Análise: Investigação de Trump contra JBS é política
Brasília, Terça, 16 de junho de 2026
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Análise: Investigação de Trump contra JBS é política?

Trump culpa JBS e outras companhias por preço salgado da carne
Trump culpa JBS e outras companhias por preço salgado da carne

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Por Claudio Dantas

Preço da carne bovina bateu recordes nos EUA, resultado de seca prolongada que reduziu rebanho

Donald Trump anunciou ontem uma investigação contra a JBS e outras três gigantes do processamento de carne dos Estados Unidos, sob alegação “de conluio ilícito, fixação de preços e manipulação”. É fato que os preços da carne bovina bateram recordes neste ano, mas vários fatores contribuíram para isso, especialmente a seca prolongada que devastou pastagens, elevou o custo da ração e forçou pecuaristas a reduzirem seus rebanhos ao menor nível desde 1951.

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Segundo dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA, 1 Kg de carne moída de acém custou aos americanos no varejo cerca de US$ 6,33 em setembro, um aumento de 13,5% em relação ao mesmo mês de 2024. Apesar do aumento dos preços, o consumo segue em alta. O Instituto da Carne, uma associação comercial que representa os frigoríficos, afirmou que a indústria é fortemente regulamentada e transparente.

“Apesar dos altos preços da carne bovina para o consumidor, os frigoríficos têm perdido dinheiro porque o preço do gado está em níveis recordes”, diz Julia Anna Potts, CEO do instituto.

Em publicação no LinkedIn, a procuradora-geral Pam Bondi afirmou que a investigação está em andamento e sendo conduzida pela secretária de Agricultura, Brooke Rollins, e pela procuradora-geral adjunta Gail Slater. Slater lidera a divisão antitruste do Departamento de Justiça, que investiga a fixação de preços e outras práticas que sufocam a concorrência.

“Precisamos de transparência, responsabilidade e um mercado justo que recompense aqueles que realmente criam e produzem nossa carne bovina — e não os intermediários corporativos que manipulam o sistema”, disse Rollins no X.

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HISTÓRICO JUDICIAL

A investigação em si não é nova, apesar do anúncio de Trump. Foi aberta em 2020, mas ganha outro impulso pela pressão popular e política, considerando que os Democratas souberam usar a insatisfação geral para culpar as políticas tarifárias do presidente republicano e a Suprema Corte vem dando sinais de que pode derrubar os efeitos de seu decreto de emergência nacional, o que representaria uma derrota sem precedentes.

Tyson, Cargill e JBS já pagaram dezenas de milhões de dólares para encerrar processos judiciais que as acusavam de conspirar para inflacionar os preços da carne bovina, restringindo a oferta. Apesar dos acordos, as companhias sempre negaram as acusações. A divisão antitruste do DOJ tem autoridade para investigar tanto na esfera civil quanto na criminal, podendo emitir intimações para apresentação de documentos e depoimentos.

Ex-conselheira econômica de JD Vance, vice-presidente dos EUA, Slater declarou que esta e outras investigações de sua divisão se concentrarão em “questões financeiras” que têm afetado os consumidores, como custos de alimentação, moradia e transporte; indicando a abertura de frentes de apuração contra outras indústrias, como a de embalagens. “Chegou a hora de consertar esse sistema falho de uma vez por todas”, afirmou à Reuters a presidente do grupo Farm Action, Angela Huffman.

MEDIDAS CONTRADITÓRIAS

As acusações de cartelização, por enquanto, carecem de dados concretos conhecidos. Dentre as Big Four, apenas Tyson e JBS vêm apresentando lucro operacional, resultado também da estratégia de diversificação de portfólio. Nesse caso, o grupo dos irmãos Batista registram recordes de faturamento (R$ 2,9 bilhões no 1T25), apesar da projeção de perdas expressivas com o tarifaço.

Há quem enxergue nas ações de Trump falta de foco e até certa confusão no diagnóstico. Recentemente, o presidente republicano pressionou os pecuaristas americanos a baixarem o preço do gado, ameaçando ampliar a importação de carne argentina. Além de desconsiderar a restrição do rebanho por causa da seca, a medida não teria impacto significativo no preço da gôndola, em virtude do volume reduzido.

Soma-se a isso o próprio tarifaço de 50% sobre as importações brasileiras, que restringiu a importação de carne moída, fonte importante de proteína para os americanos em geral.

Em setembro, Joesley Batista foi recebido por Donald Trump no Salão Oval, encontro no qual agradeceu a aprovação da dupla listagem pela SEC (CVM americana), comentou sobre novos investimentos e as consequências do tarifaço. Naquele momento, as queixas de pecuaristas e consumidores já eram de domínio público.

O anúncio de ontem pegou a cúpula do grupo J&F de surpresa, mas vem sendo interpretada como um gesto para o público interno, diante da iminente retirada da tarifa sobre a carne brasileira. Vamos aguardar.

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