Vídeo em que Jair Bolsonaro admite o uso de ferro de solda para tentar abrir tornozeleira é melancólico
Por José Andrés Lopes da Costa*
A pergunta, direta e quase doméstica, atravessou as manchetes. A resposta, tímida e envergonhada, expôs algo mais profundo do que um ato ilegal. Expôs a confrontação cruel de um homem com a própria decadência. Não é preciso defendê-lo para sentir o peso desse momento. Jair Bolsonaro pode ser culpado pelos crimes que lhe atribuem. A Justiça deve decidir com a frieza que lhe cabe. Ainda assim, o episódio é melancólico.
Há uma violência silenciosa na cena. Não no interrogatório em si, mas no contraste entre quem ele foi e o que ali se revela. A velhice chega com uma honestidade brutal. O desgaste moral e físico se torna visível mesmo quando tentamos ocultá-lo. E quando uma figura que durante anos se apresentou como invulnerável é confrontada com seu próprio limite, algo humano se quebra diante dos nossos olhos.
Muitas pessoas verão apenas o fato jurídico. Outras verão motivo de celebração ou de lamento político. Mas há um terceiro olhar possível, mais raro e, talvez, mais necessário: o olhar que reconhece a precariedade da condição humana. O poder é sempre transitório. A força pública é sempre encenação. Na intimidade das quedas, porém, não há máscara. Há apenas um homem velho, constrangido, tentando explicar um gesto que o diminui.
O Direito precisa punir, mas não precisa ser cego. A lei organiza o mundo, mas não o exaure. Existe uma dimensão ética que não absolve, mas compreende. A justiça não se torna fraca quando reconhece que, por trás do réu, há alguém que também envelhece, também teme, também se vê reduzido a versões menores de si mesmo.
A cena não reescreve a história de um homem nem atenua o que deve ser julgado. Apenas recorda uma verdade antiga: todos, cedo ou tarde, somos confrontados com nossa própria vulnerabilidade. E talvez a verdadeira maturidade esteja em não perder a capacidade de enxergar humanidade até mesmo onde menos esperaríamos encontrá-la.
Não é sobre política, é sobre o espelho da condição humana em que todos nós, cedo ou tarde, seremos forçados a nos olhar. O linchamento moral de qualquer ser humano, concorde-se ou não com seus atos, me comove e me enche de melancolia.
*José Andrés Lopes da Costa, advogado, professor e mestre em Direito Tributário Internacional e Desenvolvimento.
