“Pesquisadora” está chocada que anos de lacração não diminuíram o machismo. Talvez tenham aumentado - Claudio Dantas
Brasília, Sábado, 27 de junho de 2026
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“Pesquisadora” está chocada que anos de lacração não diminuíram o machismo. Talvez tenham aumentado

Laura Bates, ativista britânica fundadora do projeto "Everyday Sexism", em 2023. Foto: Edwardx.
Laura Bates, ativista britânica fundadora do projeto "Everyday Sexism", em 2023. Foto: Edwardx.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Não adiantou a revista Nature ter publicado, há um ano, um artigo de revisão mostrando que demonizar os algoritmos pela popularidade de posturas que alguns desaprovam simplesmente não faz sentido.

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O grupo político dos “progressistas” insiste na tese de que, se homens jovens reagem a um movimento que os chama repetidamente de “tóxicos” com desprezo, por exemplo, isso é inaceitável e é culpa dos algoritmos.

É o caso da “escritora e pesquisadora” inglesa Laura Bates, que disse à BBC que “pela primeira vez na História e em diferentes estudos, as atitudes mais misóginas, antiquadas e obsoletas em relação às mulheres e às meninas se tornaram mais comuns entre jovens do sexo masculino”.

Ela não diz exatamente qual é a amostra ou o tempo de comparação para a afirmação tão generalizante, mas soa plausível que hoje mais críticas contra o feminismo (que ela provavelmente classifica como “misoginia”) sejam encontradas entre homens mais jovens do que entre homens mais velhos.

Bates é uma veterana do feminismo e do identitarismo. Seu blog de denúncia esteve ativo antes, durante e depois do auge do #MeToo (denúncias às vezes difamatórias de assédio e estupro via redes sociais) e do woke. Todo o establishment está do lado dela. Logo, o diagnóstico é claro: esse ativismo não evitou o resultado que ela agora deplora.

Alegações de Bates e fatos que as põem em xeque

Militante experiente, Bates é uma contumaz repetidora de mitos populares entre ativistas da esquerda. Seguindo a obsessão atual dessa tribo política de culpar redes sociais por todo tipo de mazela, ela alega que os algoritmos estão expondo meninos de 14 anos, no TikTok por exemplo, a conteúdo supostamente machista como a afirmação de que há muitas mulheres que usam acusação falsa de estupro contra homens.

Há estudos indicando que a porcentagem das acusações falsas é baixa, menos de 10% dos casos, mas há um relato de uma psicóloga especializada em litígios, Glícia Barbosa de Mattos Brazil, de 2012, com base em 13 varas de família do Rio de Janeiro, alegando que podem chegar a 80%. A solução para a alegação é investigar e chegar a estimativas melhores, não botar a culpa no algoritmo por veicular a informação porque ela é inconveniente para a narrativa feminista. O que fica aparente na acusação contra algoritmos é uma vontade de censura, uma mania autoritária do progressismo moderno, para tentar ganhar adeptos de suas ideias pela manipulação de estruturas de interação social.

A ideia de misoginia generalizada de Bates foi respondida com detalhes pelo jornalista científico John Tierney, no texto de 2023 intitulado “O mito da misoginia” (confira aqui). Tierney cita, por exemplo, um estudo que mostrou que a maior parte das pessoas, na verdade, tem uma disposição pró-mulheres e anti-homens. Isso não é novo: foi chamado de efeito “mulheres são magníficas” em estudos anteriores.

Quanto aos algoritmos, o que o estudo da Nature diz é que “a demanda do público, não os algoritmos, é o fator mais importante na exposição ao conteúdo falso e extremista”. Não é o algoritmo que cria extremistas, são os extremistas que criam e consomem conteúdo extremista.

A ativista britânica insiste que as mulheres são alvos de discriminação sistemática. Tierney responde que elas atingiram paridade no ambiente acadêmico com os homens, por exemplo, por volta do ano 2000. Agora, estão super-representadas, ao menos no mundo desenvolvido. Nos EUA, já superaram os homens em obter diploma universitário desde 1982. Têm maior expectativa de vida e benefícios sociais.

