor do que a real.

No World Inequality Report 2026, a fatia da renda nacional concentrada nos 10% mais ricos passou de 57,9% em 2014 para 59,1% em 2024. No mesmo período, a parcela dos 50% mais pobres recuou de 10,7% para 9,3%. O índice que compara esses dois grupos subiu de 53,7 para 63,5, sinalizando aumento da desigualdade.

Resposta dos pesquisadores
Os autores do relatório afirmaram, por meio da assessoria de imprensa, que estatísticas baseadas apenas em pesquisas domiciliares “subestimam a renda do capital” e criam uma percepção distorcida sobre desigualdade. Segundo eles, mesmo com premissas conservadoras, a combinação de dados fiscais e nacionais revela maior concentração de renda.

O sociólogo Pedro Herculano de Souza, um dos autores do estudo do Ipea, reconheceu as limitações da Pnad, mas disse que optou por esses dados por estarem mais atualizados no momento da pesquisa. À BBC News Brasil, afirmou que os dados tributários disponíveis iam apenas até 2021 quando o estudo começou.

“Nossa análise é inteiramente baseada em informações de pesquisas domiciliares, que possuem limitações importantes”, diz a nota técnica do Ipea. “No Brasil, a concentração de renda no topo é muito maior nos dados tributários e segue trajetória distinta da revelada pelas pesquisas domiciliares.”

Souza afirmou ainda que pretende reavaliar as conclusões quando houver dados fiscais mais recentes e séries históricas mais completas.

Apesar da divergência metodológica, economistas ouvidos reconhecem avanços na redução da pobreza e no aumento da renda média, mas apontam que a concentração no topo segue elevada. Para eles, a evolução da desigualdade depende da análise consistente dos rendimentos mais altos, ponto central da divergência entre os dois estudos.

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