Enquanto jornal americano diz que caso Filipe Martins tem “todas as marcas” de interferência, direita no Brasil faz bate-boca - Claudio Dantas
Brasília, Terça, 21 de julho de 2026
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Enquanto jornal americano diz que caso Filipe Martins tem “todas as marcas” de interferência, direita no Brasil faz bate-boca

Filipe Martins cumprimenta Donald Trump em 2019. Foto: The White House.
Filipe Martins cumprimenta Donald Trump em 2019. Foto: The White House.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Mary Anastasia O’Grady, colunista do veículo The Wall Street Journal (WSJ), onde é também membro do conselho editorial há 20 anos, tem sido uma voz salutar para o caso Filipe Martins, ex-assessor de assuntos internacionais do presidente Jair Bolsonaro que está em julgamento no Supremo por suposta tentativa de golpe.

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Em 30 de junho de 2024, O’Grady foi a primeira a noticiar um registro fraudulento de entrada de Martins nos Estados Unidos no dia 30 de dezembro de 2022, sob um falso formulário I-94 com três erros que só poderia ter sido plantado por um funcionário do órgão de alfândega e proteção às fronteiras (CBP) em Orlando.

No dia 10 de outubro, o CBP finalmente emitiu uma nota reconhecendo que “o Sr. Martins não entrou nos EUA nessa data”, o que “contradiz diretamente as alegações feitas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Alexandre de Moraes, indivíduo recentemente sancionado pelos EUA por violações de direitos humanos contra o povo brasileiro”. O órgão também reconhece que Moraes usou o registro falso para manter o ex-assessor preso por seis meses.

Em artigo publicado no domingo (19), O’Grady reagiu à nota do CBP. “Alguém no CBP ou no Departamento de Segurança Interna [DHS], que supervisiona a agência, merece crédito extra por expor essa farsa”, disse a colunista.

“O CBP diz que a investigação continua, e isso é bom, porque o trabalho não está concluído. O caso tem todas as marcas de penetração estrangeira dentro do CBP”, acrescentou O’Grady.

A jornalista estranha que a página Travel History (histórico de viagem) — que o CBP informa não ter valor legal como prova de entrada, ao contrário do I-94 —, utilizada por Moraes provavelmente com base em reportagens de Guilherme Amado no portal Metrópoles para afirmar uma fuga de Martins, ainda não tenha sido corrigida.

Para O’Grady, a fraude teve duas frentes: (1) a inserção no Travel History, primeiro; e (2) a produção do I-94 falso com o nome de Martins grafado incorretamente (“Felipe” em vez de Filipe), com o número de um passaporte que ele perdeu em 2021 e com o registro da categoria errada de visto.

A fraude do I-94, plantada 14 meses depois da data de suposta entrada, é mais grave e motiva a investigação, dado que o Travel History é sabidamente sujeito a erros. O formulário I-94 só pode ser registrado quando um indivíduo de fato passa pela alfândega.

Fontes próximas a Martins consultadas pelo Portal Claudio Dantas confirmam, contudo, que mesmo no Travel History a possibilidade de erro honesto é remota, pois “não existem indícios de envio de informações de Filipe Martins no voo do governo” em dezembro de 2022. O histórico de viagem às vezes é feito com base em listas preliminares de passageiros em aviões oficiais de governos estrangeiros. Mas não há indícios de que qualquer versão de lista mandada pelo Brasil incluísse Martins.

A própria Agência Brasil publicou em julho deste ano que o embaixador André Chermont, cônsul-geral do Brasil em Tóquio, confirmou que Filipe Martins não embarcou para os EUA naquela data. Chermont foi interrogado na qualidade de testemunha no julgamento, pois na época ele era chefe do cerimonial da Presidência da República. Ele acompanhou pessoalmente o embarque de passageiros do voo.

A última entrada verdadeira de Martins nos EUA foi em setembro de 2022, acompanhando Bolsonaro à Assembleia Geral das Nações Unidas.

O diferencial da colunista do WSJ

Como uma observadora externa, um dos diferenciais de Mary O’Grady é a clareza que o distanciamento lhe dá sobre os eventos no Brasil. Para ela, o motivo da perseguição a Filipe Martins é claro.

“O Sr. Bolsonaro perdeu a reeleição em outubro de 2022. Antes e depois da votação, ele reclamou com amargura da falta de um processo de auditoria no sistema eletrônico de votos. Mas ele voou para os EUA no fim de dezembro de 2022 e assim renunciou à presidência voluntariamente. Ele não compareceu à posse de Lula em 1º de janeiro de 2023”, reconta O’Grady.

