Em janeiro, 27% do dinheiro do Bolsa Família foi gasto em apostas
O Tribunal de Contas da União (TCU) divulgou um levantamento, com base em dados do Banco Central (BC), que identificou que, em um único mês (janeiro de 2025), cerca de R$ 3,7 bilhões foram transferidos de contas de beneficiários do Bolsa Família para bets. O valor representa 27% dos R$ 13,7 bilhões pagos pelo programa no mês.
O levantamento cruzou CPFs de apostadores com a base do Bolsa Família e aponta que 4,4 milhões das 20,3 milhões de famílias atendidas tiveram algum contato com apostas online, ou 21,8% do total. Segundo o relator do processo, ministro Jhonatan de Jesus, “é impossível afirmar com toda certeza que os recursos utilizados para apostas venham exclusivamente do Bolsa Família”, já que 83,93% dos titulares declararam ter outras fontes de renda.
Ainda assim, o TCU identificou fortes indícios de uso irregular de CPFs em fraudes, lavagem de dinheiro ou ocultação de ilícitos. “Cerca de 4,4% do total de famílias apostadoras foram responsáveis por 80% do montante total transferido”, e 21,9% das famílias tiveram contato com apostas. Para o relator, esses dados “reforçam a forte suspeita de uso irregular de CPFs” e “pode indicar lavagem de dinheiro, ocultação de ganhos ilícitos ou outras fraudes”.
O relatório detalha a concentração dos gastos: das 4,4 milhões de famílias apostadoras, 3,2 milhões transferiram até R$ 600; 371,7 mil usaram até R$ 1 mil; e 820,2 mil mais de R$ 1 mil. Entre estas, uma família chegou a transferir R$ 2,1 milhões em um mês, e 663 famílias movimentaram entre R$ 100 mil e R$ 1,4 milhão.
Segundo o TCU, “esses valores não estão de acordo nem com a realidade dos beneficiários do Bolsa Família e nem com grande parcela da população brasileira. Essa situação alerta para a possibilidade da utilização indevida de CPFs de beneficiários do programa para não somente as apostas em plataformas online como para outras fraudes e práticas ilegais”.
O estudo também analisou o endividamento das famílias: 2.818 estão em “situação crítica” e de “alto risco social”; 23.397 em “início de endividamento”; e 774.678 com “comprometimento das necessidades básicas”. Esses três perfis somam mais de 800,8 mil famílias com algum integrante apostador e problemas financeiros relevantes. Por outro lado, a maioria (3,64 milhões) comprometeu menos de 2% da renda, considerado risco baixo ou médio segundo referências internacionais.
O TCU concluiu que existe “elevado risco” de que contas de beneficiários estejam sendo usadas para fraudes e práticas ilegais. O tribunal determinou ao Ministério do Desenvolvimento Social e ao Banco Central que, em 90 dias, apresentem plano para reduzir inclusões indevidas no programa e investigar o uso ilícito de CPFs. Dados sobre ocorrências atípicas e milionárias serão enviados ao Coaf, à Receita Federal e ao Ministério Público Federal.
O relatório foi elaborado pela equipe técnica do TCU, com base em dados de janeiro de 2025, cruzados com beneficiários do Bolsa Família em dezembro de 2023.
O processo no TCU sobre o uso do Bolsa Família para bets foi aberto em outubro de 2024 pelo ministro Bruno Dantas e ganhou relatoria de Jhonatan de Jesus.
