Mulheres negras denunciam alojamento em estábulos
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Brasil

Mulheres denunciam alojamento em estábulos durante marcha em Brasília

Mulheres denunciam que foram alojadas em estábulos durante a Marcha Nacional das Mulheres Negras em Brasília
Mulheres denunciam que foram alojadas em estábulos durante a Marcha Nacional das Mulheres Negras em Brasília. Imagem: Reprodução/Claudio Dantas

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Por Mariana Albuquerque

Jornalista e pós-graduada em Direito Legislativo.

Participantes relatam que foram levadas a baias de cavalos na Granja do Torto

Mulheres negras que viajaram de Santa Catarina para participar da 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras relataram que foram recebidas em condições que classificaram como indignas na Granja do Torto, em Brasília.

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Segundo os relatos, as participantes foram direcionadas para áreas utilizadas como baias e estábulos de cavalos. Vídeos e imagens divulgados nas redes sociais mostram serragem no chão, divisórias típicas de cocheiras, forte odor e forração improvisada com lonas.

As mulheres afirmam que a estrutura encontrada não correspondia às informações repassadas previamente, que indicavam alojamentos adequados para recepção das delegações.

Uma das participantes diz no vídeo:
“Este é o espaço ao qual foi designado para a Marcha Nacional das Mulheres Negras. Aqui é uma cocheira. Há serragem para esconder o cheiro. A gente sabe que, há menos de duas semanas, teve recepção aqui para venda de gado. Mulheres negras não podem ser tratadas assim.”

Outra afirmou:
“Não marchamos para repetir a lógica colonial. Receber mulheres negras em estábulos é uma violência simbólica e material.”

Segundo os relatos, os cavalos teriam sido retirados do espaço pouco antes da chegada das delegações. As denunciantes contestam a versão de que o local estaria desativado há meses e afirmam que a limpeza foi feita de forma apressada.

Ary Ramos, moradora de Santa Catarina, falou com a equipe do site e relatou que, embora já tenham deixado a capital nesta terça-feira, o grupo que enfrentou as falhas na estrutura do evento segue emocionalmente abalado. Segundo ela, muitas participantes ainda estão em estado de choque e têm dificuldade até para se comunicar.

“Algumas de nós nem consegue falar sem chorar, vamos nos estabilizar e voltar pra nossas famílias”, afirmou.

Ary relatou em suas redes na noite desta quarta-feira (26) que o grupo saiu de casa e percorreu longas distâncias para participar da marcha “em busca de reparação e dignidade, mas encontrou um cenário de descaso”. Segundo ela, a situação não foi um erro, mas uma forma de violência e humilhação, e acusou o comitê responsável de ignorar as denúncias.

“E o comitê responsável escolheu o silêncio, ignorou nossas denúncias, nossas dores e a nossa dignidade. Passamos horas sob estresse, indignação e revolta. Sofremos um tratamento que deixa marcas, que agride a mente, que tenta nos quebrar. Mas não conseguiram”, escreveu.

Relato de participante da Marcha Nacional das Mulheres Negras de 2025
Relato de participante da Marcha Nacional das Mulheres Negras de 2025. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Em nota publicada nas redes sociais, o perfil Juventude Ambientalista criticou a organização e afirmou que “a escravidão não acabou”. Participantes também rejeitaram a tese de falha de comunicação e apontaram “falta de respeito com a vida e a história das mulheres negras”.

Até o momento, a coordenação nacional do evento e o Ministério da Igualdade Racial não responderam aos questionamentos feitos pela equipe deste site.

Após a repercussão, algumas delegações teriam sido realocadas para um galpão. No entanto, relatos indicam que ainda havia mulheres instaladas nas áreas de estábulos.

A última noite também foi marcada por falta de energia devido a forte tempestade na região. Segundo as participantes, os espaços onde estavam alojadas não contavam com estrutura elétrica adequada.

O evento reúne negras de diversos estados e conta com apoio de entidades públicas, incluindo a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), além de organizações internacionais. De acordo com as denúncias, o Ministério da Igualdade Racial teria destinado cerca de R$ 1 milhão para a organização.

Entre os elementos que chamaram atenção das participantes do evento realizado na Granja do Torto está um moinho de açúcar, estrutura que, no período da escravidão, era operada por tração humana, principalmente por pessoas escravizadas. As mulheres denunciaram o objeto em publicações nas redes sociais, com imagens que mostram o equipamento parcialmente coberto por lonas pretas. Segundo as postagens, o moinho não seria apenas uma estrutura de madeira exposta no espaço.

“Ele é a materialização de um trauma histórico, um vulto que emerge no meio do gramado para lembrar tudo aquilo que o Brasil insiste em enfeitar, mas jamais reparar. Erguem-no como se fosse um elemento rústico, um detalhe cenográfico para compor o ambiente — mas nós sabemos o que esse formato carrega. Sabemos o que a madeira pesada, inclinada, amarrada à força, significa numa terra que triturou povos inteiros para erguer seu próprio país”, disse.

Em materiais de divulgação, a organização informou que o local contaria com áreas de descanso, apoio psicológico, atendimento médico e espaços para crianças. As participantes, porém, relataram cenário distinto do anunciado.

Atualizações indicam que parte das participantes que reclamaram foi transferida, mas ainda há relatos de permanência em áreas de estábulos. Até o momento, não houve resposta oficial da organização nem do ministério.

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