Moraes usou jatos de sócio do Master: "confusão patrimonial"
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Justiça

Moraes usou jatos de sócio do Master: “confusão patrimonial”

Especialistas criticam relação de ministros do STF com empresários

Moraes usou jatos de sócio do Master: "confusão patrimonial"

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Por Mariana Albuquerque

Jornalista e pós-graduada em Direito Legislativo.

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, teriam realizado ao menos oito voos em jatos executivos ligados ao empresário Daniel Vorcaro — dono do Banco Master — entre maio e outubro de 2025, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo com base em dados da Anac e do Registro Aeronáutico Brasileiro. O gabinete do ministro nega as informações e as classifica como “absolutamente falsas”. O caso foi debatido nesta quinta-feira (2) no programa Alive, apresentado por Claudio Dantas no YouTube.

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O advogado e juiz aposentado Adriano Soares da Costa avaliou que a nota divulgada em nome do escritório da mulher do ministro levanta mais dúvidas do que esclarece. “Esses pagamentos são abatidos dos honorários que recebe, mas não apresentou nenhuma prova, nenhum comprovante”, afirmou. Para ele, a situação se assemelha ao caso envolvendo serviços prestados ao Banco Master, no qual, segundo ele, “até mesmo a ex-empregada do Master disse que foi ela que fez e foi usado sem autorização dela.”

Costa foi além e contextualizou o episódio dentro do que chamou de desequilíbrio institucional. “O Supremo Tribunal Federal passou a se sentir um poder acima da república e alguns dos seus ministros passaram a achar que não precisavam ser agentes públicos”, disse. Segundo ele, ministros “passaram a viver como se fossem magnatas ou em função de magnatas.”

O advogado foi direto ao criticar o uso de aeronaves privadas. “Ninguém vai oferecer jatinho e pagar um preço alto por isso por amizade, por carinho, por causa dos olhos. As relações, na verdade, são benefícios privados em meio a interesses públicos”, afirmou. Ele também citou a legislação já existente. “Já existia o Código de Processo Civil, que proibia a atuação de familiares do juiz em processos que escritórios vinculados a familiares representassem partes”, lembrou, acrescentando que o próprio STF “deu por inconstitucional uma norma moralizadora” sobre o tema — o que, segundo ele, representou “o sinal claro de que a maioria dos ministros concordava com essa atuação de escritórios dos próprios filhos, esposas e parentes em causas que eles fossem julgar.”

Para ilustrar o contraste com outros países, Costa citou o exemplo alemão. “Na Alemanha, há discussão jurídica sobre se o autor de um livro pode presentear um juiz com o próprio livro. A que ponto se chega o zelo e o cuidado com esse distanciamento e essa ética na magistratura”, disse. “No Brasil, o pessoal quer normalizar pegar carona em jatos de empresários para fazer eventos bancados por grandes empresas do setor financeiro e econômico que têm causas submetidas à decisão do juiz. Isso é a demonstração de uma erosão ética no país.”

O analista

político Ary Alcântara, que afirma estar em Brasília há 60 anos, traçou um paralelo histórico. “Eu convivi com vários ministros do Supremo — Moreira Alves, Djaci Falcão, Leitão de Abreu, Rodrigues Alckmin — e nunca vi ministros do Supremo andar em jatinho de empresário”, disse.

Alcântara relembrou episódio pessoal envolvendo o ex-ministro Paulo Brossard. “Eu era superintendente do INCRA, me avisaram que o ministro estava lá embaixo. Fui encontrá-lo e ele estava na fila para pagar o ITR. Ele disse: ‘não, vou ficar aqui.’ Eu nunca vi essa promiscuidade que os ministros do Supremo atuais têm.”

O analista político cobrou uma solução política para o impasse institucional. “Esse excesso de poder do Supremo não pode continuar. Sai esse ministro, entra outro, mas esta tragédia que é o poder do Supremo tem que acabar. Nós temos que voltar a ter ministros como Moreira Alves, Leonardo Baleeiro. Nós temos que ter a sabedoria do Supremo, o segredo da discrição e a certeza de que vamos ter justiça”, afirmou.

Hugo Freitas, vice-presidente da Free Speech Union Brasil, destacou a impossibilidade legal de o ministro integrar o escritório da esposa. “Alexandre de Moraes não faz parte do escritório nem poderia fazer, porque ele não é advogado. É absolutamente impensável um juiz atuar ao mesmo tempo como advogado, principalmente de um cliente que tem causas que pode julgar”, disse. Freitas também traçou um paralelo com condenação anterior do presidente Lula. “Lula foi condenado porque era acusado de usufruir de um sítio que não estava no nome dele. O que a gente está vendo no caso de Moraes é o uso de um serviço de avião com possível envolvimento do escritório da esposa — o que parece indicar uma confusão patrimonial.”

O escritório Barci de Moraes afirma que “contrata diversos serviços de táxi aéreo” e que a Prime Aviation foi “em algum momento” contratada, com todos os valores “pagos compensando os honorários advocatícios nos termos contratuais.” O gabinete do ministro sustenta que as informações são “absolutamente falsas” e que ele “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro.”

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