“The Fake Judge”: o que diz o documentário contra Alexandre de Moraes - Claudio Dantas
Brasília, Sábado, 11 de julho de 2026
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“The Fake Judge”: o que diz o documentário contra Alexandre de Moraes

Alexandre de Moraes reclamando das redes sociais. Foto: Reprodução/The Fake Judge
Alexandre de Moraes reclamando das redes sociais. Foto: Reprodução/The Fake Judge

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Se o Brasil fosse um país que salvaguarda a liberdade de expressão plena, o documentário The Fake Judge, devassa sobre o ministro Alexandre de Moraes produzida pelo jornalista português Sérgio Tavares, alcançaria por aqui um grande público sem grandes consequências para quem o produziu.

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Como não é o caso, é quase certo que, se Tavares fosse brasileiro, seria punido. O jornalista, contudo, já sentiu na pele, em fevereiro de 2024, o que significa publicar coisas incômodas para as autoridades brasileiras. Ele foi detido no Aeroporto de Guarulhos para um interrogatório de quatro horas, com natureza política: os policiais o pressionaram a respeito de suas opiniões sobre ministros do Supremo, as vacinas e sua alegação de que o Judiciário teria implantado uma ditadura no país.

O título do filme vem de tweets de Elon Musk, que chamou Moraes várias vezes de juiz falso (fake judge) em 2024. “Há cada vez mais indícios de que o juiz falso @Alexandre se engajou em interferência eleitoral séria, repetida e deliberada nas últimas eleições presidenciais do Brasil”, publicou o bilionário em 1º de setembro daquele ano, um dia após o bloqueio de sua rede social X em todo o território brasileiro por ordem de Moraes.

Mas Tavares vai muito além de Moraes. O plano de José Dirceu de tomar o poder, “o que é diferente de ganhar eleições”, é exposto junto à sanha de décadas de Luiz Inácio Lula da Silva de “regulamentar a mídia”, o que foi expandido para “mídia social” conforme as redes sociais fortaleceram a direita. Tavares também critica a Globo e mostra imagens da redação do Jornal Nacional comemorando a vitória de Lula em 2022.

O conteúdo do documentário

Com duração de quase duas horas e meia, o documentário é narrado em inglês em voz gerada por inteligência artificial, com muitos clipes e capturas de tela de reportagens da imprensa brasileira. Há também imagens do próprio Tavares, como uma entrevista coletiva com o ex-presidente Jair Bolsonaro e entrevistas com pessoas consultadas em viagens a dez países.

A torrente de acontecimentos e interpretações é quase excessiva para assistir em uma única sessão. O documentário não dá pausa para respirar. Isso é um sinal da diligência e atenção para detalhes do autor.

Tavares chegou a viajar para a Alemanha e para a Índia, por exemplo, com o intuito de entender por que as cortes constitucionais desses países declararam o voto completamente eletrônico inconstitucional, o exato oposto do que fez o STF no Brasil.

O problema não é que urnas eletrônicas não possam ser seguras, mas que a apuração precisa ser pública, explicou Till Jaeger, advogado alemão que atuou no caso e foi entrevistado por Tavares. A natureza pública das eleições é “parte do princípio da democracia, da República e do Estado de direito”, explicou em entrevista. É o mesmo argumento do jurista e procurador brasileiro Felipe Gimenez, entrevistado para o documentário e por este portal.

Tavares também entrevista Sy Quraishi, ex-chefe da Comissão Eleitoral da Índia. O país produz urnas eletrônicas comparáveis às brasileiras para o Butão, mas em seu próprio solo foi banido o voto sem o VVPAT — sigla em inglês para Registro Impresso do Voto Verificado pelo Eleitor. Não é um recibo que o cidadão leva para casa, mas um voto impresso que é depositado em uma urna física acoplada à máquina, que é acionada em amostragem aleatória para auditoria. O VVPAT traz “transparência para todo o processo, algo que falta no Brasil”, diz o documentário.

A principal vantagem do documentário é rememorar os principais acontecimentos da história recente no Brasil, de um ponto de vista de direita. A conclusão de que há uma parceria profana entre a esquerda e o Judiciário, inclusive a Justiça eleitoral, com consequências negativas para a direita, é simplesmente verdadeira. E Moraes, embora tenha enfrentado a resistência da esquerda quando indicado por Michel Temer em 2017 para o STF, faz parte desse fenômeno de conchavo entre o Judiciário e o Executivo federais.

A parte final do documentário trata do 8 de Janeiro, com detalhes. As suspeitas levantadas por conta dos repetidos avisos ignorados pelas autoridades, e pelo sumiço das imagens do Ministério da Justiça de Flávio Dino, além do comportamento estranho do Gabinete de Segurança Institucional, são perfeitamente legítimas e até hoje não respondidas.

