Por Leonardo Corrêa*
Não sou analista internacional, nem cientista político. Sou apenas um advogado curioso que, ao longo da vida, se debruçou sobre livros e artigos que me permitiram enxergar essa situação sob um prisma diferente. Minha intenção aqui não é apresentar uma verdade definitiva sobre o cenário geopolítico atual, mas compartilhar uma perspectiva fundamentada em leituras e reflexões. Não me encarem como um expert em relações internacionais, mas como alguém que busca compreender os fatos além das narrativas superficiais.
Em plena folia do Carnaval, preferi, como de costume, fugir dos foliões. Enquanto muitos se entregavam à festa, percebi que o filme Reagan estava disponível e resolvi assistir. Foi uma escolha certeira. Poucos líderes compreenderam tão bem o poder das ideias quanto Ronald Reagan, e o filme ilustra isso com perfeição. Ele não venceu a Guerra Fria apenas com poder militar ou manobras diplomáticas. Ele venceu porque soube comunicar os valores do Ocidente – liberdade, responsabilidade individual e livre mercado – de forma que ressoou dentro e fora da América.
Seu discurso em Berlim, exigindo a derrubada do Muro, simbolizou essa vitória. Mais do que um desafio a Gorbachev, foi uma afirmação da superioridade moral do mundo livre. A URSS ruiu porque seu modelo era insustentável. Reagan acelerou esse processo ao reafirmar, sem hesitação, que os EUA não fariam concessões a um regime contrário à natureza humana e aos princípios fundamentais de uma sociedade próspera.
A mídia tenta recriar essa narrativa hoje, colocando a Rússia no papel que antes foi da União Soviética. Mas essa comparação não se sustenta. A Rússia de Putin não é a URSS. Não há um império ideológico global, nem um modelo alternativo disputando corações e mentes no Ocidente. O erro está em transformar a Guerra da Ucrânia em uma nova Guerra Fria.
Samuel P. Huntington antecipou essa mudança em The Clash of Civilizations?, publicado em 1993. Ele argumentou que os conflitos do futuro não seriam mais travados entre ideologias, mas entre civilizações. Com o fim da Guerra Fria, o centro dos embates globais não estaria mais na disputa entre comunismo e liberalismo, mas nas tensões entre blocos culturais e religiosos. A rivalidade entre EUA e URSS era ideológica. Hoje, os conflitos seguem linhas civilizacionais, com o Ocidente enfrentando desafios que vão além da Rússia, incluindo o avanço da China e a expansão do islamismo radical.
Condoleezza Rice reforça essa análise em seu artigo The Perils of Isolationism, publicado na Foreign Affairs em 2024. Ela destaca que a Rússia, apesar das tensões com o Ocidente, tem laços culturais profundos com a Europa, algo que não ocorre com a China. Huntington já havia antecipado essa distinção ao afirmar que a Rússia pertence à civilização eslava-ortodoxa, enquanto a China segue uma lógica confucionista. Dessa forma, ao insistir em colocar Moscou como o grande inimigo do Ocidente, os progressistas ignoram a estrutura real do cenário geopolítico contemporâneo.
Apesar dessa diferença fundamental, o Ocidente insiste em tratar Moscou como a grande ameaça, enquanto ignora os riscos estratégicos reais. Esse erro se manifesta de forma clara na condução do conflito na Ucrânia. Zelensky não age como um líder em busca da paz. Ele prolonga o conflito, alimenta uma postura de hostilidade permanente contra Moscou e faz exigências crescentes ao Ocidente. Trump, ao exigir clareza nas condições de ajuda, fez o que era necessário. Colocou os interesses americanos em primeiro lugar. Isso não significa que tenha agido como aliado da Rússia, mas que compreende a nova configuração do mundo.
