Um dos assuntos deixados em aberto pela Vaza Toga 2 foi a questão dos “parceiros” do Tribunal Superior Eleitoral que ajudavam a Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação (AEED), chefiada entre 2022 e 2023 por Eduardo Tagliaferro, a fichar e perseguir apoiadores de Jair Bolsonaro.
Agora, novos documentos vazados obtidos pela revista Oeste começam a dar um panorama mais amplo dessas parcerias. A reportagem assinada ontem por Edilson Salgueiro, Rachel Díaz e Carlo Cauti trouxe dois nomes de parceiros: Instituto Democracia em Xeque (DX) e a empresa de tecnologia Palver.
Na divisão de trabalhos sugerida pelos novos documentos, a DX monitorava redes sociais e Palver se focava em grupos de WhatsApp.
O conteúdo monitorado nas redes era de opiniões políticas, como o pedido de voto impresso auditável. Como mostramos na Vaza Toga 2, opiniões políticas expressadas nas redes sociais foram usadas por Moraes em seu processo decisório de quem permanecia preso no contexto do 8 de Janeiro.
“Pessoal, voto impresso e auditável perto de chegar no pico histórico”, avisou a um grupo da AEED um funcionário da Palver, em 24 de setembro de 2022. “Também se verificou tendência de aumento nas menções ao TSE e às urnas eletrônicas, (…) o que pode ser sinal de inflamação na percepção da militância bolsonarista sobre essas instituições”, disse ele em outra mensagem no mesmo mês. Tudo isso foi feito nas dependências de um tribunal eleitoral.
Confira, abaixo, mais informações sobre os dois parceiros do TSE.
Neca Setubal, herdeira do Itaú, é conselheira do Democracia em Xeque (DX)
Em janeiro, quando Mark Zuckerberg acusou as agências de checagem de viés político e anunciou o fim das verbas da Meta para os checadores nos EUA, o Advogado-Geral da União, Jorge Messias, reagiu chamando por uma audiência pública. O DX foi um dos participantes.
O DX tem em seu conselho consultivo a herdeira do Itaú, Neca Setubal, conhecida por seu apoio à candidatura de Marina Silva à presidência em 2014. Na época, Setubal foi alvo de ataques do PT que Marina classificou como “agressivos, desproporcionais e injustos”. Mesmo assim, a herdeira participou da equipe de transição do governo Lula 3. Sua fortuna foi estimada em R$ 1,8 bilhão pela revista Forbes.
O instituto usa bastante do jargão da área da “pesquisa em desinformação”. Foi o mesmo jargão que se viu no TSE na decisão de censura prévia contra a produtora Brasil Paralelo: “desordem informacional”, disse o ex-ministro Ricardo Lewandowski em seu voto, um termo criado na área, que tem cientificidade questionável.
O instituto de Setubal publicou um relatório em fevereiro para lamentar os planos do governo Trump, então com Elon Musk, de fechar a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID).
Além de Jair Bolsonaro e alguns parlamentares de sua base de apoio, o documento rotula como de “extrema-direita” críticos do projeto de censura das redes sociais como “Oi Luiz TV”, Kim Paim, a rádio Auri Verde Brasil e o canal libertário Ancapsu. Também rotula como “mídia de reframe” o jornal Gazeta do Povo e a revista Oeste, sugerindo que esses veículos de comunicação com linha editorial conservadora existem para lavar as informações produzidas pela suposta “extrema-direita”.
O Instituto Democracia em Xeque foi citado por Mike Benz, ex-funcionário de inteligência do governo americano, como um dos intermediários de recursos e influência entre a inteligência americana e a USAID e projetos desenvolvidos no TSE sob a presidência do ministro Alexandre de Moraes.
O DX recebe recursos da fundação Heinrich Böll Stiftung (HBS), ligada ao Partido Verde alemão, da Fundação Luiz Egydio Setubal (FJLES) e da Fundação Tide Setubal (FTS, cujo conselho é presidido por Neca) — ambas levam o nome “Setubal” porque pertencem a filhos do ex-presidente do Itaú Olavo Egydio Setubal.