“Em 8 de janeiro de 2023, durante um protesto pró-Bolsonaro em Brasília, vândalos invadiram o Supremo e o Congresso. Era um domingo; os prédios estavam vazios. Mesmo assim, o ministro Moraes usou a invasão para acusar o Sr. Bolsonaro de estar por trás de uma tentativa de golpe contra Lula.”

“Para montar seu caso, o ministro buscou voltar os de dentro contra seu ex-chefe. A maioria permaneceu leal. Era improvável que os incentivos positivos funcionassem. Mas o CBP deu ao ministro Moraes um porrete.”

“O Sr. Martins alegou que o ministro Moraes precisava de uma razão para mantê-lo atrás das grades, pois o ministro estava tentando coagir uma confissão a respeito do alegado plano golpista de Bolsonaro. O Sr. Martins disse que foi mantido em cela solitária, sem janelas e sem luz, por 10 dias, de 23 de fevereiro a 4 de março. Ele foi transferido para prisão domiciliar em 22 de abril de 2025, por um papel em um suposto plano de golpe.”

A colunista também relata que a fraude do I-94 apareceu entre abril e maio de 2024, após a advogada de Martins na Flórida, Ana Bárbara Schaffert, solicitar ao CBP uma cópia do formulário. Inicialmente, nada constava referente a dezembro de 2022. Um mês depois, o registro subitamente apareceu, com os três erros. “Obviamente, era falso”, comenta O’Grady.

“O CBP tentou apagar suas pegadas: corrigiu o erro de digitação no nome, o número do passaporte e o tipo de visto”. Atendendo a um pedido com base na Lei de Acesso à Informação americana, o CBP entregou o histórico de edições dos registros, mas censurou os nomes dos funcionários envolvidos. “Os americanos têm razão em perguntar o que o CBP está tentando esconder”, concluiu O’Grady.

Fraude motiva briga entre advogado de defesa de Martins e Paulo Figueiredo

Na semana passada, um dos advogados que representam Filipe Martins no julgamento, Jeffrey Chiquini, se desentendeu publicamente com o jornalista Paulo Figueiredo, que mora nos EUA e tem articulado, junto com Eduardo Bolsonaro, sanções contra Moraes, seus aliados no STF e figuras do governo Lula 3.

Figueiredo, que também é réu no julgamento do suposto golpe, propôs em seu programa que o registro falso de entrada ainda poderia ter sido um erro honesto das autoridades de fronteira ou do governo Bolsonaro.

“Se amanhã descobrirem que foi um erro a inclusão [de Martins no registro de entrada], digamos alguém que trabalhasse no governo Bolsonaro e tenha erroneamente achado que o Filipe ia participar das viagens, com os dados equivocados. Porque, convenhamos, a turma do governo Bolsonaro também faz muita merda”.

Chiquini reagiu descrevendo o comentário como “levantar hipóteses impossíveis”. “O que não dá para entender é por que supostos aliados agiriam da mesma forma e encampariam hipóteses que ninguém consideraria plausíveis, a não ser por completa ignorância ou má-fé”, reclamou o advogado. Outro ponto contencioso entre os dois foi a lista de nomes em registro de entrada no Palácio da Alvorada nas datas em torno da viagem, que Chiquini defende que foi fraudada para incriminar seu cliente.

A briga culminou em um bate-boca no programa do jornalista Marco Antônio Costa, em que os dois trocaram palavras de baixo calão. “Bom dia é o cacete”, disse Figueiredo. “Eu reconheço um vagabundo de longe”, disse Chiquini.

O colunista da Gazeta do Povo, Paulo Polzonoff, lamentou a briga. “Essa briga ensina muito sobre o que estou chamando de decadência do bolsonarismo”, sugeriu. Para ele, o episódio revela “a dificuldade que a direita sempre teve de enfrentar a realidade, que é hostil, sim, e injusta”.

“Mas é com essa realidade que a gente tem que lidar”, acrescentou Polzonoff. “A realidade é que o Lula está aí, nunca desceu do palanque. A realidade é que Moraes continua muito poderoso, apesar da Lei Magnitsky. A realidade é que Lula provavelmente vai indicar Jorge Messias para a vaga do Barroso no STF, aparelhando ainda mais [a corte]”.

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