Kenneth Waltz, em Man, the State, and War, explica que as causas das guerras podem ser analisadas em três níveis: o indivíduo, o Estado e o sistema internacional. Muitos reduzem a guerra da Ucrânia ao primeiro nível, colocando a culpa exclusivamente em Putin, como se ele fosse um líder excepcionalmente agressivo e sua decisão fosse isolada de qualquer fator externo. No entanto, Waltz demonstra que os conflitos internacionais são moldados principalmente pelo sistema em que os Estados operam. Isso não significa justificar a invasão russa, com a qual não concordo, nem minimizar a responsabilidade de Putin. O ataque à Ucrânia é condenável, mas entender suas causas exige olhar além da narrativa simplista de que se trata apenas de um ditador expansionista desafiando o mundo livre.
A Rússia age dentro da lógica da anarquia internacional, buscando maximizar sua segurança e evitar ameaças externas, assim como qualquer grande potência faria em um ambiente sem uma autoridade global reguladora. Isso não torna suas ações legítimas, mas explica por que elas ocorreram. Essa perspectiva desmonta a visão moralista que trata Putin como um “novo Hitler”, ignorando os fatores estruturais que levaram ao conflito e a responsabilidade do próprio Ocidente na escalada das tensões na região.
Essa mesma distorção se reflete na maneira como o Ocidente conduz o apoio à Ucrânia. Em vez de buscar uma solução realista para o conflito, líderes ocidentais insistem em prolongar a guerra, muitas vezes ignorando as dinâmicas geopolíticas e tratando a resistência ucraniana como uma cruzada moral. O recente encontro entre Zelensky e Trump ilustra bem esse ponto. Durante a reunião, o presidente ucraniano insistiu em falar diretamente à imprensa, tentando reforçar a narrativa de que a Ucrânia defende toda a Europa e que os EUA deveriam se comprometer ainda mais. O vice-presidente JD Vance rebateu duramente, acusando Zelensky de ingratidão e desrespeito. O próprio Trump insistiu que a discussão deveria girar em torno de um acordo de paz, e não sobre a possibilidade de enviar soldados americanos para morrer em outro conflito estrangeiro.
Zelensky tentou equilibrar sua posição, alertando para o risco de uma escalada russa contra os Bálticos e a Polônia. Mas Trump não se deixou levar pela retórica alarmista. Ele sabe que o Ocidente já está envolvido até o pescoço nessa guerra e que um cheque em branco para Kiev só arrasta os EUA para um impasse sem fim.
O mais irônico é que os progressistas, que durante toda a Guerra Fria condenaram qualquer ação militar dos EUA, hoje são os maiores defensores de um confronto direto com Moscou. São os mesmos que gritavam contra a intervenção no Vietnã, que acusavam Reagan de belicismo ao fortalecer a OTAN e que denunciaram a Guerra do Iraque como um erro catastrófico. Agora, querem que os EUA se lancem em um conflito direto com uma potência nuclear, como se essa fosse uma escolha óbvia e moralmente obrigatória.
Enquanto a narrativa se prende ao passado, um perigo muito maior cresce. O progressismo, obcecado em desconstruir os valores da civilização ocidental, abriu espaço para o avanço do islamismo radical. Ayaan Hirsi Ali alerta para essa ameaça em Herege, denunciando a complacência do Ocidente com um movimento que não busca apenas influenciar a política, mas transformar a própria estrutura social e cultural do mundo ocidental. Ali mostra que o islamismo radical não é apenas um fenômeno isolado, mas parte de uma guerra civilizacional, exatamente como Huntington previa. O progressismo, ao se aliar a essa força destrutiva, enfraquece ainda mais o Ocidente, atacando suas próprias bases morais e políticas.
Se Reagan estivesse vivo hoje, não estaria preocupado apenas com Putin. Ele olharia para as instituições do Ocidente e, talvez, repetisse: “Derrubem este muro.” Mas, desta vez, seria o muro da hipocrisia que impede o mundo livre de enxergar quem realmente ameaça sua sobrevivência.
*Leonardo Corrêa – Advogado, LL.M pela University of Pennsylvania, Sócio de 3C LAW | Corrêa & Conforti Advogados, um dos Fundadores e Presidente da Lexum
