Aposentados da Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ) expressaram à CNN Brasil preocupação com os desdobramentos recentes que envolvem o fundo de pensão, temendo que seus direitos possam estar em risco.
Entre janeiro e novembro de 2024, o fundo registrou um déficit de R$ 14 bilhões, o que levou o Tribunal de Contas da União (TCU) a colocar a gestão da Previ sob auditoria, a fim de investigar as causas do rombo.
Em resposta à auditoria, a Previ afirmou que seus planos estão equilibrados, ressaltando que não há “risco de equacionamento, nem de pagamento de contribuições extraordinárias pelos associados ou pelo Banco do Brasil (BB)”.
Apesar disso, Edvaldo Sebastião de Souza, aposentado de 65 anos, vê o cenário com preocupação. “Pode ser uma evidência de más decisões de investimentos e de influência externa na gestão da Previ, a exemplo do passado”, disse à emissora.
Souza é uma das lideranças do movimento de aposentados da Previ e signatário de um manifesto em defesa da auditoria do TCU. Ele afirmou ainda que “todo controle externo que possa auxiliar a aperfeiçoar a gestão da Previ é ou deveria ser sempre bem-vindo pelos participantes. Entendemos que o ministro Walton Alencar Rodrigues acertou em sua decisão. Tenho certeza de que a grande maioria dos participantes aplaudiu essa iniciativa do TCU”.
Francisco Reinoldo Schwarz, aposentado desde 2015 e contribuinte desde 1974, também se mostrou cético quanto ao futuro da Previ, mesmo com as declarações de estabilidade do fundo. “Esses fatos acenderam a luz vermelha para o risco de um Plano de Equacionamento de Déficit [PED]”, observou, lembrando-se de crises vividas por outros fundos de pensão.
Em nota, a Previ reafirmou à CNN que não há risco de suspensão de pagamentos ou necessidade de contribuições extraordinárias. “Em 120 anos de história, a Previ nunca precisou acionar planos de equacionamento. Ao contrário, teve sucessivos superávits, que permitiram a distribuição de R$ 25 bilhões entre 2006 e 2013 – valores que, atualizados, ultrapassariam R$ 45 bilhões – em benefícios aos associados”, afirmou o fundo.
A situação da Previ reacende memórias de dificuldades enfrentadas por outros fundos de pensão, como o Postalis (Correios), Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa Econômica Federal), que precisaram de recursos extras de beneficiários e da União para cobrir déficits e garantir a continuidade de seus pagamentos.
“[Me senti] muito mal [com os equacionamentos], não só pelo prejuízo e pela redução do valor da complementação da aposentadoria, mas também por saber que estava pagando por um rombo que não fui eu que causei”, declarou Paulo Édison Tocchetto, contribuinte do Postalis desde 1981. “A situação atual na Previ, com a nomeação de representante partidário e não técnico para a presidência, já antevia o que iria acontecer, ou seja, o mesmo que aconteceu nas gestões anteriores dessa linha partidária. Só com eles que os fundos dão prejuízo”, acrescentou Tocchetto.
O aposentado dos Correios teme que a situação se repita em outros fundos de pensão, caso continue a prática de indicações de gestores “sem compromisso nem capacidade para o cargo” por motivações políticas.
Rafael Zattar, professor de finanças e fundador da Carteira Z, explicou que, embora o rombo da Previ não afete diretamente outros fundos de pensão – já que cada um possui sua própria gestão e carteira de investimentos –, ele pode gerar efeitos indiretos. “Esse rombo pode mexer bastante com o setor de previdência complementar, porque um buraco desse tamanho num dos maiores fundos do país acende um alerta para todo o sistema”, afirmou o analista financeiro.
Segundo Zattar, a principal consequência será uma preocupação crescente com a gestão dos fundos de pensão como um todo, além de um possível impacto na confiança dos participantes. “Muitos aposentados e trabalhadores que contribuem para esses fundos podem ficar inseguros ao ver um rombo desse tamanho na Previ”, concluiu.