Finalmente, temos alguns estudos sugerindo que não só o feminismo identitarista que tomou as redes sociais e as instituições no Ocidente na última década não evitou que os homens jovens ficassem cada vez mais antipáticos a esse ativismo (o que na percepção dos ativistas é igual à misoginia, o que é questionável), mas também pode ter contribuído como causa de maior desconfiança.

Como concluiu uma pesquisa do ano passado da Universidade Rutgers, as mensagens da política identitária “aumentam a suspeição racial, as atitudes preconceituosas, o policiamento autoritário e o apoio a comportamentos punitivos”. O estilo de ativismo antipreconceito mais praticado hoje ajuda a fomentar os preconceitos que os ativistas alegam que pretendem combater.

Dados mostram que os jovens estão se polarizando em países ricos tão diferentes quanto Coreia do Sul, Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido. As moças estão cada vez mais extremas em seu progressismo e os rapazes estão cada vez mais extremos em se opor a esse progressismo. Bates, portanto, está observando algo real: a rejeição dos homens jovens à mensagem identitária. Mas seu ativismo incentiva esse fenômeno, não o combate.

Blog da “pesquisadora” ignora um dos principais problemas de misoginia em seu próprio país

Coloquei “pesquisadora” entre aspas porque o real histórico de Laura Bates é de ativista. Ela mantém o blog Everyday Sexism (“Sexismo Diário”) há anos, que vive de coletar evidências anedóticas de machismo. O blog não tem atualização desde 23 de setembro de 2024. A última postagem foi de uma anônima que se identificou como “Lily” e reclamou de um caso de garotas de 12 anos cuja atenção foi chamada na escola por usarem meias que causavam muita “distração”. “Não estamos mais em tempos vitorianos”, reclama Lily.

Na capital do país de Bates, Londres, a forma mais comum de submissão feminina que se vê pelas ruas é a imposição da burca por vertentes mais duras do islã. O blog da ativista dá atenção ao problema? Eis a resposta: entre mais de 200 mil publicações de denúncia, procurei por todas que mencionassem “burca”. Somente 22 foram encontradas.

Dessas, somente uma critica explicitamente homens muçulmanos pela prática. A publicação trata do caso de quando o Diretório de Assuntos Religiosos da Turquia (Diyanet), em 2017, teria criticado uma mesquita liberal da Alemanha por ter banido as burcas e eliminado a tradicional segregação de gênero. O caso é verdadeiro e a mesquita se chama Ibn Rushd-Goethe. A organização religiosa disse que a inovação liberal “não se alinha com as fontes fundamentais do islã” e que “tem o objetivo de depravar e arruinar a religião”.

Não parece ser um assunto que preocupa muito a “pesquisadora”. Para ela, o algoritmo do YouTube e meias de meninas de 12 anos são um assunto muito mais sério. Não é só no blog. Fiz uma pesquisa ampla. Bates nunca abriu a boca publicamente para criticar a imposição da burca. Pelo contrário, ela já se pronunciou sobre o crime de assédio cometido por alguns de remover véus de muçulmanas à força, mas só isso neste assunto específico.

A conta acima sobre o conteúdo do blog foi feita pela avançada inteligência artificial do ChatGPT o3. Inicialmente, o modelo se recusou a fazer a conta. Quando eu o acusei de viés político e de dificultar meu trabalho de apuração jornalística, ele reconsiderou e contou as publicações para mim. A hesitação é bem familiar: o padrão de quase toda inteligência artificial é de viés progressista, a favor dos dogmas de Bates.

Mas ela insiste no contrário: ela alegou, em entrevista para um podcast da BBC, que a inteligência artificial vai “arrastar meninas e mulheres de volta à idade das trevas”. Eu tenho uma sugestão de qual força no mundo é mais provável de conseguir fazer isso. Mas jamais vai aparecer no blog da ativista britânica.

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