MC Poze e a subclasse que pede respeito para o Comando Vermelho - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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MC Poze e a subclasse que pede respeito para o Comando Vermelho

Marlon Brandon, o "MC Poze", faz pose com correntes de ouro. Foto: Rio 189, modificada com IA.
Marlon Brandon, o "MC Poze", faz pose com correntes de ouro. Foto: Rio 189, modificada com IA.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Don Vito Corleone era o nome do personagem mafioso de Marlon Brando em “O Poderoso Chefão”. Descobri que Marlon Brandon Coelho Couto Silva é o nome real de outro personagem, o “MC Poze do Rodo”, funkeiro preso hoje no Rio. Ele é acusado de ser próximo de outra máfia, o Comando Vermelho.

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Segundo a investigação, o Marlon Brandon tupiniquim “realiza shows exclusivamente em áreas dominadas pelo Comando Vermelho (CV)”.

Como qualquer cidadão, claro, Marlon tem direito ao devido processo legal e à defesa. Outro fato digno de menção: o advogado do MC Poze se chama Fernando Henrique Cardoso. Credo.

O FHC vai ter trabalho para defender seu cliente, pois sua criatividade pariu letras que contêm versos como “Respeita o CV”, “Fala que é a tropa do Comando Vermelho”, “Ai, nosso fuzil tá demais”, “Na CDD [Cidade de Deus] só tem bandido faixa preta”.

Alguém pode dizer que é injusto que o funkeiro seja acusado de apologia ao crime, pois exaltar quem ele quiser em suas letras faz parte da liberdade de expressão. Simpatizo com esse argumento. Porém, quando o Iron Maiden cantava “666, o número da besta” e os Rolling Stones criavam uma música cujo título é “Simpatia pelo diabo”, não era como se eles morassem na mesma cidade que o capiroto ou exaltassem seu tridente que estivesse literalmente furando seus concidadãos. Aqui, a besta é outra.

Além da apologia ao crime, Poze — cujo nome acredito que é a grafia incorreta da palavra “pose”, mas me recuso a checar se é isso mesmo — também é acusado de envolvimento direto com o tráfico de drogas.

A subclasse brasileira influencia até congressistas

Outro que tem nome artístico é o ensaísta e psiquiatra britânico Theodore Dalrymple (nome real Anthony Daniels), 75 anos. Já tendo trabalhado como médico na África Subsaariana e em uma prisão no Reino Unido até se aposentar em 2005, ele é conhecido por suas observações precisas e críticas mordazes ao que ele chama de “subclasse” britânica.

Não é uma atitude condescendente de um rico contra um grupo de pobres. Não é a pobreza que define a subclasse, ao menos não a pobreza material, que é mais uma consequência, quando presente — mas o Estado de bem-estar social britânico assegura que ninguém seja realmente pobre no sentido absoluto.

A subclasse é definida por outro tipo de pobreza: moral e intelectual. Dalrymple tem denunciado um comportamento niilista, decadente e autodestrutivo que é uma marca da subclasse, mas também é incentivado pelas elites do país. A influência é mútua: ele conta como ideias criadas na universidade, que tiram a responsabilidade de criminosos por seus próprios crimes, percolam pela cultura até chegar aos próprios criminosos, que passam a dizer que “a faca entrou” em suas vítimas, em vez de “eu as esfaqueei”. Na outra direção, o psiquiatra vê uma moda de tatuagens e palavrões chegando até à família real, e pensa que a origem é a subclasse. Os ricos querem fazer cosplay de oprimido na terra do rei, também.

Algo similar acontece na cultura que circunda e perpassa o funk carioca. Ai de quem ousar, por exemplo, dizer que é um tipo inferior de música. Para ser generoso, o gosto musical tem sua grande parcela de subjetividade, e pode ser que aquelas vozes esganiçadas e desafinadas do funk sejam tão charmosas para quem gosta disso quanto é para mim a inconfundível voz nasalada da saudosa cantora Dolores O’Riordan, dos Cranberries.

Mas tudo tem limite. Como observa o ensaísta Rob Henderson, as elites americanas incentivam em sua produção cultural a promiscuidade, criticam as famílias nucleares, mas são um dos grupos mais monogâmicos do país. Aposto que é o mesmo por aqui: as elites de orientação progressista, geralmente com vidas relativamente regradas, aplaudem ou passam pano para a promiscuidade dos bailes funk e ignoram todas as suas consequências, da proliferação de mães solteiras às infecções sexualmente transmissíveis.

Já acuso os progressistas de passarem pano, também, para a glorificação da violência associada à subclasse funkeira, porque veio justamente de uma deputada do PSOL a primeira defesa do MC Poze a circular nas redes sociais.

“Prender o MC Poze é mais um capítulo da criminalização da cultura de favela”, alegou no X a deputada Talíria Petrone, que representa o estado do Rio de Janeiro e é líder da bancada do PSOL na Câmara. “O Estado abandona esses territórios, nega direitos e ainda persegue quem canta a realidade”.

Exaltar o Comando Vermelho, que ultimamente está agindo como o Hamas e o Talibã e decapitando pessoas pelo país, é só “cantar a realidade”, para a deputada. E, claro, a culpa pela criminalidade não é dos criminosos, mas do Estado — uma leve variação do tema progressista de culpar a sociedade pelo comportamento dos criminosos.

“Ao invés de perseguir fazedores de cultura, a polícia deveria investigar e responsabilizar quem financia o crime, inclusive a milícia. Funk não é crime. MC não é bandido. Basta de repressão aos nossos artistas!”, concluiu Petrone.

Abri a versão paga mais atualizada da inteligência artificial do Google, o Gemini, e pedi que procurasse, pela ferramenta de “pesquisa profunda” (que passa vários minutos escarafunchando a Internet) por registros de Talíria Petrone participando de baile funk.

O resultado: “A análise das informações disponíveis não revelou registros diretos da deputada Talíria Petrone participando de bailes funk comunitários na condição de frequentadora regular”.

Gemini, eu já sabia. Talíria Petrone é como aquela pessoa que exalta o “Poderoso Chefão”, minimiza os crimes da máfia siciliana, elogia a cultura italiana como um todo, mas se recusa a comer espaguete com molho de tomate e almôndegas. Ao menos ela tem um Marlon Brandon para chamar de seu.

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