O Novo Xadrez Geopolítico: Trump-Vance, Europa e o Desafio da China - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Análises Críticas

O Novo Xadrez Geopolítico: Trump-Vance, Europa e o Desafio da China

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Por Leonardo Correa

Advogado

Por Leonardo Corrêa*

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A recente entrevista de Niall Ferguson ao Hoover Institution, conduzida por Peter Robinson, trouxe uma análise estratégica profunda sobre o estado atual da geopolítica global. Ferguson, um dos mais brilhantes historiadores da atualidade, delineia com precisão as tensões entre a guerra na Ucrânia, a ascensão da China e o papel dos Estados Unidos nesse tabuleiro. Ao acompanhar sua exposição, vejo com satisfação que muitas das ideias que defendi encontram eco em sua leitura dos desafios contemporâneos.

Analisando a guerra na Ucrânia, Ferguson aponta que a administração Trump-Vance, diferentemente de seus antecessores, adotou uma postura que busca forçar os europeus a assumirem maior responsabilidade por sua própria defesa, uma mudança de paradigma que ecoa as tensões latentes nas relações transatlânticas. Essa abordagem rompe com o modelo tradicional, no qual os Estados Unidos arcavam sozinhos com a defesa do Ocidente, enquanto os europeus se beneficiavam sem grandes custos. Ferguson argumenta que essa estratégia pode ser a única forma realista de pressionar a Europa a assumir um papel mais ativo e reduzir sua dependência histórica de Washington.

A fragilidade da postura europeia no campo da defesa foi um dos temas centrais da entrevista, com Ferguson destacando as tensões transatlânticas e o impacto da política da administração Trump-Vance na relação entre EUA e Europa. Peter Robinson introduz a discussão ao citar Irving Kristol, nos anos 1980, que argumentou que a dependência europeia dos EUA corroeu sua vontade política. Como Robinson destaca ao citar Kristol: “…a dependência corrompe e a dependência absoluta corrompe absolutamente. Na medida em que a Europa tem dependido dos Estados Unidos, a vontade europeia tem sido corrompida e a vitalidade política europeia tem diminuído.” No entanto, a análise de Ferguson vai além da mera constatação da passividade europeia. Ele destaca como a administração Trump-Vance, ao adotar uma postura mais assertiva e exigir que os europeus assumam maior responsabilidade por sua própria defesa, reacendeu debates antigos sobre a necessidade de uma Europa mais autônoma em termos de segurança. Ferguson aponta que essa mudança de paradigma, embora controversa, pode levar a uma Europa mais forte e resiliente no longo prazo, desde que os líderes europeus estejam dispostos a enfrentar os desafios e a superar a inércia que os paralisa há décadas.

O rearmamento da Alemanha, impulsionado pelas mudanças no cenário geopolítico, também se destaca na análise de Ferguson. Ele observa que a decisão alemã de aumentar significativamente seus gastos com defesa representa uma mudança sísmica na política europeia e um revés estratégico para Putin. Ferguson argumenta que esse movimento não apenas fortalecerá a capacidade militar da Alemanha, mas também terá um impacto profundo na economia europeia e na dinâmica de poder global. A Alemanha, historicamente relutante em assumir um papel de liderança militar, agora se encontra em uma posição de influência crescente. Ferguson sugere que esse rearmamento, aliado à postura mais assertiva da administração Trump-Vance, pode servir como um catalisador para uma Europa mais autônoma e resiliente, capaz de enfrentar os desafios do século XXI com maior confiança.

A condução do conflito na Ucrânia, notadamente a postura de Zelensky em suas demandas ao Ocidente, emergiu como um ponto de inflexão na entrevista de Ferguson, que detalhou o tenso encontro entre o presidente ucraniano e a administração Trump-Vance. Segundo Ferguson, o episódio no Salão Oval revelou divergências agudas: Zelensky, ao buscar amplificar o engajamento americano, teria insistido em dirigir-se à imprensa, contrariando protocolos. Em resposta, o vice-presidente JD Vance proferiu duras críticas, acusando Zelensky de ingratidão, enquanto Trump reiterava sua prioridade em buscar uma solução pacífica, afastando a hipótese de um envolvimento militar direto dos EUA. Ferguson, ao analisar o evento, sublinha a escalada das tensões transatlânticas e a crescente disparidade de visões sobre a estratégia a ser adotada na Ucrânia. Para o historiador, a insistência em prolongar o conflito, desprovida de um plano de ação claro, culmina no enfraquecimento da posição ocidental e no agravamento da crise humanitária na Ucrânia.

A questão da Rússia e seu papel na nova ordem global também é central na análise de Ferguson. Diferentemente da narrativa predominante, ele argumenta que Moscou não pode mais ser tratada como uma ameaça comparável à União Soviética. A grande disputa geopolítica de nosso tempo não é mais entre EUA e Rússia, mas entre EUA e China. Assim como venho defendendo, Ferguson destaca que o maior perigo para o Ocidente não é a agressividade russa em si, mas sim a possibilidade de uma aliança inquebrantável entre Moscou e Pequim. O objetivo estratégico central, portanto, deveria ser evitar que a Rússia caia completamente na órbita chinesa.

