Juiz condena casal por homeschooling; crianças falam até latim
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Justiça

Juiz condena casal por homeschooling; crianças falam até latim

Casal manteve filhos fora da rede regular por dois anos e enfrentou bloqueio de bens

Foto: Arquivo pessoal

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Por Redação

Uma família de Araucária, na região metropolitana de Curitiba, desistiu da educação domiciliar dos filhos após enfrentar uma disputa judicial que levou a multa aplicada pela Justiça a alcançar cerca de R$ 1,4 milhão. As informações são do jornal Gazeta do Povo.

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O caso voltou a colocar em evidência o debate sobre homeschooling no Brasil, tema que ainda não possui regulamentação específica no país.

A decisão judicial foi proferida em 2023, após o Ministério Público determinar que os dois filhos do casal — então com quatro e sete anos — fossem matriculados em uma instituição de ensino regular. A medida previa multa diária de R$ 1 mil para cada criança caso a determinação não fosse cumprida.

Mesmo diante da ordem, os pais mantiveram a educação domiciliar por cerca de dois anos. Com isso, a penalidade passou a se acumular diariamente e atingiu cifras milionárias. Em determinado momento do processo, a dívida já ultrapassava R$ 186 mil, e a família passou a enfrentar bloqueio de contas bancárias e restrições sobre bens.

A pressão provocada pelo processo foi decisiva para a mudança de rumo. A mãe relatou o desgaste causado pela disputa judicial: “Era muita pressão psicológica em relação à multa caríssima, bens bloqueados e cansaço mental”, afirmou.

Em 2025, o casal decidiu matricular os filhos em uma escola regular, encerrando o impasse judicial. Com a medida, a cobrança acumulada foi retirada sem a exigência do pagamento dos valores que haviam sido somados ao longo do processo.

A advogada da família afirmou que a decisão evitou impactos financeiros mais severos. “Isso evitou uma dívida desproporcional, permitindo que os recursos financeiros permanecessem direcionados ao sustento, à educação, à saúde e ao bem-estar das crianças”, declarou.

Ela também afirmou para a reportagem que o magistrado apontou em sua decisão a ausência de conteúdos ligados a temas como sexualidade, gênero, e direitos da criança e do adolescente, além da falta de exposição ao ensino de tópicos como religiões, cultura afro-brasileira e cinema nacional.

Outro ponto mencionado na decisão judicial, de acordo com a defesa, é o fato de as jovens não consumirem estilos musicais como funk e sertanejo e terem contato predominante com arte sacra.

Ensino em casa começou após a pandemia

A escolha pelo ensino domiciliar ocorreu após o período da pandemia de Covid-19. Formada em Matemática e ex-professora, a mãe afirmou ter deixado a carreira para se dedicar integralmente à educação dos filhos.

Segundo ela, a filha apresentou dificuldades no retorno ao ensino presencial após o isolamento social. A experiência motivou a família a testar o ensino em casa no início de 2023.

Ao relatar os resultados, a mãe afirmou ter percebido avanços rápidos no desempenho da criança. “Em dois meses de ‘homeschool’, ela se desenvolveu muito melhor do que em um ano inteiro”, disse.

A família afirma que as crianças seguiam uma rotina que incluía disciplinas tradicionais e atividades complementares, além de acompanhamento especializado. Apesar disso, a falta de regulamentação para a modalidade acabou levando o caso à Justiça.

As adolescentes mantêm uma rotina de leitura intensa, com média de cerca de 30 livros por ano, além de participarem de atividades externas, como catequese, visitas culturais e pesquisas realizadas tanto em enciclopédias físicas quanto na internet.

A defesa também sustenta que as meninas recebem acompanhamento complementar de outros professores, incluindo um docente residente em Portugal, e são incentivadas constantemente à leitura e ao aprofundamento acadêmico.

Ainda segundo a mãe, uma das filhas obteve destaque em um curso de inglês do Kumon após concluir o programa oito anos antes do prazo previsto.

Projeto sobre homeschooling segue parado

O caso ocorre em meio à indefinição jurídica sobre o ensino domiciliar no país. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a prática não é incompatível com a Constituição, mas entendeu que sua aplicação depende da criação de uma lei federal específica.

Atualmente, o principal texto sobre o tema é o Projeto de Lei 1.338/2022, aprovado pela Câmara dos Deputados e enviado ao Senado. A proposta estabelece regras para a educação domiciliar, mas segue parada na Comissão de Educação, sem previsão para votação.

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