Esquema bilionário envolve importação de combustíveis em paraísos fiscais
Em dois endereços de São Paulo, a força-tarefa apreendeu mais de R$ 2 milhões em espécie, além de oito sacos com esmeraldas brutas, avaliados em cerca de R$ 11 mil cada. O material estava em uma empresa em Campinas.
A ação cumpriu mandados de busca e apreensão contra 190 pessoas e empresas suspeitas de integrar a engrenagem financeira que, segundo a Receita Federal, movimentou R$ 70 bilhões em apenas um ano.
O grupo teria utilizado importadoras próprias, fundos de investimento e empresas offshore em paraísos fiscais para ocultar lucros e dificultar o rastreamento.
De acordo com a investigação, a fraude começava ainda nos portos: importadoras ligadas ao grupo declaravam gasolina como outros derivados do petróleo, sujeitos a impostos menores. Entre 2020 e 2025, mais de R$ 32 bilhões em combustíveis foram adquiridos dessa forma.
O Ministério Público aponta que o núcleo da operação era a refinaria no Rio de Janeiro, cercada por empresas responsáveis por tecnologia, jurídico, importação, formulação de combustíveis, distribuição e até fintechs. O objetivo: beneficiar um núcleo familiar ligado à Refit.
Os investigadores destacam que não foram identificados indícios de atuação de facções criminosas no esquema.
Com sede no Rio, a Refit opera nacionalmente. Por isso, as buscas ocorreram em Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal. A empresa é considerada o maior devedor de ICMS de São Paulo, o segundo maior do Rio e um dos maiores da União.
A Agência Nacional do Petróleo (ANP) já havia interditado a refinaria após detectar irregularidades em combustível importado e no processo de refino. Em outubro, a Justiça do Rio autorizou a reabertura, mas o presidente do STJ, Herman Benjamin, voltou a determinar a suspensão das atividades dois dias depois.
A Receita ainda identificou sonegação em formuladoras, distribuidoras e postos de combustível ligados ao grupo, que também tinham valores omitidos nas etapas posteriores da cadeia.
A Refit teria criado dezenas de empresas e fundos para ocultar o destino final dos valores. Inicialmente, 17 fundos foram detectados, somando R$ 8 bilhões em patrimônio.
Depois, o número subiu para cerca de 50. Muitos estavam sediados em paraísos fiscais, como Delaware, nos Estados Unidos.
Havia ainda substituição constante de sócios das empresas, estratégia que, segundo os investigadores, dificultava o rastreio das operações.
Até a última atualização desta reportagem, a defesa da Refit não havia se manifestado sobre a operação desta quinta-feira.
Em nota divulgada em setembro sobre outra ação da ANP, a empresa afirmou que sempre atuou de forma legítima, negou operar como fachada e alegou que a interdição seria “arbitrária”. Disse ainda empregar 2.500 funcionários e manter padrões de qualidade auditados.
A operação Poço de Lobato é coordenada pelo Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos do Estado de São Paulo (Cira-SP) com apoio da Receita Federal, Ministério Público, secretarias de fazenda e forças policiais.