A ascensão militar chinesa é outro ponto crítico da entrevista. Ferguson alerta que Xi Jinping pode ver este momento como uma oportunidade irresistível para agir em Taiwan, ainda que não por meio de uma invasão direta. Em vez disso, a China pode adotar estratégias assimétricas e sutis que tornarão difícil uma resposta americana eficaz. A vantagem chinesa na capacidade de construção naval é um fator crítico nessa equação. Peter Robinson destaca a magnitude dessa diferença ao citar um relatório do Departamento de Defesa dos EUA: “A China agora lança mais navios de guerra em um único ano do que os Estados Unidos em quatro ou cinco.” Ferguson complementa essa análise ao afirmar que o futuro dos conflitos será definido por avanços tecnológicos, como drones e inteligência artificial. Esse é um alerta que fortalece o argumento de que os Estados Unidos precisam urgentemente reavaliar suas prioridades estratégicas, pois sua vantagem histórica não é mais garantida.

As ações da administração Trump-Vance são um exemplo claro da realpolitik em ação. Enquanto governos anteriores operavam sob a premissa de que manter relações amistosas com aliados era sempre a melhor opção, Trump e Vance demonstram que, em certos momentos, o choque e a disrupção são necessários para preservar os interesses da nação. Essa abordagem rompe com décadas de diplomacia convencional e impõe um novo paradigma na forma como os EUA interagem com aliados e adversários. Ferguson observa que, se essa estratégia falhar, a ausência de uma base moral para sustentá-la se tornará imperdoável. No entanto, se bem-sucedida, pode redefinir completamente a geopolítica global.

O custo da dívida americana, um ponto crucial levantado por Ferguson na entrevista, emerge como um sinal de alerta urgente. Como Robinson menciona ao citar a chamada “Lei de Ferguson”: “…qualquer grande potência que gaste mais no custo da dívida do que na defesa corre o risco de deixar de ser uma grande potência.” Essa observação ressoa fortemente com uma preocupação que já expressei antes. Se uma nação perde a capacidade de sustentar seu próprio poder militar devido ao peso da dívida, sua posição geopolítica inevitavelmente se deteriora. Ferguson diagnostica essa realidade com precisão cirúrgica, alertando para o fato de que os Estados Unidos já ultrapassaram esse limiar no último ano.

Por fim, Ferguson traça um paralelo entre os Estados Unidos de hoje e o Império Britânico dos anos 1930, sugerindo que, caso uma Terceira Guerra Mundial ecloda, não há um único jogo de guerra que preveja uma vitória americana. Esse alerta é inquietante, pois reforça uma ideia que defendo há tempos: o Ocidente não pode contar com a inevitabilidade do seu sucesso, e, no meu modo de ver, os valores da Civilização Ocidental — que vêm sendo ignorados — revelam-se cruciais. A história não segue um caminho predeterminado. Civilizações entram em colapso quando perdem a capacidade de se adaptar às novas realidades do poder. Ferguson ilustra isso com maestria, deixando claro que as decisões tomadas nos próximos anos definirão se os Estados Unidos e seus aliados continuarão a liderar o mundo ou se seguirão o caminho de outros impérios que sucumbiram à complacência.

A administração Trump-Vance, até o momento, tem cumprido as promessas feitas a seus eleitores, sem grandes desvios de rumo. Ferguson, ao analisar sua política externa, evita julgamentos precipitados e concede o benefício da dúvida à estratégia geopolítica adotada. O historiador observa que a postura assertiva e a abordagem disruptiva do governo americano, embora inicialmente chocantes para alguns aliados, podem ser necessárias para reconfigurar o equilíbrio de poder global. Um sinal dessa abertura ao debate foi a interação de Ferguson com JD Vance na plataforma X, onde trocaram ideias sobre política externa. Essa troca demonstra que, apesar das críticas, a administração Trump-Vance está disposta a ouvir diferentes perspectivas e ajustar sua estratégia conforme necessário. Ferguson reconhece que o tempo dirá se essa abordagem será bem-sucedida, mas enfatiza que, ao menos, representa uma tentativa de romper com a complacência e enfrentar os desafios do século XXI com maior realismo.

O que mais me impressiona na análise de Ferguson é sua capacidade de sintetizar padrões históricos com uma leitura rigorosa do presente. Enquanto muitos analistas ainda tentam interpretar os eventos contemporâneos com os mesmos esquemas mentais da Guerra Fria, ele oferece uma abordagem muito mais sofisticada e adaptada à realidade atual.

Se há algo que aprendi com essa entrevista, é que muitas das preocupações que venho expressando estão de fato ancoradas em tendências históricas que não podem ser ignoradas. Saber que, talvez por instinto, cheguei a algumas conclusões semelhantes à de um historiador do calibre de Ferguson é um sinal de que pareço estar no caminho certo. Se há uma lição clara que podemos tirar da análise do historiador britânico, é que o Ocidente não pode se dar ao luxo de acreditar que sua posição no mundo está garantida. O tempo para agir — principalmente para a Europa — é agora.

*Leonardo Corrêa – Advogado, LL.M pela University of Pennsylvania, Sócio de 3C LAW | Corrêa & Conforti Advogados, um dos Fundadores e Presidente da Lexum

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