O DX também lista “instituições parceiras”, sem esclarecer se a natureza da parceria envolve dinheiro. Entre elas estão várias ONGs sustentadas pela Ford Foundation e pela Open Society de George Soros, que financiam a esquerda globalmente.
Conversei com Collin McMahon, um jornalista alemão, sobre a HBS. Ele confirmou a ligação direta com o Partido Verde e acrescentou que a fundação é “infame por patrocinar ONGs anti-Israel e a Organização para a Libertação Palestina”, classificada como organização terrorista pelos EUA desde 1987.
Em resumo, é uma “Open Society 2.0 sustentada com dinheiro do pagador de impostos alemão”. Só em 2023, a Heinrich Böll Stiftung embolsou 97 milhões de euros dos cofres do país, afirmou McMahon.
Palver tem acordo com o TSE para monitorar opiniões políticas
O TSE firmou em 2022 com a Palver o Termo de Cooperação 73, prevendo monitoramento de redes sociais e grupos públicos de aplicativos de mensageria, com o objetivo de mitigar os “efeitos negativos da desinformação sobre o Processo Eleitoral”.
O documento estabelece que o TSE poderia acionar a Palver indicando palavras-chave para a produção de relatórios. Como mostrou a Oeste, as palavras-chave usadas incluíam “urna eletrônica”, “urnas auditáveis”, “voto impresso”, “voto em papel”, “inauditável”, “Barroso”, “Fachin”, “Moraes”, “TSE”, “garantia de lei e ordem”, “Estado de defesa” e “Estado de emergência”.
Felipe Bailez, CEO da Palver, e Luis Fakhouri, chefe de estratégia e cofundador da empresa com Bailez, assinam juntos uma coluna na Folha de S. Paulo em que comentam tendências culturais gerais das redes sociais brasileiras de forma relativamente neutra. No último texto, sobre o crescimento do influenciador comunista Jones Manoel, eles relatam que têm acesso a “mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp”.
No acordo com a Palver, o TSE se compromete a não dar publicidade aos relatórios feitos pela empresa.
A empresa brasileira é ligada a uma contraparte que fundaram nos Estados Unidos, a Palver Intelligence Corp, com sede em Delaware, local favorito entre start-ups por causa dos impostos e regulamentação relativamente baixos. A Palver já prestou serviços para câmaras municipais e prefeituras do interior de São Paulo.
Em agosto, o Centro Internacional de Jornalistas (ICFJ) publicou em vídeo um depoimento de Fakhouri elogiando a organização. “O trabalho que o ICFJ tem feito é extremamente necessário para dar aos jornalistas e organizações ao redor do mundo [o que precisam] para fazer seu melhor trabalho possível para combater a desinformação”, disse em inglês o chefe de estratégia da Palver.
Em dezembro de 2024, Fakhouri foi um dos vencedores de um concurso do ICFJ que premia projetos inovadores no “combate à desinformação”. Outra conexão é pela agência de checagem Lupa, da qual a Palver é parceira. A agência já foi favorecida com verba do ICFJ para um projeto cujo objetivo foi “mapear publicações falsas que levaram brasileiros a participarem dos atos antidemocráticos em Brasília em 8 de janeiro de 2023”. Foi este projeto que levou o prêmio.
O centro também cita a Palver como exemplo de “como investigar desinformação política”. O presidente da empresa, Bailez, já falou em mesa mediada por Juan Torres, representante do ICFJ, em um congresso da Abraji.
O ICFJ tem como financiadores entidades como a USAID, o Fundo Nacional pela Democracia (NED), possivelmente ligado à CIA, além do Departamento de Estado, as embaixadas dos EUA em Tbilísi, Túnis e Escópia; a fundação Bill & Melinda Gates; as empresas Meta, Bloomberg, Google News, CNN, Associated Press, New York Times, Washington Post, CBS e outras; e o brasileiro Instituto Serrapilheira.
O ICFJ já foi intermediário de verbas entre o governo americano e o Sleeping Giants, organização pró-censura no Brasil que tem um fundador, Humberto Ribeiro, agora incluído no “Conselhão” de Lula.
Colaborou para este artigo o jornalista David Ágape.