TCU inicia na próxima terça debate sobre leilão no Porto de Santos
Brasília, Quinta, 04 de junho de 2026
Justiça

TCU inicia na próxima terça debate sobre leilão no Porto de Santos

TCU
Leopoldo Silva/Agência Senado

Compartilhe em

Foto do autor

Por Mariana Albuquerque

Jornalista e pós-graduada em Direito Legislativo.

Exportadores cobram modelo bifásico e defendem limites a grupos que já operam no Porto; Disputa envolve JBS

Às vésperas da decisão do TCU sobre o leilão do novo superterminal de contêineres em Santos, exportadores e entidades do setor produtivo enviaram ofícios ao tribunal pedindo que o certame do Tecon Santos 10 ocorra em duas fases, com restrições aos operadores que já atuam no porto.

✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp

O ministro Antonio Anastasia deve apresentar seu voto na sessão extraordinária marcada para terça-feira (18), mas o leilão só deve ocorrer no ano que vem segundo fontes ligadas ao setor.

A proposta defendida pelas entidades segue o modelo elaborado pela Antaq e apoiado pelo Ministério de Portos e Aeroportos. O formato prevê a exclusão, na primeira fase, de grupos que já controlam terminais de contêineres em Santos, como MSC, Maersk, CMA CGM e DP World. Caso não apareçam interessados, essas empresas poderiam concorrer na segunda etapa, mediante desinvestimento dos ativos que já possuem na área.

A Abir declarou “integral e irrestrito” apoio ao modelo. Para a associação, o novo terminal representa uma chance de expansão da concorrência e da capacidade operacional no porto.

A Aenda reforçou o argumento. A entidade sustenta que a restrição é necessária para conter o aumento da concentração de mercado. Setores como o salineiro, que dependem da movimentação de contêineres, também defenderam a proposta.

O Tecon Santos 10 prevê mais de R$ 6 bilhões em investimentos e ampliará em 50% a capacidade de movimentação de contêineres no maior porto da América Latina.

Divergências dentro do governo

A Subsecretaria de Acompanhamento Econômico e Regulação do Ministério da Fazenda diverge do modelo e propõe leilão aberto, em fase única, sem restrições. A área técnica do TCU também classificou as limitações como “ilegais” e afirmou que não há risco de concentração excessiva.

O Ministério Público de Contas acompanhou o entendimento dos auditores e citou a ausência de justificativas para impedir a participação dos operadores já instalados.

Belo de fundo político e pressão sobre a Antaq

A disputa ganhou peso político e empresarial. A proposta da Antaq afeta diretamente as grandes operadoras do setor e favorece grupos que ainda não atuam em Santos, como a estatal chinesa Cosco e a JBS Terminais, dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

Governo Lula autoriza JBS a importar tilápia do Vietnã após classificar espécie como invasora; produtores apontam riscos e temem prejuízos

O Globo revelou que a modelagem atual pode beneficiar a JBS, que já buscou conversas com concorrentes sobre possíveis parcerias. A empresa nega interesse formal, mas mantém presença ativa no setor e já controla o Porto de Itajaí.

O governador Tarcísio de Freitas criticou o modelo restritivo. Ele afirma que limitar a participação de grupos consolidados reduz a concorrência e pode afetar custos e qualidade dos serviços. O ministro Silvio Costa Filho defendeu a proposta da Antaq e disse que seguirá a orientação do TCU.

Exportadores defendem leilão aberto

Entidades como Cecafé e Logística Brasil pediram ao TCU que determine a realização de um certame aberto e irrestrito ainda em 2025. Elas citam prejuízos com a saturação do porto e risco de novas ações judiciais se o modelo restritivo for mantido.

O relatório técnico da AudPortoFerrovia, com 203 páginas, apontou ilegalidade nas restrições e disse que as justificativas da Antaq se baseiam em cenários hipotéticos.

O Cecafé afirma que a limitação afeta exportadores de diferentes cadeias e questiona a renúncia ao potencial arrecadatório do leilão. A entidade defende que operadores experientes, inclusive os já presentes no local, tenham direito de participar.

A Associação Logística Brasil sustenta que o processo sofreu interferências políticas e atropelos técnicos. A entidade afirma que manter a restrição aumentará o risco de judicialização e atrasará ainda mais a oferta de capacidade.

Modelo bifásico também tem apoio

Outras entidades, como Abir, AEB, CNT, ETCO, Siesal, Sindirações, ABPA e Abia, apoiam o modelo em duas etapas proposto pela Antaq. Elas alegam que a restrição inicial é necessária para evitar avanço da concentração no porto, onde Maersk, MSC e CMA CGM já dominam a movimentação de contêineres.

SONY DSC

Especialistas citados pelas entidades afirmam que o desinvestimento sugerido pela área técnica do TCU é arriscado, sem base regulatória clara e sujeito a atrasos prolongados.

O contrato do Tecon Santos 10, com previsão de 75 anos e capacidade projetada de 3,25 milhões de TEUs por ano, deve definir a estrutura concorrencial do maior porto da América Latina por décadas.

O setor aguarda o julgamento do dia 18 para saber qual modelo prevalecerá — leilão aberto e irrestrito, como defendem os auditores, ou leilão em duas fases, como querem produtores, parte do governo e grupos que não atuam em Santos.

Escreva seu e-mail para receber bastidores e notícias exclusivas

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Publicidade