“O 8 de Janeiro foi uma catarse”, diz com precisão o experiente jornalista Alexandre Garcia, um dos entrevistados. “Parece que aproveitaram o movimento para tirar partido disso”. Com quase 75% do tempo do governo Lula 3 já decorridos, o evento continua sendo uma das principais apostas narrativas do petismo contra a oposição. Foi um grande presente.

O diferencial de Tavares, mais uma vez, é o quão detalhista e diligente ele é: oferece entrevistas com diversos brasileiros que estavam presentes nos eventos e precisaram fugir do país para evitar os arbítrios de Moraes e do STF.

Um filme ousado

A mesma ousadia que leva Tavares a tratar de assuntos que poucos jornalistas brasileiros ousariam discutir, contudo, às vezes o induz ao erro. O filme começa com uma história de bastidores que todo jornalista brasileiro já ouviu, mas nunca conseguiu confirmar, envolvendo Moraes, o ex-presidente Michel Temer e a ex-primeira-dama.

Tavares reconhece que só Moraes e Temer sabem o que exatamente aconteceu. Há bons motivos pelos quais a maioria dos jornalistas prefere manter histórias não confirmadas fora de suas publicações: rumor não é sinônimo de notícia.

Mais ousadamente, o documentário afirma que a atual primeira-dama Janja teria “ligações à prostituição no passado” e vê a captura de tela do filho do presidente no WhatsApp, xingando-a com uma palavra de baixo calão relacionada à prostituição, como algo que “parece confirmar isso”. A mensagem dificilmente serve como indício.

Tavares, embora geralmente use um vocabulário cuidadoso, dá crédito demais às alegações do jornalista argentino Fernando Cerimedo sobre “anomalias” na apuração dos votos nas eleições de 2022. O argumento é que urnas produzidas antes de 2020, mais antigas, deram vantagem de 52% a Lula, enquanto as urnas mais novas deram vitória a Bolsonaro por 51% dos votos.

Esse argumento já foi respondido: trata-se de uma correlação espúria. Bolsonaro tinha vantagem em grandes centros urbanos e as regiões mais economicamente desenvolvidas do país, para onde as urnas mais novas são distribuídas primeiro, e Lula tinha vantagem na região rural e áreas mais pobres, que demoram mais para atualizar suas máquinas.

Era um fenômeno sociológico do eleitorado, não tecnológico. Não é à toa que agora, pensando em reeleição, Lula esteja lançando cada vez mais programas populistas para os brasileiros de renda mais baixa: está reforçando sua base eleitoral, quase uma compra de votos.

“As urnas eletrônicas sem recibos em papel foram fundamentais para a consumação do plano”, afirma Tavares. O jornalista chama o tal plano de “golpe eleitoral”, que teria sido aplicado por uma parceria entre a imprensa e o Judiciário.

Tavares, contudo, reconhece que “a fraude nunca pôde ser provada”.

São muitas informações, talvez demais

Falta foco ao documentário de Tavares. É compreensível o impulso de querer informar ao público sobre todo mínimo detalhe. Mas, por exemplo, é realmente importante que, em um documentário sobre Moraes, seja mencionado que artistas que antes acusavam Bolsonaro de queimar a Amazônia agora estão em silêncio sobre os recordes das queimadas durante o governo de Lula, enquanto enchem seus bolsos com a Lei Rouanet? Não é novidade para brasileiros de direita, e serve como uma distração do tema central.

No cômputo final, falta moderação e equilíbrio ao texto de Tavares no documentário. Não é um problema de ter uma linha editorial de direita, mas de dar crédito a todo tipo de rumor que favoreça um lado e faça o outro parecer ainda pior. É realmente uma pena, pois a atenção aos detalhes e o trabalho duro de Tavares poderiam ter rendido um produto que pudesse ter um apelo a um público maior.

Em vez de ganharmos um documentário com mais detalhes sobre Moraes, por exemplo sobre sua carreira de promotor, sua empresa Lex e sua esposa Viviane Barci — ambas sancionadas —, ou que trate de como os provedores de internet lutaram para implantar uma censura sem precedentes há um ano, com o banimento do X; ganhamos algo que parece um rascunho bruto ao qual faltou o olho de um editor. E, em alguns casos, o olho de um checador de fatos.

Tavares é um veterano da cobertura internacional. No passado, cobriu in loco o Timor-Leste. Sua detenção em Guarulhos foi um escândalo que ajudou a deixar mais claro para onde está indo o Brasil, sob um regime de exceção, uma juristocracia instalada com seis anos e seis meses de um inquérito inconstitucional, uma ditadura que se traveste de democracia e de normalidade, e passa em si mesma um fino verniz de legalidade. Devemos agradecê-lo por seu interesse e envolvimento. Mas podemos pedir um pouco mais de cuidado.

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